Depois de mais de 25 anos de discussões, o acordo comercial entre a União Europeia (UE) e o Mercosul está a um passo de se tornar realidade. A mudança de postura da Itália – que agora apoia o tratado – pode ser o ponto de virada para que o Conselho Europeu dê o aval final nesta sexta‑feira, 9 de junho. Mas o que isso realmente traz para nós, consumidores, agricultores e empresários?
Por que o voto da Itália pesa tanto?
Na UE, a aprovação de acordos de grande porte exige maioria qualificada: é preciso que países que representem ao menos 65% da população do bloco estejam a favor. A Itália, com cerca de 60 milhões de habitantes, tem um peso estratégico. Sem o seu apoio, alcançar esse quórum fica bem mais difícil. Se a Itália se aliar à França – que já se posicionou contra o acordo – o tratado pode ser bloqueado. Por outro lado, se o país seguir a linha da Alemanha e da Espanha, o caminho está praticamente livre.
O que mudou nas “salvaguardas agrícolas”?
Um dos principais pontos de atrito sempre foram as chamadas salvaguardas agrícolas, mecanismos que permitem suspender temporariamente tarifas quando há risco de prejuízo aos produtores locais. Até pouco tempo atrás, para acionar essas barreiras era preciso comprovar um aumento anual de 10% nas importações. Agora, o gatilho foi reduzido para 5% de crescimento médio em três anos, e o prazo de investigação caiu de seis para três meses (ou dois, em casos críticos).
Além disso, a exigência de comprovar dano econômico detalhado foi substituída pela “presunção de prejuízo”, dando mais agilidade às autoridades europeias. Essa flexibilização foi um dos motivos que fez a Itália reconsiderar sua posição, pois o país tem um setor agrícola forte e sensível a concorrência de produtos sul‑americanos.
Quais são os benefícios reais do acordo?
- Redução de tarifas: O tratado prevê a eliminação gradual de impostos de importação tanto para produtos europeus quanto para os sul‑americanos. Isso pode baixar o preço de itens como vinhos, queijos e automóveis importados da UE, e abrir mercados europeus para carnes, soja e frutas brasileiras.
- Regras de investimento mais claras: Empresas de ambos os blocos terão maior segurança jurídica para investir em setores estratégicos, como energia renovável e tecnologia.
- Padronização regulatória: Normas sobre propriedade intelectual, serviços digitais e padrões de produção serão harmonizadas, facilitando a vida de exportadores que antes precisavam adaptar produtos a requisitos diferentes.
Para o consumidor brasileiro, a expectativa é que produtos como carros europeus e eletrodomésticos cheguem com preços mais competitivos. Já para o produtor rural, a abertura de novos mercados pode significar aumento de exportações, mas também maior concorrência interna.
O ponto de vista dos agricultores europeus
Na França, Alemanha, Irlanda, Hungria e Polônia, a resistência vem principalmente dos agricultores que temem ser superados por produtos mais baratos da América do Sul. O presidente francês, Emmanuel Macron, já declarou que seu país votará contra o acordo. Recentemente, a França chegou a suspender temporariamente a importação de frutas como abacates e mangas que contêm resíduos de agrotóxicos proibidos na UE.
Essas medidas mostram que, apesar do apoio de países como Alemanha e Espanha, a questão agrícola ainda será o maior obstáculo nas negociações finais. A Itália, ao mudar de postura, sinaliza que as salvaguardas foram suficientemente ajustadas – ou que o governo italiano acredita que os benefícios econômicos superam os riscos para seus produtores.
O que isso significa para o Brasil?
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebeu a mensagem da Comissão Europeia e do Conselho Europeu reafirmando o compromisso de assinar o acordo em janeiro. Para o Brasil, isso representa uma oportunidade histórica de diversificar destinos de exportação, reduzindo a dependência dos Estados Unidos e da China.
Além disso, o acordo pode fortalecer a posição do Mercosul em negociações futuras, como o bloco busca acordos com outros parceiros estratégicos. No entanto, o governo brasileiro precisará garantir que os produtores locais estejam preparados para competir em um mercado mais aberto, investindo em tecnologia, sustentabilidade e qualidade.
Riscos e controvérsias
Apesar das promessas, há críticas importantes:
- Impacto ambiental: A expansão das exportações agrícolas pode pressionar ainda mais a Amazônia e outras áreas sensíveis, se não houver políticas rígidas de conservação.
- Desigualdade regional: Enquanto estados produtores como Mato Grosso do Sul e Paraná podem se beneficiar, regiões menos agrícolas podem sentir menos impactos positivos.
- Dependência de commodities: O acordo pode reforçar a estrutura exportadora baseada em commodities, atrasando a diversificação da economia brasileira.
É essencial que o Brasil acompanhe de perto a implementação das salvaguardas e busque acordos que incluam cláusulas de desenvolvimento sustentável.
Olhando para o futuro
Se a Itália confirmar seu apoio nesta sexta‑feira, o acordo pode ser ratificado ainda este mês, com assinatura prevista para janeiro. Isso abrirá a maior zona de livre comércio do mundo, envolvendo cerca de 780 milhões de consumidores.
Para nós, a mensagem prática é: fique atento às mudanças nos preços dos produtos importados, às oportunidades de negócios internacionais e às discussões sobre sustentabilidade. O comércio global está em constante evolução, e cada decisão política tem reflexos no nosso dia a dia.
E então, o que você acha? Está pronto para aproveitar as novas oportunidades ou prefere observar como as salvaguardas agrícolas vão se desenrolar? Compartilhe sua opinião nos comentários!


