Na última segunda‑feira (2), o Grupo Fictor protocolou um pedido de recuperação judicial na 3ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo. A notícia ganhou destaque porque, entre os credores listados, está a corretora Sefer Investimentos DTVM – um dos alvos da Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal em janeiro.
Mas o que realmente está acontecendo? Por que uma empresa que já tentou comprar o Banco Master agora pede proteção judicial? E, sobretudo, como isso afeta quem tem dinheiro investido na Fictor ou acompanha o mercado de capitais?
Um resumo rápido dos fatos
- Fictor tem dívida total de R$ 4,257 bilhões.
- Sefer Investimentos DTVM, com sede na Faria Lima, São Paulo, teria direito a receber R$ 430 milhões.
- Outros credores principais: investidores (R$ 2,765 bi), American Express (R$ 891 mi) e bônus/consultorias (R$ 10,5 mi).
- A Operação Compliance Zero investigou supostos esquemas fraudulentos ligados ao Banco Master, que foi liquidado pelo Banco Central em novembro de 2025.
Esses números já dão uma ideia da dimensão do problema: estamos falando de bilhões de reais em circulação, com credores que variam de fundos de investimento a grandes cartões de crédito.
Recuperação judicial x falência: qual a diferença?
A Lei de Falências, criada em 2005 e reformada em 2020, oferece duas vias principais para empresas em crise: a falência propriamente dita ou a recuperação judicial. Na falência, os ativos são vendidos para pagar credores, e a empresa costuma desaparecer do mercado. Já na recuperação judicial, a empresa permanece em operação enquanto tenta renegociar suas dívidas com os credores, seguindo um plano que deve ser aprovado em assembleia e homologado pelo juiz.
Para os credores, a recuperação costuma ser a opção mais vantajosa, porque preserva a atividade econômica e, em muitos casos, permite receber um valor maior do que o que seria obtido em leilão de ativos. A especialista Giovanna Michelleto, citada na matéria, aponta que o processo pode levar de seis meses a um ano apenas para que o plano de pagamento seja votado.
Por que a Sefer nega ser credora?
A própria Sefer Investimentos DTVM respondeu ao G1 dizendo que não é credora do Grupo Fictor, afirmando que atua apenas como gestora e administradora de clientes terceiros, sem conceder crédito próprio. Essa negação cria uma camada extra de complexidade: se a Sefer realmente não tem crédito a receber, quem tem direito aos R$ 430 milhões?
Uma possibilidade é que a dívida tenha sido registrada em nome da corretora por causa de operações de custódia ou de prestação de serviços que, em termos jurídicos, geram um crédito para a corretora. Outra hipótese é que a Sefer esteja tentando se proteger de possíveis acusações de envolvimento na operação fraudulenta investigada na Compliance Zero.
O que motivou a tentativa de compra do Banco Master?
Antes de tudo, vale lembrar que o Grupo Fictor, junto a investidores dos Emirados Árabes Unidos, tentou adquirir o Banco Master por meio de um aporte de R$ 3 bilhões. O negócio não se concretizou porque o Banco Central liquidou o Master em novembro de 2025, após suspeitas de fraude bilionária.
Essa falha acabou gerando um efeito dominó: o dinheiro que seria usado para a compra ficou “preso” nas contas da Fictor, aumentando ainda mais o endividamento da empresa. Sem a aquisição, a Fictor perdeu uma oportunidade de ampliar seu portfólio e, ao mesmo tempo, ficou com obrigações financeiras que não conseguia honrar.
Impactos para o investidor brasileiro
Se você tem algum investimento ligado à Fictor – seja através de fundos, debêntures ou mesmo como cliente da Sefer – o pedido de recuperação judicial pode gerar ansiedade, mas também traz alguns sinais positivos:
- Proteção contra execuções individuais: enquanto o processo estiver em curso, credores não podem cobrar dívidas de forma isolada.
- Possibilidade de negociação: o plano pode oferecer descontos, prazos maiores ou troca de ativos.
- Transparência judicial: todas as etapas são públicas, o que permite acompanhar o andamento.
Por outro lado, há riscos:
- O valor final recebido pode ser menor do que o originalmente investido.
- O processo pode se arrastar, gerando incerteza por meses.
- Se a empresa acabar entrando em falência, os credores ficam na fila atrás de quem tem garantias reais.
Como funciona a fase de votação do plano?
Depois que a empresa apresenta um plano de recuperação – que inclui como e quando cada credor será pago – o juiz convoca uma assembleia de credores. Cada credor tem direito a voto proporcional ao valor da dívida que possui. Se a maioria aprovar, o plano segue para homologação judicial. Caso contrário, a empresa pode ser levada à falência.
Na prática, isso significa que investidores com grandes créditos, como a American Express (R$ 891 mi) e os investidores que somam R$ 2,765 bi, têm peso decisivo nas negociações. Para credores menores, a estratégia costuma ser apoiar o plano que ofereça maior chance de pagamento, mesmo que com desconto.
O que esperar nos próximos meses?
Os analistas do mercado acreditam que a Fictor terá que apresentar um plano bastante agressivo para conseguir a aprovação. Isso pode envolver:
- Venda de ativos não essenciais (imóveis, participações minoritárias, etc.).
- Renegociação de contratos de dívida com bancos.
- Possível entrada de novos investidores que queiram assumir parte da empresa em troca de participação acionária.
Além disso, a tramitação da Operação Compliance Zero no STF, sob o relator ministro Dias Toffoli, pode trazer desdobramentos que alterem o cenário jurídico. Se houver condenações, a Fictor pode enfrentar multas adicionais ou restrições que compliquem ainda mais a reestruturação.
Conclusão: lições para quem acompanha o mercado
O caso Fictor ilustra bem como o universo de grandes conglomerados financeiros pode ser volátil. Uma tentativa de compra que parece promissora pode se transformar em um rombo bilionário quando surgem questões regulatórias. Para investidores, a mensagem principal é diversificar e ficar atento aos indicadores de saúde financeira das empresas em que se investe.
Se você tem alguma exposição à Fictor, vale a pena acompanhar de perto as publicações da 3ª Vara de Falências, ler os relatórios de credores e, se necessário, buscar orientação de um especialista em reestruturação de dívidas. A recuperação judicial pode ser a salvação da empresa, mas não garante que todos os credores receberão tudo de volta.
Em tempos de incerteza econômica, entender esses processos jurídicos é tão importante quanto analisar os números de balanço. Afinal, o futuro do seu dinheiro pode depender de decisões tomadas em tribunais, e não apenas nas salas de negociação.



