Radar Fiscal

Itália pede tempo: o que a negociação UE‑Mercosul significa para o Brasil e para o seu bolso

Compartilhe esse artigo:

WhatsApp
Facebook
Threads
X
Telegram
LinkedIn
Itália pede tempo: o que a negociação UE‑Mercosul significa para o Brasil e para o seu bolso

Na manhã de 18 de outubro, eu estava lendo as notícias no celular quando me deparei com um telefonema que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez à primeira‑ministra da Itália, Giorgia Meloni. A conversa, que acabou virando manchete, traz um detalhe que pode mudar o rumo de um acordo comercial que está em pauta há mais de 25 anos: a Itália pediu mais tempo para convencer seus agricultores e, assim, aprovar o tratado entre a União Europeia (UE) e o Mercosul.

Por que esse acordo é tão importante?

Antes de mergulharmos nos bastidores da negociação, vale entender por que o acordo UE‑Mercosul gera tanto alvoroço. Em linhas gerais, o tratado visa eliminar ou reduzir tarifas de importação e exportação entre dois blocos que, juntos, representam quase metade do PIB mundial. Para o Brasil, isso significa acesso mais barato a mercados como a Alemanha, a França e a própria Itália, especialmente para produtos agrícolas como carne bovina, soja, café e açúcar.

Para a Europa, o objetivo é garantir o abastecimento de alimentos a preços competitivos e diversificar as fontes de importação, reduzindo a dependência de países como os EUA ou a China. Em teoria, o acordo seria um ganha‑ganha: mais exportações brasileiras, mais opções para consumidores europeus e, possivelmente, mais empregos em ambos os lados.

O que a Itália realmente quer?

Segundo Lula, Meloni não é contrária ao acordo, mas está enfrentando um “constrangimento político” por causa da pressão dos agricultores italianos. Eles temem que a entrada de carne e soja latino‑americanas, produzidas sob normas ambientais menos rígidas, possa derrubar os preços no mercado interno e colocar em risco a sustentabilidade das pequenas propriedades familiares.

Meloni pediu ao Brasil um prazo de “uma semana, dez dias, no máximo um mês” para conseguir convencer os produtores italianos. Essa solicitação pode parecer pequena, mas tem um peso enorme nas negociações. Cada dia de atraso pode influenciar a decisão de outros países da UE, como França, Alemanha e Espanha, que já mostraram posições divergentes.

Os bastidores da UE: quem está a favor e quem está contra?

Enquanto a Itália pede tempo, outros líderes europeus já deixaram claro onde estão. O presidente francês, Emmanuel Macron, afirmou que a França não apoiará o acordo sem novas salvaguardas para seus agricultores. Ele tem medo de que a concorrência desleal prejudique o setor agropecuário francês, que já enfrenta desafios como a crise climática e a alta dos custos de produção.

Por outro lado, o chanceler alemão, Friedrich Merz, e o primeiro‑ministro espanhol, Pedro Sánchez, defendem que o bloco avance. Eles argumentam que o acordo já inclui mecanismos de proteção que permitem a imposição de tarifas caso os preços de produtos latino‑americanos caiam mais de 5 % em relação aos europeus ou se o volume de importações isentas de tarifas subir mais de 5 %.

Essas salvaguardas, aprovadas recentemente pelo Parlamento Europeu, são vistas como um “cinto de segurança” para os setores mais sensíveis, como carne bovina, aves e açúcar. Ainda assim, a França mantém a oposição e pediu adiamento da assinatura, que está prevista para acontecer em Foz do Iguaçu, no Paraná, durante a cúpula de chefes de Estado do Mercosul.

O que isso significa para o brasileiro comum?

Se o acordo for aprovado, o impacto será sentido em diferentes áreas da nossa economia e, consequentemente, no seu dia a dia. Vamos dividir em três tópicos principais:

  • Preços dos alimentos: A redução de tarifas pode baixar o preço de alguns produtos importados, como vinhos e queijos, mas também pode aumentar a concorrência para produtores locais, pressionando margens de lucro.
  • Exportadores e agricultores: Para quem produz soja, carne ou café, o acesso a mercados europeus pode significar maiores volumes de venda e, potencialmente, mais empregos nas regiões produtoras.
  • Setor industrial: Indústrias que dependem de insumos importados da UE, como máquinas agrícolas ou componentes automotivos, podem se beneficiar de custos menores, o que pode refletir em preços mais baixos de bens de consumo.

Mas nem tudo são flores. Há quem aponte que a abertura do mercado pode favorecer grandes conglomerados em detrimento dos pequenos produtores, que podem não ter a escala necessária para competir com preços internacionais.

Como a negociação pode evoluir nos próximos dias?

O Conselho Europeu está reunido para deliberar sobre o texto. Se a maioria dos países votar a favor, a assinatura está marcada para o sábado, 20 de outubro, em Foz do Iguaçu. Caso a Itália mantenha sua posição de “precisamos de mais tempo”, pode haver um adiamento ou, no pior cenário, um bloqueio que faça o acordo cair.

É importante lembrar que a UE costuma agir por consenso. Se um país grande como a Itália ficar em dúvida, os demais podem tentar compensar com concessões adicionais, como reforçar as salvaguardas ambientais ou criar fundos de apoio aos agricultores europeus.

Do lado brasileiro, o presidente Lula prometeu levar a mensagem de Meloni à reunião do Mercosul, para que os companheiros decidam o próximo passo. Isso demonstra que, apesar das pressões externas, o Brasil ainda tem margem de manobra para negociar detalhes que atendam aos seus interesses.

O que podemos esperar para o futuro?

Independentemente do resultado imediato, o debate sobre o acordo UE‑Mercosul traz à tona questões que vão além de tarifas. Ele coloca em foco a necessidade de alinhar padrões ambientais, de bem‑estar animal e de sustentabilidade entre os continentes. Se a UE exigir que o Mercosul adote regras mais rígidas, isso pode impulsionar mudanças na produção agrícola latino‑americana, algo que, a longo prazo, pode ser benéfico para o planeta.

Além disso, a negociação abre espaço para que outros blocos comerciais observem o processo. Países como o Japão, a Coreia do Sul ou até mesmo os Estados Unidos podem se inspirar em como grandes blocos lidam com diferenças regulatórias e pressões setoriais.

Para nós, leitores, o mais importante é acompanhar como esses grandes acordos afetam o nosso bolso, o nosso trabalho e o futuro da nossa produção. Não é só política distante; são decisões que podem mudar a forma como compramos carne, cultivamos soja ou até mesmo como o clima será tratado nas próximas décadas.

Resumo rápido – o que você precisa lembrar

  • Itália pediu até um mês de prazo para convencer agricultores.
  • França ainda se opõe ao acordo sem novas salvaguardas.
  • A assinatura está prevista para 20/10 em Foz do Iguaçu (Paraná).
  • Se aprovado, o acordo pode reduzir tarifas, abrir mercados e exigir padrões ambientais mais rígidos.
  • O impacto no consumidor brasileiro será misto: preços mais baixos em alguns produtos, mas maior competição para produtores locais.

Eu, como alguém que acompanha de perto as notícias de economia e comércio exterior, fico na expectativa de ver como a UE vai equilibrar os interesses dos agricultores com a necessidade de avançar em acordos que podem trazer benefícios globais. E você, como acha que esse acordo pode mudar a sua rotina? Vale a pena ficar de olho nas próximas semanas, porque o que acontecer em Brasília e em Bruxelas pode acabar na sua mesa.

Se quiser acompanhar mais detalhes, recomendo seguir as transmissões ao vivo da cúpula do Mercosul, ler análises de especialistas em comércio internacional e, claro, ficar de olho nas declarações dos nossos representantes no Conselho Europeu. O futuro do comércio global está em jogo, e cada detalhe conta.