Nos últimos dias, a imprensa internacional tem falado muito sobre a tentativa do ex‑presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de demitir a diretora do Federal Reserve (Fed), Lisa Cook. A situação reacendeu um debate antigo, mas ainda muito relevante: até que ponto os bancos centrais podem (ou devem) operar sem interferência política?
Para quem não acompanha de perto a política monetária, a ideia pode parecer distante. Mas a verdade é que a independência dos bancos centrais afeta diretamente o nosso bolso, seja na taxa de juros dos empréstimos, no rendimento da poupança ou até no preço do pão. Quando políticos tentam controlar a agenda de juros, o risco de inflação alta e crescimento econômico fraco aumenta consideravelmente.
Por que a independência é tão importante?
Estudos acadêmicos acumulados ao longo de décadas mostram um padrão claro: países cujos bancos centrais são independentes tendem a ter inflação mais baixa e crescimento mais estável. Quando o governo pode ditar a política monetária, costuma haver um “efeito de curto prazo” – juros mais baixos para estimular a economia antes das eleições – que, a longo prazo, gera pressões inflacionárias.
Casos históricos que servem de alerta
A história está repleta de exemplos de líderes que tentaram interferir no Fed ou em outros bancos centrais. Vamos relembrar alguns dos mais marcantes:
- Richard Nixon (1972): pressionou Arthur Burns a manter juros baixos para melhorar suas chances de reeleição. O resultado foi uma escalada inflacionária que só foi contida anos depois, com Paul Volcker subindo os juros para dois dígitos, provocando recessão, mas estabilizando preços.
- Lyndon Johnson (1965): chegou a confrontar o presidente do Fed, William McChesney Martin Jr., no seu rancho, exigindo o fim da alta de juros. Martin recusou, temendo que a política de estímulo fiscal aumentasse a inflação.
- Recep Tayyip Erdogan (Turquia): autoproclamado “inimigo dos juros”, demitiu quatro dirigentes do banco central entre 2019 e 2023. A consequência foi uma hiperinflação que chegou a 85% no fim de 2022, devastando o poder de compra da população.
- Juan Perón (Argentina): nacionalizou o banco central em 1946, permitindo que o governo imprimisse dinheiro para financiar gastos. O país entrou em ciclos de inflação crônica que se arrastam até hoje.
- Nicolás Maduro (Venezuela): apesar da Constituição garantir certa autonomia, o governo assumiu controle total, emitindo moeda para financiar déficits. O resultado foi uma hiperinflação que ultrapassou 1.000.000% em 2018.
- Robert Mugabe (Zimbábue): utilizou o banco central para financiar campanhas eleitorais e gastos públicos, culminando na emissão de cédulas de 100 trilhões de dólares em 2009.
O que está acontecendo nos EUA agora?
Trump tentou remover Lisa Cook do Fed alegando, sem provas, que ela teria envolvimento em fraude hipotecária. Embora a demissão não tenha se concretizado, o episódio deixa claro que a pressão política ainda está viva. A diretoria do Fed tem defendido a necessidade de manter a autonomia para evitar que decisões de curto prazo prejudiquem a estabilidade econômica.
Como isso afeta o Brasil?
Embora o Brasil tenha um sistema diferente, a lição é a mesma. Nosso Banco Central (BCB) tem, nos últimos anos, conquistado maior credibilidade ao conduzir política monetária de forma independente. Isso se refletiu em uma inflação mais controlada e em juros que, embora altos, são usados como ferramenta de estabilização.
Entretanto, o clima político brasileiro pode gerar dúvidas. Em períodos eleitorais, há sempre a tentação de pressionar o BCB a reduzir juros para estimular o consumo e melhorar a popularidade dos candidatos. Se isso acontecer, corremos o risco de reviver os mesmos problemas que vimos nos EUA, Turquia ou Venezuela.
O que podemos fazer como cidadãos?
Não somos economistas, mas podemos ficar atentos a alguns sinais:
- Discursos políticos: se um candidato ou líder começa a prometer “juros baixos a todo custo”, vale investigar quais são as consequências a médio e longo prazo.
- Transparência do BCB: o Banco Central do Brasil tem divulgado relatórios de inflação e decisões de política monetária. Ler esses documentos ajuda a entender se há pressões externas.
- Educação financeira: quanto mais soubermos sobre como a taxa Selic afeta nossos empréstimos, financiamentos e investimentos, melhor podemos avaliar propostas políticas.
Perspectivas para o futuro
Se a tendência global for a de maior interferência política, os riscos de crises inflacionárias aumentam. Por outro lado, a crescente conscientização sobre a importância da independência pode levar a reformas institucionais que reforcem a autonomia dos bancos centrais.
No Brasil, a consolidação de um Banco Central forte pode servir de exemplo para outros países da América Latina que ainda lutam contra a politização das políticas monetárias.
Em resumo, a batalha pela independência dos bancos centrais não é apenas um assunto de especialistas. Ela tem consequências diretas no nosso dia a dia, nos preços que pagamos e nas oportunidades de investimento. Ficar informado e cobrar transparência são passos simples, mas poderosos, para garantir que a política monetária trabalhe a favor da estabilidade econômica e do bem‑estar de todos.



