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Fictor pede recuperação judicial: entenda o que está em jogo nos R$ 430 milhões da Sefer

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Fictor pede recuperação judicial: entenda o que está em jogo nos R$ 430 milhões da Sefer

Na última segunda‑feira, o Grupo Fictor entrou com um pedido de recuperação judicial na 3ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo. Para quem não acompanha o mundo das finanças, pode parecer apenas mais um caso de empresa em dificuldades. Mas, quando a dívida envolve R$ 430 milhões de uma corretora localizada na Faria Lima, o assunto ganha contornos bem mais interessantes – tanto para investidores quanto para quem acompanha a política de compliance no país.



O que é a recuperação judicial?

Antes de mergulhar nos detalhes da dívida da Sever Investimentos DTVM, vale explicar rapidamente o que significa recuperação judicial. A lei de Falências, criada em 2005 e reformada em 2020, permite que empresas com dívidas altas peçam proteção judicial para reorganizar seus pagamentos. Em vez de fechar as portas, a companhia apresenta um plano de pagamento que precisa ser aprovado pelos credores e homologado pelo juiz.

Para o Fictor, que tem um passivo total de R$ 4,257 bilhões, a recuperação judicial pode ser a única saída viável. O processo costuma durar de seis meses a um ano, tempo suficiente para negociar com credores, vender ativos ou buscar novos investidores.



Quem são os credores do Fictor?

O pedido judicial lista os principais credores da empresa:

  • Sefer Investimentos DTVM – R$ 430 milhões
  • Investidores (incluindo um consórcio dos Emirados Árabes Unidos) – R$ 2,765 bilhões
  • American Express – R$ 891 milhões
  • Bônus e comissão a consultores – R$ 10,5 milhões

Esses números mostram que a Sefer, embora não seja a maior credora, tem um papel de destaque por estar ligada à Operação Compliance Zero, um caso que ainda está em investigação no STF.

Compliance Zero: qual a ligação?

A Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal em janeiro, mira fundos e corretoras suspeitos de participar de uma fraude bilionária envolvendo o Banco Master, que foi liquidado pelo Banco Central em novembro de 2025. A Sefer Investimentos DTVM foi apontada como um dos alvos da segunda fase da operação.

Entretanto, a própria Sefer enviou nota ao G1 negando ser credora do Grupo Fictor e afirmando que atua apenas como gestora e administradora de clientes terceiros, sem conceder crédito próprio. Essa contradição gera dúvidas sobre a real natureza da dívida de R$ 430 milhões e sobre quem realmente tem direito a receber esse valor.



Por que o Fictor tentou comprar o Banco Master?

O Grupo Fictor, que já tinha participação de investidores estrangeiros, planejava adquirir o Banco Master por meio de um aporte de R$ 3 bilhões. O objetivo era expandir sua presença no mercado financeiro e consolidar ativos que, segundo a diretoria, tinham potencial de gerar lucro a longo prazo.

Com a liquidação do Master pelo Banco Central, o negócio desmoronou. De repente, o Fictor ficou com um passivo gigantesco e sem a entrada de capital esperada. A falta de confiança do mercado, somada à pressão de credores como a Sefer, levou a empresa a buscar a proteção judicial.

Recuperação judicial vs. falência: o que vale mais para os credores?

A advogada Giovanna Michelleto, especialista em reestruturação empresarial, explica que a recuperação judicial costuma ser mais vantajosa para os credores do que a falência. Na falência, o processo é mais longo, os ativos são vendidos em leilão e os credores podem receber menos do que esperavam. Já na recuperação, há a chance de renegociar prazos, juros e até transformar dívida em participação societária.

Para investidores que têm bilhões em jogo, como os que detêm R$ 2,765 bilhões do Fictor, a perspectiva de um plano de pagamento estruturado e supervisionado pelo judiciário oferece mais segurança.

O que isso significa para você, leitor?

Se você tem investimentos em fundos ou corretoras que operam na Faria Lima, vale ficar de olho nas notícias sobre a recuperação judicial do Fictor. Mesmo que você não seja credor direto, o caso pode influenciar a percepção de risco de todo o ecossistema financeiro da região.

Além disso, a situação traz à tona a importância de entender quem realmente detém suas aplicações. A Sefer afirma não conceder crédito próprio, mas aparece como credora de R$ 430 milhões. Isso mostra como a estrutura de gestão de recursos pode ser complexa e, às vezes, opaca.

Para quem pensa em investir em ativos de alto risco, como fundos de private equity ou operações de compra de bancos, o caso Fictor serve como um lembrete de que a due diligence – a investigação cuidadosa dos documentos e das partes envolvidas – nunca pode ser negligenciada.

Perspectivas futuras

O processo de recuperação judicial ainda está nos estágios iniciais. O juiz ainda vai analisar o plano proposto pelo Fictor e convocar os credores para uma votação. Se a maioria aprovar, a empresa terá um prazo para cumprir as obrigações estabelecidas.

Entretanto, há riscos. Caso o plano seja rejeitado ou o Fictor não consiga cumprir os pagamentos, a empresa pode acabar entrando em falência, o que complicaria ainda mais a situação dos credores internacionais e da Sefer.

Enquanto isso, a Operação Compliance Zero segue em investigação no STF, com o ministro Dias Toffoli acompanhando o caso. O desfecho desse processo pode trazer novas revelações sobre a real participação da Sefer e de outras instituições no suposto esquema de fraude.

Em resumo, o pedido de recuperação judicial do Grupo Fictor não é apenas um número em um documento judicial. Ele reflete a complexa teia de relações entre bancos, corretoras, investidores e órgãos reguladores que compõem o cenário financeiro brasileiro. Para quem acompanha o mercado, entender esses movimentos ajuda a tomar decisões mais informadas e a evitar surpresas desagradáveis.

E você, já tinha ouvido falar do Grupo Fictor ou da Operação Compliance Zero? Como acha que esse caso pode impactar seus investimentos ou a confiança no mercado financeiro de São Paulo?