Um ano inesperado para a bolsa brasileira
Quando eu olho para os números de 2025, a primeira coisa que me chama atenção é a alta de 33,95% do Ibovespa. É a maior valorização anual desde 2016, ano em que o índice subiu quase 39%. O que torna isso ainda mais curioso é que, ao mesmo tempo, a taxa Selic ficou em 15% ao ano – o nível mais alto dos últimos 20 anos. Como a bolsa conseguiu crescer tanto num cenário de juros altos? Vou contar os bastidores, dividir os fatores que pesaram na balança e, no final, dar algumas ideias de como isso pode impactar o seu investimento nos próximos anos.
1. O que realmente impulsionou a alta?
Os analistas que acompanhei apontam uma combinação de fatores externos e internos. Não foi só sorte; foi um conjunto de movimentos que abriram espaço para o dinheiro fluir para o Brasil.
- Cortes de juros nos EUA: O Federal Reserve reduziu a taxa de juros três vezes em 2025, levando a rentabilidade das Treasuries a cair. Investidores globais, buscando retornos melhores, começaram a olhar para mercados emergentes, e o Brasil foi um dos destinos favoritos.
- Incertezas nos Estados Unidos: O shutdown histórico do governo americano e as tentativas de interferência de Donald Trump no Banco Central criaram medo de que os EUA perdessem parte da sua atratividade como “porto seguro”.
- Realocação de capital: Com a perspectiva de juros mais baixos nos EUA e a manutenção da Selic em 15% no Brasil, investidores viram oportunidade de diversificar e ganhar mais em ações brasileiras, que ainda estavam cotadas abaixo dos níveis pré‑pandemia.
- Resiliência do Brasil nas tensões comerciais: Mesmo com o “tarifaço” de Trump, o país conseguiu adaptar suas exportações, retirar tarifas de produtos como café e carne, e manter a competitividade.
2. Por que as ações brasileiras pareciam “pechincha”?
Durante a pandemia, muitas empresas perderam valor de mercado, mas a maioria dos fundamentos permaneceu forte. Em 2025, analistas como Marcos Praça, da ZERO Markets, observaram que o “pessimismo mal dimensionado” ficou para trás. As ações de companhias sólidas – bancos, mineradoras, varejistas – estavam negociando com múltiplos de lucro abaixo da média global. Isso atraiu investidores que buscavam “valor” com potencial de retorno maior.
Além disso, a expectativa de corte da Selic em 2026 (para cerca de 12,25% ao ano) já estava precificando um ambiente mais favorável ao risco. Quando o mercado acredita que os juros vão cair, ele começa a precificar esse futuro positivo já hoje.
3. A Selic alta não impediu a bolsa
É natural pensar que juros altos favorecem a renda fixa e penalizam a bolsa. Mas o mercado de capitais é muito mais complexo. A Selic em 15% ainda era alta, porém, comparada ao retorno dos títulos americanos, que estavam ainda mais baixos, o Brasil oferecia uma taxa de retorno “relativa” atrativa.
Felipe Tavares, da BGC Liquidez, explica que o mercado olha para o médio e longo prazo – de cinco a dez anos – e não apenas para a taxa atual. Se a expectativa é de corte de juros e de crescimento econômico, os investidores já começam a posicionar suas carteiras para aproveitar a valorização futura.
4. O papel da política e das contas públicas
Embora a discussão sobre o déficit fiscal tenha ficado “na gaveta” durante 2025, ela não desapareceu. Especialistas como Lauro Sawamura Kubo alertam que o risco fiscal ainda é alto e pode voltar ao centro do debate, principalmente em anos eleitorais.
Em 2026, com as eleições presidenciais se aproximando, a incerteza política tende a aumentar a volatilidade. O anúncio da pré‑candidatura de Flávio Bolsonaro (PL‑RJ) fez o dólar subir e o Ibovespa cair mais de 4% em um dia. Esse tipo de movimento mostra que, apesar da tendência de alta, o mercado ainda reage fortemente a notícias políticas.
5. O que esperar para 2026?
Os prognósticos variam, mas há um consenso de que o Ibovespa pode alcançar entre 170 mil e 200 mil pontos até o fim de 2026, caso os cortes de juros se concretizem e a economia mantenha a estabilidade inflacionária.
Entretanto, cenários adversos – como um novo choque fiscal ou uma escalada de tensões comerciais – podem frear esse caminho. O que fica claro é que a bolsa brasileira está mostrando uma capacidade de adaptação que poucos esperavam.
6. Como isso afeta o investidor comum?
Se você tem dinheiro guardado na poupança ou em CDBs de 100% do CDI, talvez seja hora de repensar a alocação. A diversificação para ações, fundos de índice (ETFs) ou fundos de ações pode trazer retornos superiores, especialmente se você conseguir entrar em momentos de “pechincha”.
Mas atenção: investir em bolsa ainda traz risco. É importante analisar seu perfil, definir um horizonte de investimento e, se possível, contar com a ajuda de um assessor ou usar plataformas de corretoras que ofereçam relatórios de análise.
7. Dicas práticas para quem quer começar agora
- Estude os fundamentos: Procure empresas com boa governança, caixa saudável e posição de mercado consolidada.
- Use ETFs como porta de entrada: Eles permitem diversificar em várias ações com um único investimento.
- Fique de olho nos cortes da Selic: Cada ponto de redução pode impulsionar a bolsa.
- Monitore a política externa: Decisões do Fed e tensões comerciais ainda são gatilhos importantes.
Conclusão
O salto de 33,95% do Ibovespa em 2025 mostra que, mesmo com juros altos, a bolsa brasileira tem espaço para crescer quando o cenário externo se torna favorável e as avaliações internas se ajustam. Para quem está pensando em investir, o momento pode ser de oportunidade, mas a prudência continua sendo a melhor aliada. Observe os indicadores, acompanhe as notícias e, principalmente, alinhe seus investimentos ao seu objetivo de vida.
E você, já está pensando em mudar a estratégia da sua carteira? Compartilhe nos comentários como tem sido sua experiência com a bolsa nos últimos anos.



