Um acordo que está na mesa há 25 anos
Se você acompanha um pouco de política internacional, já deve ter ouvido falar do acordo comercial entre a União Europeia (UE) e o Mercosul. São quase três décadas de negociações, promessas de redução de tarifas e, claro, muita polêmica. O objetivo é simples: facilitar a troca de produtos – de vinhos italianos a carne bovina argentina – sem tantas barreiras alfandegárias. Mas, como todo grande negócio, há quem se beneficie e quem fique apreensivo.
Por que a Itália está em dúvida?
A primeira‑ministra da Itália, Giorgia Meloni, afirmou recentemente que o país está disposto a apoiar o acordo, mas só depois de receber respostas concretas para as preocupações dos agricultores italianos. Em um comunicado, ela explicou que o governo “está pronto para assinar assim que forem dadas as respostas necessárias aos agricultores”.
Para entender o porquê, imagine a situação de um pequeno produtor de trigo nas planícies do Vale do Pó. Ele tem custos elevados, segue normas ambientais rigorosas e, de repente, tem que competir com soja brasileira que chega a preço muito mais baixo, produzida sob regras diferentes. O medo de ver seu mercado encolher é real, e os agricultores italianos têm se mobilizado em protestos – até com pneus queimados nas ruas de Bruxelas.
Lula e a diplomacia do tempo
Do outro lado do Atlântico, o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula recebeu Meloni em Roma e ouviu a mesma mensagem: “não somos contrários ao acordo, mas precisamos de tempo”. Lula contou que Meloni pediu um prazo de “uma semana, dez dias, no máximo um mês” para que a Itália se juntasse ao bloco europeu na assinatura.
Esse pedido de paciência tem duas faces. Primeiro, é um reconhecimento de que a pressão interna dos agricultores italianos é forte. Segundo, abre espaço para que a UE, através da Comissão Europeia, apresente salvaguardas – mecanismos que permitem reintroduzir tarifas caso o preço de um produto latino‑americano caia mais de 5 % em relação ao preço europeu ou se as importações aumentarem mais de 5 %.
O que isso significa para o Brasil?
Para nós, brasileiros, a assinatura do acordo pode trazer oportunidades e desafios. Por um lado, exportadores de carne bovina, soja, açúcar e café podem ganhar acesso a mercados europeus sem tarifas, o que aumenta a competitividade. Por outro, setores como o da produção de laticínios e de frutas podem enfrentar concorrência mais acirrada, principalmente se os produtos europeus também se beneficiarem de tarifas reduzidas.
Um ponto que merece atenção é a região sul do Brasil, especialmente o estado do Paraná. O Paraná é um grande exportador de soja, milho e carne suína. Se o acordo avançar, produtores paraguaios e argentinos também terão acesso ao mesmo mercado europeu, o que pode pressionar os preços. Ao mesmo tempo, o estado tem uma cadeia agroindustrial bem desenvolvida, capaz de agregar valor – pensar em soja processada em óleo ou proteína vegetal – o que pode abrir novas portas.
Salvaguardas: a carta na manga da Europa?
O Parlamento Europeu já aprovou medidas de proteção que permitem reverter tarifas caso o mercado seja desestabilizado. Essas salvaguardas são como um seguro: se a carne bovina brasileira, por exemplo, chegar a preços muito baixos e causar queda de 5 % ou mais nos preços europeus, a UE pode reintroduzir tarifas temporárias.
Para o Brasil, isso significa que a negociação não é só “tarifa zero”. Há um monitoramento constante, e a competitividade será medida não apenas pelo preço, mas também por questões ambientais e de bem‑estar animal. Produtores que adotarem práticas sustentáveis podem se destacar, enquanto aqueles que não acompanharem as exigências europeias podem enfrentar barreiras.
O papel da diplomacia brasileira
Lula tem um papel crucial nessa fase. Ele pode usar a influência política para garantir que as salvaguardas sejam justas e que o Brasil tenha voz nas decisões da Comissão Europeia. Também pode incentivar a modernização da agricultura brasileira, investindo em tecnologia, rastreabilidade e certificações ambientais.
Além disso, o governo pode aproveitar a oportunidade para diversificar a pauta de exportação. Em vez de focar apenas em commodities, pode promover produtos de maior valor agregado – queijos artesanais, vinhos, frutas orgânicas – que têm mais chances de se manter competitivos mesmo com a concorrência de preços baixos.
Como isso afeta o consumidor brasileiro?
Você pode estar se perguntando: “e eu, que compro carne e frutas no supermercado, como fico?”. Se o acordo for assinado e as salvaguardas funcionarem, o preço de alguns produtos importados pode cair, trazendo mais opções nas prateleiras. Por outro lado, produtores locais que sentirem a pressão podem precisar ajustar seus custos, o que pode refletir em preços mais altos em alguns casos.
Mas há um lado positivo: a competição pode incentivar a inovação. Agricultores que investirem em qualidade, rastreabilidade e sustentabilidade podem conquistar nichos de mercado mais lucrativos. Isso pode gerar empregos em áreas como agro‑tecnologia, logística e certificação.
O que esperar nos próximos dias?
O Conselho Europeu está se reunindo agora para decidir se aprova ou bloqueia o texto final. Se tudo correr bem, a assinatura deve acontecer no sábado (20) em Foz do Iguaçu, durante a cúpula de chefes de Estado do Mercosul. Depois, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, deve viajar ao Brasil para ratificar o tratado.
Entretanto, a decisão da Itália ainda está em aberto. Se Meloni conseguir o apoio dos agricultores dentro do prazo que pediu, a Itália pode entrar como um dos últimos países a dar o aval, reforçando o bloco europeu. Se não, a UE pode seguir sem a Itália, o que ainda seria um grande passo, mas com consequências políticas diferentes.
Conclusão: paciência e estratégia
O que fica claro é que acordos comerciais desse porte não são apenas documentos assinados em uma cerimônia. Eles são o reflexo de negociações complexas, pressões internas e estratégicas de longo prazo. Para o Brasil, a mensagem é: esteja preparado. Investir em tecnologia, melhorar padrões ambientais e buscar diferenciação de produto são caminhos para transformar um possível risco em oportunidade.
Se você tem alguma ligação com a agricultura – seja como produtor, consumidor ou simplesmente interessado – vale a pena acompanhar de perto esses desdobramentos. O futuro do nosso agronegócio pode estar sendo escrito nos corredores de Roma e Bruxelas, e cada decisão pode repercutir nas mesas de café do Paraná, de São Paulo ou de qualquer outra região do país.



