Um acordo que está dando o que falar
Na última quinta‑feira, a primeira‑ministra da Itália, Giorgia Meloni, disse que o país está disposto a apoiar o acordo comercial entre a União Europeia (UE) e o Mercosul – mas só depois de atender às preocupações dos agricultores italianos. Parece papo de diplomacia, mas tem um efeito direto no nosso dia a dia, principalmente se você vive de agricultura ou acompanha o preço dos alimentos nas prateleiras.
O que está em jogo?
O acordo UE‑Mercosul, concluído após 25 anos de negociações, promete reduzir ou eliminar tarifas de importação e exportação entre os dois blocos. Em teoria, isso abre caminho para que produtos como carne bovina, soja, açúcar e vinho circulem com menos impostos. Para o Brasil, que tem um setor agroexportador muito forte, a assinatura pode significar mais mercados e mais dinheiro no bolso dos produtores.
Mas a realidade europeia tem outra cara. Agricultores da França, da Alemanha e, principalmente, da Itália, temem que a concorrência de produtos sul‑americanos, produzidos sob normas ambientais menos rígidas, derrube os preços internos. Eles temem, por exemplo, que a carne de bovinos argentinos chegue mais barata do que a italiana, prejudicando pequenos produtores que já lutam contra a alta dos custos de produção.
Por que a Itália está na encruzilhada?
Meloni, que costuma ser firme nas questões de soberania nacional, explicou que o governo italiano está pronto para assinar o acordo “assim que forem dadas as respostas necessárias aos agricultores”. Ela pediu ao presidente brasileiro Luiz Inácio Lula um prazo de uma a quatro semanas para que o debate interno na Itália se resolva.
O que está acontecendo nos bastidores?
- Pressão dos sindicatos agrícolas: manifestações em Roma e outras cidades mostraram que a classe rural está pronta para protestar, inclusive com queima de pneus, como aconteceu em Bruxelas.
- Salvaguardas da Comissão Europeia: o Parlamento europeu aprovou mecanismos que permitem reintroduzir tarifas caso o preço de um produto latino‑americano caia mais de 5 % em relação ao preço europeu ou se as importações aumentarem mais de 5 %.
- Jogos políticos internos: Meloni tem que equilibrar a vontade de seu partido, que defende a agricultura nacional, com a necessidade de manter boas relações dentro da UE.
E o Brasil? Como reagir?
Para nós, a principal questão é: o acordo vai ser assinado ou não? Se a Itália decidir apoiar, o bloco europeu ganha um voto a mais no Conselho, facilitando a aprovação final que deve acontecer em Foz do Iguaçu, no Paraná, no próximo sábado (20).
Mas, independentemente do resultado, há lições importantes:
- Prepare-se para a concorrência: produtores brasileiros podem usar a oportunidade para melhorar a qualidade e a rastreabilidade dos seus produtos, mostrando que cumprem padrões ambientais e de bem‑estar animal.
- Invista em diferenciação: marcas que conseguem contar histórias de sustentabilidade conseguem preços melhores mesmo em mercados mais competitivos.
- Fique de olho nas salvaguardas: se a UE ativar tarifas de defesa, isso pode criar brechas para exportadores que já têm certificações reconhecidas.
O que isso muda para o consumidor brasileiro?
Se o acordo for aprovado, a tendência é que alguns produtos importados fiquem mais baratos. Por exemplo, o vinho argentino ou o açúcar brasileiro podem aparecer com preços menores nas prateleiras. Por outro lado, se houver protestos e o acordo for adiado, podemos continuar pagando um pouco mais por esses itens, mas também preservamos os produtores locais que temem a concorrência desleal.
Para quem compra direto de produtores – feiras, hortas comunitárias ou cooperativas – a mudança pode ser menos perceptível no curto prazo, mas vale observar se os preços de insumos agrícolas (sementes, fertilizantes) também são afetados pelas negociações comerciais.
Qual o futuro?
O cenário ainda está em construção. Enquanto a UE discute internamente, a França já sinalizou que vai exigir mais salvaguardas, e a Alemanha e a Espanha defendem avançar. Se a Itália seguir o caminho da França, o acordo pode ser postergado, o que daria mais tempo para ajustes. Se, ao contrário, ela se juntar ao bloco, o tratado pode ser ratificado rapidamente, com a presença de Ursula von der Leyen no Brasil para oficializar tudo.
Para o Brasil, o ideal seria um acordo que inclua:
- Compromissos claros de respeito ao meio ambiente nos países do Mercosul.
- Monitoramento constante dos preços e volumes de importação.
- Incentivo a práticas sustentáveis que ajudem nossos produtores a competir em igualdade de condições.
Essas condições não só protegem os agricultores europeus, mas também garantem que o Brasil não seja acusado de “dumping” ambiental.
Conclusão pessoal
Eu acompanho essas discussões porque, como alguém que gosta de cozinhar com ingredientes frescos, sinto na prática o impacto de políticas comerciais. Quando o preço da carne ou do açúcar muda, eu percebo na conta do supermercado. Mais do que isso, vejo como acordos internacionais podem influenciar a vida de quem trabalha no campo, seja aqui no Brasil ou na Itália.
Portanto, meu conselho para quem lê este post: fique atento às notícias, converse com produtores locais e, se puder, apoie iniciativas que promovam a transparência e a sustentabilidade. Afinal, um acordo comercial não é só papel assinado em Foz do Iguaçu – ele afeta o prato que vamos à mesa.
Quer saber mais?
Se ainda tem dúvidas, procure fontes como a Embrapa, a Associação Brasileira de Produtores Rurais (ABPR) ou acompanhe as declarações da Comissão Europeia. E, claro, continue acompanhando as atualizações aqui no blog – prometo trazer mais análises à medida que a situação evolui.



