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Itália, Mercosul e a disputa dos agricultores: o que isso significa para o Brasil?

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Itália, Mercosul e a disputa dos agricultores: o que isso significa para o Brasil?

Na última quinta‑feira, a primeira‑ministra da Itália, Giorgia Meloni, enviou um sinal que pode mudar o rumo das negociações entre a União Europeia (UE) e o Mercosul. Ela disse que o país está disposto a apoiar o acordo comercial, mas só depois que as demandas dos agricultores italianos forem atendidas. Parece papo de bastidor, mas tem consequências bem reais para quem vive da terra aqui no Brasil.

O que está em jogo?

O tratado UE‑Mercosul foi concluído há um ano, após 25 anos de conversas. Ele prevê a redução ou eliminação de tarifas sobre produtos como carne bovina, soja, açúcar e café. Em teoria, isso abre portas para que exportadores brasileiros cheguem a mercados europeus com preços mais competitivos. Na prática, o acordo tem gerado protestos intensos nos campos da França, Alemanha, Espanha e, agora, da Itália.

Por que os agricultores italianos estão tão preocupados?

Os produtores da Península acreditam que a concorrência latino‑americana pode chegar com produtos mais baratos e, segundo eles, com padrões ambientais menos rigorosos. “É uma ameaça ao nosso modo de produção”, dizem os sindicatos. A França, por exemplo, já conseguiu garantias de salvaguardas – mecanismos que permitem reintroduzir tarifas se os preços europeus caírem mais de 5 % em relação ao mercado interno.

  • Se o preço da carne bovina brasileira ficar 5 % abaixo do preço da carne europeia, a UE pode aplicar tarifas de retaliação.
  • Se o volume de importações isentas de tarifas subir mais de 5 % em relação ao histórico, também pode haver ajustes.

Essas medidas ainda são vistas como insuficientes por muitos agricultores, que temem perder participação de mercado e, consequentemente, renda.

O papel de Meloni e a conversa com Lula

Em um encontro informal, o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva contou que Meloni não se opõe ao acordo, mas enfrenta um “constrangimento político” devido à pressão dos produtores. Ela pediu mais tempo – de uma semana a um mês – para que o governo italiano consiga acalmar o campo e, assim, assinar o texto.

Para o Brasil, esse tempo extra pode ser crucial. Se a Itália, que tem peso significativo dentro da UE, decidir apoiar o acordo, isso pode influenciar outros países que ainda estão hesitantes, como a França. Por outro lado, se a pressão dos agricultores for maior, a assinatura pode ser adiada, deixando o bloco latino‑americano em um limbo de incerteza.

O que isso muda para o produtor brasileiro?

Vamos colocar a situação em termos práticos. Imagine que você seja um fazendeiro de soja em Mato Grosso. Hoje, parte da sua produção vai para a China e os Estados Unidos, que têm acordos comerciais mais estáveis. Se a UE abrir as portas, você ganha um novo mercado com consumidores que pagam preços premium por produtos sustentáveis. Mas, se a UE decidir colocar tarifas de salvaguarda, aquele mesmo lote pode ficar mais caro para o comprador europeu, reduzindo sua competitividade.

Do outro lado, há quem veja oportunidade nas próprias salvaguardas. Elas funcionam como um seguro para os produtores europeus, mas também criam um mecanismo de monitoramento que pode gerar previsibilidade para quem exporta. Se o Brasil conseguir demonstrar que cumpre padrões ambientais – por exemplo, com certificações de desmatamento zero – pode usar isso como argumento para reduzir ou eliminar as salvaguardas.

Como o Brasil pode se preparar?

Algumas estratégias já estão sendo debatidas nos corredores de Brasília:

  1. Investir em rastreabilidade: sistemas digitais que comprovem a origem da produção e o respeito às normas ambientais.
  2. Fortalecer a diplomacia agro‑industrial: missões comerciais focadas em mostrar a qualidade e a sustentabilidade dos produtos brasileiros.
  3. Buscar acordos setoriais: negociar cláusulas específicas para setores sensíveis, como carne bovina e soja, que incluam metas de preço e volume.
  4. Alinhar políticas internas: garantir que o governo brasileiro ofereça apoio técnico e financeiro aos produtores que queiram adotar práticas mais verdes.

Essas medidas podem transformar o “constrangimento político” italiano em uma oportunidade de negócio.

O que esperar da assinatura em Foz do Iguaçu?

O Conselho Europeu deve decidir nos próximos dias se aprova o texto final. Se tudo correr bem, a assinatura acontecerá no sábado, 20 de dezembro, na cúpula de chefes de Estado do Mercosul, em Foz do Iguaçu, Paraná. Essa data já está marcada nos calendários diplomáticos, mas a assinatura depende da assinatura de cada país da UE.

Se a Itália entrar na fila de apoio, o acordo ganha força e a UE tem mais chances de fechar o tratado antes do fim do ano. Caso contrário, podemos assistir a um novo ciclo de negociações, com possíveis revisões nas salvaguardas e, quem sabe, mais pressão dos agricultores europeus.

Conclusão: por que você deve se importar?

Mesmo que você não seja agricultor, o acordo UE‑Mercosul impacta o preço dos alimentos nas prateleiras, a balança comercial do Brasil e a imagem do país no cenário internacional. Cada decisão tomada em Roma ou Bruxelas tem um reflexo direto na nossa economia doméstica.

Para quem acompanha o mercado agro, o próximo mês será decisivo. Fique de olho nas declarações de Meloni, nas reações dos sindicatos franceses e, claro, nas movimentações do governo Lula. O futuro da nossa exportação pode depender de um pedido de paciência de 10 dias ou de um mês inteiro.

E você, o que acha? Acredita que o Brasil está pronto para atender às exigências europeias de sustentabilidade? Ou pensa que a UE está usando o acordo como moeda de troca para pressionar os agricultores? Deixe seu comentário, compartilhe suas ideias – a discussão está apenas começando.