Radar Fiscal

Itália, Mercosul e a Agricultura: Por que o acordo UE‑Mercosul ainda está em xeque

Compartilhe esse artigo:

WhatsApp
Facebook
Threads
X
Telegram
LinkedIn
Itália, Mercosul e a Agricultura: Por que o acordo UE‑Mercosul ainda está em xeque

Na última quinta‑feira, a primeira‑ministra da Itália, Giorgia Meloni, deu um sinal que pode mudar o rumo das negociações entre a União Europeia (UE) e o Mercosul. Ela disse que o país está disposto a apoiar o acordo comercial, mas só depois que as demandas dos agricultores italianos forem atendidas. Parece simples, mas a história por trás desse “sim condicionado” tem muito a ver com política interna, pressões setoriais e, claro, com a nossa própria realidade agrícola.

O que está em jogo?

O acordo UE‑Mercosul, concluído há um ano após 25 anos de conversas, tem como objetivo principal reduzir ou eliminar tarifas entre os dois blocos. Na prática, isso significa que produtos como carne bovina, soja, açúcar e vinhos poderiam circular com menos impostos, facilitando a exportação e a importação. Para o Brasil, que é um dos maiores produtores agrícolas do mundo, o tratado representa uma porta de entrada ainda maior nos mercados europeus.

Para a Europa, a proposta traz oportunidades de diversificar fornecedores e, em alguns casos, baixar preços ao consumidor. Mas há quem veja o acordo como uma ameaça direta ao setor agropecuário europeu, que tem regras ambientais e sanitárias diferentes das adotadas na América Latina.

Por que a Itália está hesitante?

Meloni não é a primeira líder europeia a colocar o agronegócio na balança. O presidente francês, Emmanuel Macron, já havia afirmado que a França não apoiaria o tratado sem salvaguardas adicionais para seus agricultores. A diferença é que a Itália, historicamente, tem uma relação mais estreita com o agronegócio interno – pense nos vinhos da Toscana, no azeite da Puglia e nos queijos do norte.

Durante a reunião com o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula, Meloni teria pedido um prazo – de uma semana a um mês – para que o governo italiano obtivesse respostas claras da Comissão Europeia. Ela descreveu o que chamou de “constrangimento político”, ou seja, a pressão dos produtores que temem ser inundados por produtos mais baratos do Mercosul.

O que a Comissão Europeia prometeu?

  • Salvaguardas tarifárias: mecanismos que permitem a reintrodução de tarifas caso o preço de um produto latino‑americano caia mais de 5 % em relação ao preço europeu.
  • Monitoramento de volumes: se as importações isentas de tarifas superarem 5 % do consumo interno, medidas corretivas podem ser acionadas.
  • Proteção de setores sensíveis: carne bovina, aves e açúcar são os principais alvos de atenção, justamente porque são commodities de grande relevância tanto para produtores quanto para consumidores.

Essas garantias foram negociadas intensamente, principalmente por causa da forte oposição francesa. Ainda assim, o Parlamento Europeu aprovou as medidas apenas na última terça‑feira, o que demonstra que há vontade política de avançar, ainda que cautelosamente.

Como isso afeta o Brasil?

Para nós, a assinatura do acordo em Foz do Iguaçu, no próximo sábado, seria mais um passo rumo à consolidação do Brasil como fornecedor estratégico da UE. Significaria menos barreiras para exportar soja, carne e café – produtos que já representam boa parte das exportações brasileiras.

Mas também traz desafios. A necessidade de cumprir as salvaguardas pode significar que, se a UE detectar impactos negativos, poderá impor tarifas retroativas. Isso pode criar um ambiente de incerteza para os exportadores brasileiros, que precisarão ajustar sua estratégia de preço e de produção.

O ponto de vista dos agricultores italianos

Os produtores da Itália temem que a concorrência de carne bovina argentina ou soja brasileira, por exemplo, possa derrubar os preços internos. Eles argumentam que os padrões ambientais na América Latina são menos rigorosos, o que pode gerar uma “guerra de preços suja”.

Além da questão econômica, há um aspecto cultural. O alimento está ligado à identidade de muitas regiões italianas. Perder espaço no mercado interno pode significar, para eles, uma perda de tradição.

O que podemos esperar nos próximos dias?

O Conselho Europeu está reunido agora para decidir se aprova ou bloqueia o texto final. Se tudo correr bem, a assinatura acontecerá em Foz do Iguaçu, com a presença de Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, que deve viajar ao Brasil para ratificar o acordo.

Entretanto, se a Itália decidir alinhar‑se à França e exigir mais garantias, o processo pode ser adiado novamente. Isso criaria um efeito dominó: outros países da UE, como a Alemanha e a Espanha, que já se mostraram favoráveis, poderiam ser pressionados a reavaliar suas posições.

O que isso significa para o leitor comum?

Para quem vive no Brasil, a notícia tem duas faces:

  • Consumidor: a longo prazo, a redução de tarifas pode baixar o preço de produtos importados, como vinhos e queijos europeus.
  • Produtor: agricultores e exportadores precisam ficar atentos às regras de salvaguarda. Uma mudança de política pode impactar contratos já firmados.

Além disso, o debate sobre padrões ambientais traz à tona a importância de investir em práticas sustentáveis. Se o Mercosul quiser ser visto como parceiro confiável, será fundamental melhorar a rastreabilidade e a certificação de seus produtos.

Um olhar para o futuro

Independentemente do resultado imediato, o acordo UE‑Mercosul já mostrou que o comércio internacional está cada vez mais ligado a questões de sustentabilidade e de proteção de setores vulneráveis. Não se trata apenas de números de tarifas, mas de como equilibrar desenvolvimento econômico com responsabilidade ambiental.

Se a Itália conseguir um acordo que satisfaça seus agricultores, pode abrir caminho para que outros países europeus sigam o mesmo modelo – mais garantias, menos riscos. Isso poderia solidificar o bloco como um grande comprador de produtos latino‑americanos, mas com regras claras de concorrência leal.

Para o Brasil, a lição é clara: diversificar mercados e melhorar padrões de produção são estratégias que vão além de qualquer tratado. O Mercosul pode ser a ponte, mas a qualidade do que cruzar essa ponte será o que determinará o sucesso a longo prazo.

Fique de olho nas próximas notícias, especialmente nas declarações de Meloni e nas decisões do Conselho Europeu. O futuro do acordo pode ainda mudar, e com ele, as oportunidades para agricultores, exportadores e consumidores de ambos os lados do Atlântico.