Na última terça‑feira (23), o IBGE divulgou a prévia da inflação oficial – o IPCA‑15 – e mostrou que, mesmo com alta nos preços de alguns serviços, o índice acumulado em 2025 ficou em 4,41%, dentro da meta do Banco Central. Para quem não acompanha todos os números, pode parecer só mais um dado econômico, mas a verdade é que esse resultado tem reflexos diretos no seu dia a dia: nas tarifas de transporte, no preço da carne, na conta de luz e até na sua próxima viagem de avião.
Como chegou a 4,41%?
Em dezembro, o IPCA‑15 subiu 0,25% em relação ao mês anterior. Esse aumento foi menor que a expectativa do mercado (0,27%) e ainda 0,05 ponto percentual acima de novembro, quando a variação foi de 0,20%.
Dos nove grupos que compõem o índice, sete registraram alta. O destaque ficou para Transportes, que subiu 0,69% e contribuiu com 0,14 ponto percentual para o total. Por outro lado, Artigos de Residência teve queda de 0,64%, tirando 0,02 ponto percentual.
O que realmente mexeu nos preços?
- Passagens aéreas: +12,71% em dezembro – quase dois terços da contribuição do grupo Transportes.
- Aplicativos de transporte: +9,00% – um aumento que afeta quem usa Uber, 99 ou similares.
- Combustíveis: gasolina +0,11%, etanol +1,70%, mas diesel -0,38% e gás veicular -0,26%.
- Transporte público urbano: queda geral, graças a gratuidade nos domingos em Belém e Brasília e reduções tarifárias em Curitiba e São Paulo.
Vestuário e despesas pessoais: o que mudou?
O grupo Vestuário também subiu 0,69%, puxado principalmente por roupas infantis (+1,05%), femininas (+0,98%) e masculinas (+0,70%). Já Despesas pessoais desacelerou: de 0,85% em novembro para 0,46% em dezembro, embora serviços como cabeleireiro (+1,25%) e pacotes turísticos (+2,47%) continuem pressionando.
Alimentação: a boa e a ruim
Alimentação e bebidas, que tem o maior peso no índice, subiu apenas 0,13%. Dentro dele, a alimentação no domicílio (compras para casa) caiu 0,08% – a sétima queda consecutiva. Os itens que mais despencaram foram:
- Tomate: -14,53%
- Leite longa vida: -5,37%
- Arroz: -2,37%
Por outro lado, a alimentação fora do domicílio (bares, restaurantes, lanchonetes) subiu 0,65%, impulsionada por lanches (+0,99%) e refeições (+0,62%).
Habitação e energia: o que observar
O grupo Habitação subiu 0,17%, influenciado por aluguéis (+0,33%) e tarifas de água (+0,66%). A energia elétrica residencial, porém, recuou 0,22% graças à mudança da bandeira tarifária de vermelha patamar 1 (R$ 4,46 por 100 kWh) para amarela (R$ 1,885 por 100 kWh).
O que os economistas estão dizendo?
Os números batem as projeções, mas o “alerta vermelho” vem dos serviços. Carlos Thadeu (BGC Liquidez) aponta que os serviços subjacentes subiram 0,52%, acima do esperado, sinalizando pressão no mercado de trabalho e consumo.
Mariana Rodrigues (SulAmérica Investimentos) destaca a “piora na qualidade da inflação”: enquanto bens industriais desinflam, os serviços permanecem caros, especialmente passagens aéreas e refeições fora de casa.
Pablo Spyer (Ancord) vê o processo de desinflação como “irregular”: alimentos em casa e bens industriais dão alívio, mas os serviços ainda puxam a inflação para cima.
Para Tatiana Pinheiro (Galápagos Capital), o índice de difusão – que mede quantos itens estão subindo – voltou a níveis mais confortáveis, mas a inflação de serviços ainda está acima de 6% nos últimos 12 meses, mantendo o Banco Central cauteloso sobre cortes de juros.
O que isso significa para você?
Em termos práticos, a inflação de 4,41% indica que, em média, o poder de compra da população caiu pouco mais de 4% ao longo de 2025. Mas a realidade varia muito entre categorias:
- Transporte aéreo: se você costuma viajar, prepare-se para tarifas mais caras. Comprar passagens com antecedência ou usar milhas pode ser essencial.
- Aplicativos de carro: avalie alternativas como transporte público ou caronas, especialmente em cidades onde a tarifa subiu 9%.
- Alimentos: aproveite a queda de preços de itens básicos (tomate, arroz, leite) para planejar o cardápio da família. Já carnes e frutas estão mais caras – talvez seja a hora de buscar cortes mais econômicos ou frutas da estação.
- Energia elétrica: a mudança de bandeira pode reduzir sua conta, mas fique atento ao consumo para não desperdiçar o benefício.
- Vestuário: se precisar comprar roupas, o aumento de 0,69% ainda está dentro de limites aceitáveis, mas vale comparar preços e aproveitar promoções.
Olho no futuro
O próximo grande ponto de atenção será o primeiro trimestre de 2026. Se a pressão nos serviços continuar, o Banco Central pode manter a taxa Selic alta por mais tempo, o que impacta empréstimos, financiamentos e até o rendimento da poupança.
Por enquanto, a inflação está dentro da meta (3% ± 1,5 ponto), mas ainda longe de ser “confortável”. O melhor caminho para quem quer proteger o orçamento é ficar de olho nos grupos que mais afetam o seu consumo e buscar alternativas – seja mudar o modo de transporte, ajustar a alimentação ou renegociar contratos de serviços.
Em resumo, o IPCA‑15 de 2025 nos mostra um cenário misto: alguns alívios (alimentos, energia) e alguns desafios (passagens aéreas, serviços). Entender onde está a pressão ajuda a tomar decisões mais inteligentes e a evitar surpresas no fim do mês.



