Em janeiro de 2026, o Índice de Confiança do Empresário Industrial (ICEI) subiu apenas 0,5 ponto, alcançando 48,5. Parece até um leve avanço, mas o número ainda está abaixo da barreira dos 50 pontos – o limite que indica confiança. O mais preocupante? Esse foi o pior resultado para o mês de janeiro nos últimos dez anos, igualando o patamar de 2016, quando o país ainda enfrentava a recessão que marcou a crise econômica.
Mas o que isso significa na prática para quem tem uma empresa, trabalha em uma fábrica ou simplesmente acompanha a economia? Para começar, o ICEI é construído a partir de respostas de 1.058 empresas – de pequenos negócios a grandes corporações – e reflete como os empresários enxergam a situação atual e as expectativas para os próximos seis meses.
Por que a confiança está tão baixa?
A resposta mais direta vem da própria Confederação Nacional da Indústria (CNI). O gerente de Análise Econômica, Marcelo Azevedo, aponta que a taxa Selic, que subiu para 15% ao ano – o maior patamar em quase duas décadas – tem sido o vilão. Quando os juros sobem, o custo do crédito aumenta tanto para consumidores quanto para empresas. Em termos simples, fica mais caro pegar empréstimos para investir, comprar matéria‑prima ou até mesmo pagar fornecedores.
Esse efeito cascata afeta a produção, as vendas e, consequentemente, a confiança. Quando a taxa Selic foi elevada a partir do fim de 2024, os empresários começaram a sentir o aperto nos balanços. O resultado? Uma confiança que se mantém baixa desde então.
Desdobrando o ICEI: condições atuais vs. expectativas
O índice é dividido em duas partes: Condições Atuais e Expectativas. Em janeiro, as Condições Atuais subiram 0,2 ponto, ficando em 44 pontos – ainda bem abaixo de 50. Isso mostra que, no dia a dia, os empresários ainda veem a economia como desfavorável.
Já o componente de Expectativas ganhou 0,7 ponto, passando de 50 para 50,7. Essa leve alta indica que, apesar do pessimismo presente, há um otimismo cauteloso para o futuro próximo, principalmente em relação ao desempenho das próprias empresas. Em outras palavras, eles acreditam que podem melhorar seus resultados internos, mesmo que o cenário macroeconômico pareça incerto.
Como isso afeta o seu negócio ou a sua vida?
- Financiamento mais caro: Se você pensa em expandir, comprar máquinas novas ou até mesmo renegociar dívidas, o custo do crédito pode ser um obstáculo maior do que o esperado.
- Redução de investimentos: Empresas que sentem falta de confiança tendem a adiar projetos de expansão, o que pode gerar menos vagas de emprego e menos inovação no setor.
- Pressão sobre preços: Para compensar custos mais altos, algumas indústrias podem repassar parte desse peso ao consumidor final, impactando o preço dos produtos que você compra.
- Oportunidades para quem tem caixa: Por outro lado, negócios que já possuem reservas financeiras podem aproveitar a situação para negociar melhores condições com fornecedores que também estejam apertados.
O que o governo e o Banco Central podem fazer?
A política monetária, liderada pelo Banco Central, tem a Selic como principal ferramenta. Manter a taxa em 15% ajuda a controlar a inflação, mas também retarda o crescimento econômico. O dilema clássico: combater a alta de preços ou estimular a atividade produtiva.
Algumas opções que costumam ser debatidas incluem:
- Redução gradual da Selic: Se a inflação começar a desacelerar, o BC pode baixar os juros, aliviando o crédito.
- Incentivos fiscais temporários: Reduções de impostos para setores estratégicos podem melhorar a confiança sem mexer diretamente nos juros.
- Linhas de crédito especiais: Programas de financiamento com juros subsidiados para investimentos produtivos.
Mas cada medida tem seus custos e riscos, e a decisão depende de como a inflação evoluir nos próximos meses.
Perspectivas para 2026: o que esperar?
Se a tendência de expectativa positiva continuar – ainda que modestamente – podemos ver um leve aumento no ICEI ao longo do ano, especialmente se a inflação começar a responder às políticas de contenção. No entanto, se a Selic permanecer em 15% por muito tempo, a confiança pode permanecer estagnada ou até cair novamente.
Para os empreendedores, a mensagem prática é: mantenha um olho atento ao custo do crédito e planeje cenários conservadores. Avalie a possibilidade de melhorar a eficiência operacional, reduzir custos e buscar parcerias que ofereçam condições mais vantajosas.
Para quem está do lado do consumo, a dica é ficar de olho nos preços dos bens duráveis e nos juros de financiamentos, como carro e casa. Em períodos de juros altos, o custo total de um financiamento pode subir significativamente.
Conclusão
O ICEI de janeiro deixa claro que a confiança industrial ainda está em terreno delicado, pressionada por juros elevados e pela percepção de uma economia que ainda não se recuperou totalmente. Ainda que haja um leve otimismo nas expectativas de curto prazo, o caminho para melhorar esse cenário passa por políticas que equilibram controle inflacionário e estímulo ao crédito.
Se você é empresário, a melhor estratégia agora é focar em gestão de caixa, buscar fontes de financiamento mais baratas (se possível) e ficar atento às oportunidades que surgem quando o mercado está cauteloso. Se você é consumidor, planeje suas compras de forma consciente, considerando o impacto dos juros nos financiamentos. Em ambos os casos, acompanhar indicadores como o ICEI pode dar pistas valiosas sobre a direção da economia nos próximos meses.



