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Fraude milionária contra o INSS: o que a condenação das três mulheres no ES revela sobre segurança e cidadania

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Fraude milionária contra o INSS: o que a condenação das três mulheres no ES revela sobre segurança e cidadania

Quando a gente ouve falar de golpes contra o INSS, costuma imaginar um esquema complicado, cheio de hackers e empresas de fachada. Mas a realidade pode ser bem mais simples – e, ao mesmo tempo, assustadoramente organizada. Recentemente, a Justiça Federal de Vitória condenou três mulheres por um esquema de falsificação de documentos que desviou mais de R$ 7 milhões dos cofres públicos. O caso, que durou cerca de sete anos, levanta questões importantes sobre como o sistema previdenciário pode ser vulnerável e o que nós, como cidadãos, podemos fazer para evitar que isso continue acontecendo.



Como tudo começou? Tudo teve início com uma denúncia anônima que chegou à Polícia Federal. Segundo a investigação, Sandra Maria Pereira de Oliveira utilizava o nome fictício “Vitória Fernandes Perez” para receber benefícios de forma irregular. A partir daí, as autoridades descobriram uma verdadeira “fábrica” de identidades falsas, onde eram produzidos kits contendo certidões de nascimento, CPFs e títulos de eleitor de pessoas que nem existiam.

Essas identidades eram, na maioria das vezes, registradas como de pessoas analfabetas. Por quê? Porque o INSS permite a comprovação de vida e o saque de benefícios apenas com a impressão digital, dispensando assinatura. Essa brecha facilitou a ação do grupo, que conseguia retirar o dinheiro sem precisar de documentos físicos complexos.



Quem eram as rés? O trio era formado por Sandra Maria Pereira de Oliveira, Ilma Itamar dos Santos e Graziela Conceição Lobato Falagan. Cada uma tinha um papel bem definido dentro do esquema:

  • Graziela Falagan – a coordenadora. Ela organizava a criação das identidades falsas e cuidava da logística dos saques. Foi responsabilizada por 38 benefícios fraudulentos e recebeu a pena mais alta: 9 anos, 7 meses e 16 dias.
  • Ilma Itamar dos Santos – o braço operacional. Ilma ia pessoalmente às agências bancárias para efetuar os saques, usando documentos falsos com a própria foto. Foi condenada a 7 anos e 13 dias de prisão.
  • Sandra Maria Pereira de Oliveira – responsável por um caso específico, recebeu 1 ano e 4 meses de prisão, já com redução de pena por ter mais de 70 anos.

Além das penas de prisão, a justiça determinou a devolução de quase R$ 4,6 milhões ao INSS, divididos entre as três: Graziela deve R$ 3,22 milhões, Ilma R$ 1,25 milhão e Sandra R$ 92 mil.



O que isso significa para o cidadão comum?

Para quem recebe benefício do INSS, a notícia pode gerar preocupação, mas também traz alguns aprendizados práticos:

  1. Fique atento aos seus dados. Verifique regularmente se há alguma movimentação suspeita em sua conta. O INSS disponibiliza o portal Meu INSS, onde você pode conferir extratos e histórico de pagamentos.
  2. Proteja sua documentação. Nunca compartilhe cópias de documentos pessoais (RG, CPF, título de eleitor) em redes sociais ou com desconhecidos. Mesmo que pareçam inofensivos, podem ser usados para criar identidades falsas.
  3. Desconfie de promessas de facilitação. Se alguém lhe oferecer “acesso rápido” a benefícios ou garantir que vai fazer tudo por você, desconfie. O processo legal pode ser burocrático, mas é a forma mais segura.
  4. Denuncie irregularidades. Caso perceba algo estranho, como recebimento de benefício que não corresponde ao seu histórico, use os canais oficiais do INSS ou da Polícia Federal.

Por que o esquema funcionou por tanto tempo?

Existem alguns fatores que ajudaram o grupo a operar quase uma década sem ser pego:

  • Falhas no cruzamento de dados. Até recentemente, o INSS não tinha um sistema robusto de verificação cruzada entre diferentes bases de dados (nascimento, CPF, título de eleitor). Isso permitia que identidades inexistentes fossem inseridas sem muita resistência.
  • Uso de pessoas analfabetas como fachada. Ao registrar beneficiários como analfabetos, o sistema exigia apenas a impressão digital para comprovar vida, eliminando a necessidade de assinatura e facilitando a fraude.
  • Desconexão entre órgãos. A falta de comunicação efetiva entre o INSS, bancos e órgãos de registro civil criou brechas que o grupo explorou.

Felizmente, a partir de 2023 o governo federal tem investido em tecnologias de inteligência artificial e em integração de bases de dados para fechar essas lacunas. Ainda assim, casos como esse mostram que a tecnologia por si só não basta; é preciso vigilância constante e participação cidadã.

O que o futuro reserva?

Com a digitalização dos serviços públicos, espera‑se que a criação de documentos falsos se torne mais difícil. No entanto, novos tipos de fraude podem surgir, como o uso de deepfakes para burlar reconhecimento facial ou a compra de dados pessoais em dark web. Por isso, a educação digital continua sendo um dos pilares mais importantes.

Se você tem mais de 60 anos, como a Sandra, a justiça pode considerar sua idade ao definir penas, mas isso não diminui a gravidade do crime. O objetivo das punições é desestimular a prática e ressarcir o erário, mas também servir de alerta para que ninguém pense que pode burlar o sistema impunemente.

Conclusão

O caso das três mulheres condenadas no Espírito Santo é um exemplo claro de como a combinação de documentos falsos e vulnerabilidades sistêmicas pode gerar prejuízos gigantescos ao Estado e à sociedade. Para nós, a lição principal é simples: cuidar dos nossos dados, ficar atento ao que acontece com nossos benefícios e, sobretudo, denunciar qualquer irregularidade.

Se cada cidadão fizer a sua parte, a chance de novos esquemas como esse se desenvolver diminui consideravelmente. Afinal, a segurança do nosso sistema previdenciário depende de todos nós.