Na última quinta‑feira (18), a primeira‑ministra da Itália, Giorgia Meloni, enviou um recado que tem repercutido nos corredores de Brasília e nas praças de Milão: a Itália está disposta a apoiar o acordo comercial entre a União Europeia (UE) e o Mercosul, mas só se o setor agrícola europeu receber as garantias que ele pede.
Por que esse acordo gera tanto alvoroço?
O tratado UE‑Mercosul foi negociado ao longo de 25 anos. Seu objetivo é simples – reduzir ou eliminar tarifas de importação e exportação entre os dois blocos – mas a simplicidade da ideia esconde uma série de questões sensíveis, principalmente no campo.
Produtores europeus, sobretudo franceses, temem que produtos latino‑americanos cheguem ao mercado europeu a preços mais baixos, graças a custos de produção menores e a normas ambientais menos rigorosas. Para eles, o risco não é só econômico, mas também simbólico: a percepção de que padrões ambientais e de bem‑estar animal podem ser “abaixados” para ganhar competitividade.
O papel da Itália no quebra‑cabeça
Meloni deixou claro que o governo italiano está pronto para assinar o acordo, desde que a Comissão Europeia dê respostas rápidas às demandas dos agricultores italianos. Ela descreveu a situação como um “constrangimento político” – ou seja, o apoio interno ao tratado depende de concessões que ainda não foram definidas.
Em conversa com o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula, a primeira‑ministra pediu um prazo de uma semana a um mês para que as questões agrícolas fossem resolvidas. Lula, por sua vez, prometeu levar o pedido ao Conselho de Ministros do Mercosul e buscar apoio entre os companheiros de bloco.
O que a UE está fazendo?
O Parlamento Europeu já aprovou um conjunto de salvaguardas para proteger setores sensíveis como carne bovina, aves e açúcar. As regras são claras: se o preço de um produto latino‑americano ficar 5% abaixo do preço europeu, ou se as importações isentas de tarifas aumentarem mais de 5% em volume, tarifas de salvaguarda podem ser aplicadas.
Essas medidas visam criar um “freio” caso o mercado seja desestabilizado, mas ainda assim, países como a França permanecem céticos e pedem adiamento da assinatura.
Por que o Brasil deve prestar atenção?
Para o Mercosul, e especialmente para o Brasil, o acordo representa uma oportunidade de abrir mercados europeus para soja, carne, café e outros produtos de exportação. Se a UE aprovar o tratado, a assinatura está marcada para o sábado (20), na cúpula de chefes de Estado do Mercosul, que acontecerá em Foz do Iguaçu, Paraná.
Mas a aprovação não depende só da assinatura formal. O Conselho Europeu ainda vai deliberar, e o posicionamento da Itália pode ser decisivo. Se Meloni conseguir acalmar os agricultores italianos, a Itália pode virar uma ponte que leva o bloco europeu a fechar o acordo.
Como isso afeta o dia a dia do brasileiro?
- Preços dos alimentos: Se o acordo for aprovado, produtos como carne bovina e soja podem ganhar acesso mais fácil ao mercado europeu, potencialmente aumentando a demanda e os preços internos.
- Exportadores: Agricultores e pecuaristas brasileiros podem ver um aumento nas oportunidades de exportação, o que pode impulsionar a renda nas regiões produtoras.
- Pequenos produtores: Há quem tema que a competição internacional possa pressionar produtores menores, que talvez não consigam atender a padrões de qualidade exigidos pela UE.
- Meio ambiente: As discussões sobre normas ambientais podem levar a acordos mais rígidos de sustentabilidade, o que pode ser positivo para quem já investe em práticas verdes.
O que podemos esperar nos próximos dias?
O cenário ainda está em mutação. Três caminhos principais se desenham:
- Conciliação rápida: A Comissão Europeia entrega respostas satisfatórias aos agricultores italianos, a Itália aprova o acordo e o Conselho europeu assina em Foz do Iguaçu.
- Adiamento estratégico: A França e outros países mantêm a oposição, forçando um novo prazo para negociação de salvaguardas mais robustas.
- Bloqueio parcial: A Itália decide não assinar, alinhando‑se ao posicionamento francês, o que pode levar a um impasse e à necessidade de renegociação de todo o tratado.
Qualquer que seja o desfecho, o impacto será sentido tanto na Europa quanto na América do Sul. Para nós, brasileiros, a mensagem principal é: ficar de olho nas decisões europeias se tornou tão importante quanto acompanhar as discussões internas do Mercosul.
Minha visão pessoal
Eu costumo acompanhar as notícias de comércio internacional porque, apesar de parecer um assunto distante, ele tem reflexos diretos no preço do pão, da carne e até do combustível. Quando vejo líderes como Meloni pedindo “uma semana a um mês” de paciência, percebo que, por trás das cifras, há gente – agricultores, trabalhadores rurais – que tem suas próprias preocupações de sobrevivência.
Se a UE conseguir equilibrar a proteção dos agricultores com a abertura de mercado para o Mercosul, talvez tenhamos um modelo de comércio mais justo e sustentável. Por outro lado, se o medo dominar e o acordo for adiado indefinidamente, perdemos uma chance de fortalecer laços econômicos entre continentes.
Para o Brasil, o ideal seria garantir que as salvaguardas não se transformem em barreiras disfarçadas. A gente precisa de um acordo que abra portas, mas que também exija responsabilidade ambiental e social dos parceiros latino‑americanos.
Conclusão
O que está em jogo não é apenas um contrato de tarifas; é a forma como países desenvolvidos e emergentes negociam seus interesses agrícolas, ambientais e políticos. A Itália, com seu peso dentro da UE, pode ser o ponto de virada que decide se o acordo será assinado em Foz do Iguaçu ou se ficará mais um ano na gaveta.
Enquanto isso, nós, consumidores e produtores brasileiros, devemos acompanhar de perto, entender as nuances e nos preparar para as oportunidades (ou desafios) que virão. Afinal, o futuro do comércio global depende tanto das decisões de um gabinete em Roma quanto das demandas de quem planta a terra no interior de Mato Grosso ou no Vale do São Francisco.



