Esta semana o IBGE divulgou o número fechado da inflação oficial do Brasil para 2025. A boa notícia? O IPCA deve fechar dentro da meta de 4,5 % do Banco Central, algo que parecia distante no início do ano. Mas, como sempre, a história está nos detalhes: enquanto alguns itens caíram de forma expressiva, outros subiram bem acima da meta, mexendo com o bolso de cada família.
Como chegamos aqui? O cenário que assustou os economistas
No fim de 2024, o clima era de pessimismo. O dólar alto, eventos climáticos adversos e um ritmo acelerado da atividade econômica fizeram os analistas temerem que o Banco Central não conseguisse frear a inflação. As projeções do Boletim Focus de 2025 apontavam para quase 5 % de alta e uma taxa de câmbio em torno de R$ 6,00 no fim de dezembro.
Além disso, a possibilidade de políticas mais agressivas nos EUA, sob a presidência de Donald Trump, alimentava o medo de uma nova onda de volatilidade cambial e pressão sobre os preços importados.
O que mudou? Por que a inflação desacelerou
Segundo André Braz, coordenador dos índices de preços do Ibre/FGV, “coisas boas aconteceram”. Entre os fatores que ajudaram a conter a alta estão:
- Melhores safras agropecuárias, que evitaram a escassez de alimentos.
- Valorização do real frente ao dólar, reduzindo o custo de produtos importados.
- Política de juros mais rígida no Brasil, que limitou o crédito e esfriou a demanda por bens duráveis.
Esses elementos fizeram o subgrupo de alimentação no domicílio recuar de uma projeção de alta de 5,8 % no início do ano para apenas 2,3 % ao final de 2025.
Os preços que mais caíram
Um levantamento do FGV Ibre mostrou que metade dos 10 itens que mais ajudaram a conter a inflação são alimentos. Os maiores destaques foram:
- Laranja‑pera: -27,21 %
- Batata‑inglesa: -26,57 %
- Arroz: -24,24 %
Essas quedas, combinadas, geraram uma média de -16,9 % nos preços desses produtos entre janeiro e novembro, aliviando a cesta básica das famílias de menor renda, que gastam uma fatia maior do orçamento com alimentação.
Outro segmento que registrou recuo foi o de bens duráveis – eletrodomésticos, móveis e eletrônicos – que apresentaram queda média de 3,5 % graças ao aumento dos juros, que encareceu o crédito e forçou as lojas a oferecer descontos para limpar estoques.
Os preços que mais subiram
Do lado oposto, os serviços livres foram os principais responsáveis pela inflação acumulada até novembro. Seis dos 10 itens que mais contribuíram para a alta são serviços, como:
- Aluguel residencial
- Refeição em restaurantes
- Lanche
- Ensino fundamental
- Empregado doméstico
- Condomínio
Juntos, esses itens representam 15,8 % do orçamento doméstico e registraram inflação média de 6,2 % no período, bem acima da meta de 3 % do BC. O desemprego, em 5,2 % – o menor da série histórica iniciada em 2012 – manteve a demanda por serviços firme, dificultando uma desaceleração mais rápida.
Um caso à parte foi o café, que disparou 43,27 % até novembro. O salto foi causado por um choque de oferta ligado à safra, ao clima e ao câmbio, e não a questões de crédito interno.
O que isso significa para o seu bolso?
Mesmo com a inflação geral desacelerando, a sensação de aperto persiste. A razão principal é que, nos últimos cinco anos, os preços dos alimentos subiram muito mais que a inflação média. Como os salários são corrigidos pelo IPCA, o poder de compra das famílias ficou comprometido.
Muitas casas tiveram que cortar gastos não essenciais para garantir comida na mesa. Apesar da queda de alguns itens, a correção salarial ainda não acompanhou o ritmo de alta dos alimentos, o que gera um descompasso entre renda e despesas.
O que esperar para 2026?
O próximo ano será eleitoral, o que pode trazer medidas de transferência de renda ou estímulos fiscais, potencialmente pressionando os preços. Contudo, outros fatores ainda vão desempenhar papéis decisivos:
- Clima e desempenho das safras – se a produção agrícola continuar forte, a pressão sobre alimentos pode diminuir.
- Câmbio – a valorização ou desvalorização do real afetará o custo de bens importados.
- Juros – a política monetária do Banco Central continuará sendo o principal instrumento de controle da inflação.
- Mercado de trabalho – se o desemprego permanecer baixo, a demanda por serviços continuará aquecida.
Os economistas são cautelosos, mas otimistas: acreditam que o BC manterá o foco na meta e que, com boas safras e um cenário cambial estável, a inflação de 2026 pode ficar semelhante à de 2025.
Para quem acompanha os preços no dia a dia, a dica é ficar de olho nos itens que mais impactam o orçamento familiar – alimentação, moradia e serviços essenciais – e buscar alternativas quando houver alta, como trocar marcas, renegociar contratos de aluguel ou ajustar o consumo de energia.
Em resumo, a inflação brasileira está caminhando para dentro da meta, mas o alívio ainda é parcial. Acompanhar os indicadores e entender como cada componente afeta o seu bolso pode fazer a diferença entre sentir o peso dos preços ou conseguir respirar um pouco mais tranquilo.



