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Inflação dentro da meta? O que realmente mudou nos preços em 2025 e como isso afeta o seu bolso

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Inflação dentro da meta? O que realmente mudou nos preços em 2025 e como isso afeta o seu bolso

Esta semana o IBGE divulgou o número fechado da inflação oficial do Brasil para 2025. A notícia parece boa: o IPCA deve fechar dentro da meta do Banco Central, em torno de 4,5%. Mas, como sempre, os números macro escondem histórias diferentes para cada família. Vamos entender o que subiu, o que caiu e, sobretudo, o que isso significa para quem faz as contas no fim do mês.



Como chegamos aqui? Um ano de expectativas pessimistas

No fim de 2024, o cenário era de preocupação. O dólar forte, eventos climáticos adversos e um ritmo acelerado da atividade econômica fizeram os economistas projetarem inflação próxima de 5 % e a taxa de câmbio em R$ 6,00. O medo era que o Banco Central não conseguisse frear a pressão inflacionária, especialmente com as incertezas geradas pela nova administração dos Estados Unidos.

André Braz, coordenador dos índices de preços da FGV Ibre, descreveu o clima como “bem pessimista”. Essa percepção se refletiu nas projeções do Boletim Focus de 2025, que apontavam quase 5 % de inflação ao ano.



O que mudou? Quedas inesperadas nos alimentos

Um dos principais vetores de redução foi o sub‑grupo de alimentação no domicílio. No início do ano, esperava‑se alta de 5,8 % nos preços dos alimentos; no meio do ano, a projeção chegou a 7 %. Hoje, a expectativa está em 2,3 % para 2025. Por que essa reversão?

  • Safras melhores do que o previsto – a produção agrícola brasileira foi mais abundante, o que ajudou a conter a alta dos alimentos.
  • Clima mais favorável – eventos climáticos que poderiam ter prejudicado as plantações não se concretizaram.
  • Oferta extra de proteínas – a gripe aviária, embora temporária, aumentou a disponibilidade de carne doméstica, reduzindo preços.

Esses fatores fizeram itens como laranja‑pera (‑27,21 %), batata‑inglesa (‑26,57 %) e arroz (‑24,24 %) registrarem quedas significativas entre janeiro e novembro, segundo o levantamento da FGV Ibre.

Serviços livres: o lado que ainda pesa no bolso

Enquanto alimentos apresentaram queda, o segmento de serviços livres foi o grande responsável pela inflação acumulada até novembro. Aluguel residencial, refeições, lanches, ensino fundamental, empregado doméstico e condomínio somaram 15,8 % do orçamento familiar e tiveram inflação média de 6,2 % – bem acima da meta de 3 % do BC.

O desemprego chegou a 5,2 % no trimestre encerrado em novembro, o menor nível desde 2012. Essa situação mantém a demanda por serviços alta, dificultando a desaceleração dos preços.



O caso do café: um choque de oferta

Um destaque isolado foi o café, que subiu 43,27 % até novembro. O aumento não tem relação com crédito interno, mas sim com fatores externos: safra menor, condições climáticas adversas e a cotação do dólar.

O que isso significa para o seu orçamento?

Mesmo com a inflação geral desacelerando, a sensação de aperto persiste. A alimentação, que já acumulou alta superior à inflação média nos últimos cinco anos, ainda pesa mais que tudo. Como os salários são reajustados pelo IPCA, o ganho real permanece pequeno, obrigando muitas famílias a cortar outros gastos para garantir a comida na mesa.

Em números práticos:

  • Uma família que gastava R$ 800,00 por mês com alimentação pode ter visto esse valor cair cerca de 10 % graças à redução de preços de itens como arroz e batata.
  • Por outro lado, o mesmo lar pode ter visto o gasto com aluguel subir cerca de 5 % ao ano, o que pode anular a economia nos alimentos.

O resultado? Um alívio parcial, mas ainda longe de compensar a perda de poder de compra acumulada nos últimos anos.

Perspectivas para 2026: eleições e clima

O próximo ano será eleitoral, e isso pode trazer medidas de transferência de renda ou estímulos fiscais que, por sua vez, aumentariam a pressão sobre os preços. Além disso, fatores como clima, desempenho das safras, taxa de câmbio e política de juros continuarão a influenciar a inflação.

Os economistas permanecem otimistas quanto ao compromisso do Banco Central com a meta, mas alertam para os riscos políticos e climáticos. A curva do petróleo indica espaço para ajustes sem grandes impactos, e um IGP‑M e IPCA mais baixos podem ajudar a conter a conta de energia.

Como se preparar?

Mesmo que a inflação esteja dentro da meta, a estratégia pessoal ainda vale:

  • Revisite seu orçamento: identifique quais categorias estão subindo mais rápido (serviços livres, aluguel, educação) e veja onde é possível reduzir.
  • Negocie contratos: planos de telefonia, internet e energia costumam ter reajustes anuais. Uma renegociação pode gerar economia.
  • Invista em alimentos básicos: aproveite as quedas de preços de arroz, batata e frutas para estocar de forma consciente.
  • Fique de olho nas políticas de juros: se o Banco Central mantiver a taxa alta, o crédito fica mais caro, afetando compras de bens duráveis.

Em resumo, a boa notícia é que a inflação parece estar sob controle. A má notícia é que o peso dos serviços e a história recente de alta nos alimentos ainda deixam a maioria dos brasileiros sentindo o aperto. Acompanhar os indicadores e ajustar o planejamento doméstico pode fazer a diferença entre sentir alívio ou continuar apertado.