Recentemente, o Japão deu um passo que parece saído de um filme de ficção científica: perfurou o leito oceânico a quase 6.000 metros de profundidade e trouxe à superfície lama rica em terras raras. O feito aconteceu próximo à ilha remota de Minamitorishima, a quase 2.000 km ao sudeste de Tóquio, e foi realizado pela embarcação de perfuração Chikyu. Mas, além do aspecto técnico impressionante, o que realmente está em jogo aqui?
As chamadas terras raras são um conjunto de 17 elementos químicos que, apesar do nome, não são escassos na crosta terrestre. O que as torna “raras” é a dificuldade de extraí‑las e refiná‑las de forma economicamente viável. Esses minerais são a espinha dorsal de muitas tecnologias modernas: ímãs superpotentes em veículos elétricos, turbinas eólicas, aparelhos de ressonância magnética, smartphones, e até componentes críticos para sistemas de defesa.
A China controla atualmente cerca de 80% da produção mundial de terras raras, o que dá ao país uma vantagem estratégica enorme. Essa dependência tem sido motivo de preocupação para governos que buscam garantir a segurança de suas cadeias de suprimento. O Japão, que historicamente importou quase tudo o que precisava, decidiu mudar o jogo ao explorar recursos submarinos – um território ainda pouco explorado pela maioria das nações.
Mas por que o fundo do mar? Estudos iniciados na década de 2010 já apontavam que as áreas ao redor de Minamitorishima continham sedimentos com concentrações de minerais críticos que poderiam durar séculos. A ideia é simples: se a terra firme já está saturada de mineração e os impactos ambientais são cada vez mais críticos, o oceano oferece um “banco” ainda pouco tocado, onde a extração pode ser feita de forma mais controlada – embora não sem desafios.
O processo de extração, no caso do Japão, envolve a perfuração de um poço até o leito oceânico, a coleta de lama contendo os minerais e, depois, a separação e refino desses elementos em instalações terrestres. A missão da Chikyu, que significa “Terra”, foi a primeira do mundo a demonstrar que é possível recuperar sedimentos contendo terras raras a essa profundidade. Ainda não sabemos exatamente quanto material foi coletado ou quais são os custos envolvidos, mas a própria realização já é vista como um marco.
Do ponto de vista econômico, a iniciativa pode trazer benefícios duplos. Primeiro, reduz a vulnerabilidade do Japão a pressões externas – como as sanções ou restrições de exportação que a China tem imposto recentemente. Segundo, abre um novo mercado para tecnologias de mineração submarina, que podem ser exportadas para outros países que também desejam diversificar suas fontes de minerais críticos.
Entretanto, há desafios significativos. O custo de operar um navio como o Chikyu, que requer tecnologia de ponta e equipes altamente especializadas, é elevado. Além disso, o processo de separar as terras raras da lama marinha ainda está em fase experimental. O governo japonês reconheceu que a viabilidade econômica dependerá dos resultados desses testes de refino.
Outro ponto que merece atenção é o aspecto ambiental. Embora a mineração submarina possa parecer menos invasiva que a terrestre, ainda há riscos: perturbação dos habitats bentônicos, liberação de sedimentos que podem afetar a fauna marinha e a possibilidade de acidentes que causem vazamentos de químicos. O Japão tem prometido conduzir a atividade dentro de um “desenvolvimento oceânico abrangente”, mas a comunidade científica internacional continuará vigilante.
Para nós, consumidores, a notícia pode parecer distante, mas as implicações chegam ao nosso cotidiano. Se o Japão conseguir produzir terras raras de forma sustentável e em escala comercial, isso pode reduzir os preços de componentes eletrônicos, tornar os veículos elétricos mais acessíveis e diminuir a dependência de cadeias de suprimento vulneráveis. Em outras palavras, a inovação pode chegar ao seu bolso mais rapidamente.
Além do impacto econômico, há um aspecto geopolítico importante. A iniciativa japonesa vem em meio a tensões crescentes com a China, especialmente após comentários da primeira‑ministra Sanae Takaichi sobre a possibilidade de apoio ao Japão em caso de conflito em Taiwan. A China, por sua vez, já suspendeu exportações de bens de uso duplo com potencial militar para o Japão. Ao desenvolver sua própria fonte de minerais críticos, o Japão envia uma mensagem clara de que busca autonomia estratégica.
Mas será que outros países vão seguir o exemplo? Os Estados Unidos já têm projetos de mineração em águas profundas, e a União Europeia está investindo em pesquisa para explorar depósitos submarinos. Se a tecnologia se provar viável, podemos estar à beira de uma nova corrida – não por petróleo, mas por minerais que alimentam a revolução verde e digital.
Em resumo, a perfuração da Chikyu representa muito mais que um feito técnico: é um indicativo de como a geopolítica, a economia e a tecnologia estão cada vez mais interligadas. O futuro da energia limpa, dos dispositivos eletrônicos e da segurança nacional pode depender de como conseguimos extrair e processar recursos que antes estavam escondidos nas profundezas do oceano.
Fique de olho nas próximas etapas desse projeto – os próximos relatórios prometem revelar a quantidade exata de terras raras coletadas, os custos de refino e, quem sabe, o primeiro protótipo de um processo industrial completo. Enquanto isso, podemos nos perguntar: até onde a humanidade está disposta a ir para garantir os recursos que alimentam nossa era digital?



