Radar Fiscal

Justiça Federal de Uberlândia endurece controle sobre hormônios no leite: o que isso muda para o consumidor e o produtor

Compartilhe esse artigo:

WhatsApp
Facebook
Threads
X
Telegram
LinkedIn
Justiça Federal de Uberlândia endurece controle sobre hormônios no leite: o que isso muda para o consumidor e o produtor

Recentemente, a Justiça Federal de Uberlândia tomou uma decisão que pode mudar o jeito como o leite chega à nossa mesa. O juiz Osmane Antônio dos Santos determinou que a União e a Anvisa reforcem o controle sobre o uso de hormônios em vacas leiteiras, especialmente a ocitocina e a somatotropina bovina. Para quem, como eu, costuma ler rótulos e se preocupar com a procedência dos alimentos, a notícia traz dúvidas, esperanças e, claro, a necessidade de entender o que isso significa na prática.



Por que a decisão foi necessária?

O Ministério Público Federal e o Ministério Público de Minas Gerais abriram uma Ação Civil Pública apontando falhas graves na fiscalização da cadeia produtiva do leite. Entre os riscos citados estavam resíduos de antimicrobianos, pesticidas e, sobretudo, hormônios usados de forma indiscriminada para aumentar a produção. Embora laboratórios tenham encontrado os produtos finais dentro dos limites legais, o juiz percebeu que o problema está na estrutura de controle – ou melhor, na falta dela.



O que são esses hormônios e como eles são usados?

A ocitocina e a somatotropina bovina (também chamada de lactotropina) são substâncias que, quando aplicadas corretamente, ajudam a melhorar o manejo reprodutivo e a eficiência da produção. Porém, o que tem acontecido é o chamado uso “off‑label”: aplicação rotineira, sem prescrição veterinária, apenas para “encher o copo” de leite. Em alguns casos, até há compartilhamento de agulhas, o que aumenta o risco de transmissão de doenças como brucelose e tripanossomíase.



Quais são as novas regras?

Dentro de 120 dias, a União e a Anvisa precisam implementar medidas como:

  • Exigência de prescrição médico‑veterinária para a compra de ocitocina e somatotropina.
  • Rastreamento eletrônico de cada aplicação, com retenção de receita ou sistema digital de notificação.
  • Criação de um Plano Nacional de Controle de Resíduos e Contaminantes (PNCRC) com relatórios semestrais públicos.

Além disso, cooperativas como Cemil, Calu e Itambé terão até 90 dias para apresentar relatórios detalhados sobre seus Programas de Autocontrole e o Plano de Qualificação de Fornecedores de Leite.

Como isso afeta o consumidor?

Para quem compra leite ou derivados, a mudança traz mais transparência. Quando os produtores forem obrigados a registrar cada aplicação de hormônio, será mais fácil rastrear a origem do leite e garantir que ele esteja dentro dos padrões de segurança. Em teoria, isso reduz a chance de resíduos indesejados chegarem ao consumidor.

Mas, na prática, ainda depende da eficácia da fiscalização. Se os órgãos realmente cumprirem os prazos e mantiverem os relatórios atualizados, teremos um circuito de confiança mais robusto. Caso contrário, a decisão pode ficar apenas no papel.

Impactos para os produtores

Os pequenos e médios produtores de leite podem sentir o peso da nova regulamentação. A exigência de prescrição e o rastreamento eletrônico implicam custos adicionais – seja na compra de softwares, seja na contratação de veterinários. Por outro lado, a medida também pode nivelar o campo de jogo: produtores que já seguem boas práticas não serão mais “penalizados” por concorrentes que usam hormônios de forma ilegal.

É importante lembrar que a maioria dos grandes laticínios, como Itambé, já tem certificações internacionais (FSSC 22000, por exemplo) e processos de controle bem estabelecidos. A diferença maior será para quem ainda opera de forma informal.

O que a indústria está dizendo

A Cemil, que ainda não recebeu notificação formal, afirmou que todos os seus produtos analisados estavam em conformidade e que possui certificação internacional. O Sindicato da Indústria de Laticínios de Minas Gerais (Silemg) também destacou que os laudos apontaram 100% de conformidade nos testes de leite, seguindo normas do Codex Alimentarius.

Essas declarações são reconfortantes, mas não anulam a necessidade de um controle mais rígido. Quando há divergência entre o que a indústria afirma e o que a Justiça percebe, o caminho mais seguro é fortalecer a fiscalização.

Próximos passos e o que podemos fazer

Se você, como eu, se preocupa com a qualidade do leite que consome, há algumas atitudes simples:

  • Prefira produtos de marcas que divulgam seus processos de controle e certificações.
  • Fique de olho nos relatórios semestrais que deverão ser publicados nos portais da Anvisa e da União.
  • Se possível, opte por leite de produtores locais que tenham boas práticas de manejo e que estejam dispostos a mostrar documentação.

Além disso, vale acompanhar as notícias sobre o cumprimento dos prazos. Se, após 120 dias, não houver mudanças concretas, a pressão da sociedade civil pode ser um caminho para garantir que as normas sejam efetivamente aplicadas.

Conclusão

O endurecimento do controle sobre hormônios no leite é, sem dúvida, uma vitória para a saúde pública e para o bem‑estar animal. Ainda há muito a ser feito – principalmente na fiscalização e na educação dos produtores – mas a decisão da Justiça de Uberlândia coloca o tema em foco nacional.

Para nós, consumidores, isso significa mais segurança e, quem sabe, um futuro onde a qualidade do leite seja garantida de forma transparente. Para os produtores, representa um desafio, mas também uma oportunidade de se adequar a padrões internacionais e ganhar ainda mais confiança do mercado.

Vamos acompanhar juntos esse desenrolar e, quem sabe, celebrar um leite mais puro nas próximas manhãs?