Na última semana, o diretor‑presidente interino da Eletronuclear, Alexandre Caporal, deu uma entrevista que acabou virando manchete nos jornais: a estatal está com o caixa tão baixo que só consegue honrar seus compromissos por, no máximo, três meses. O que isso tem a ver com a gente, que paga a conta de luz todo mês? Muito, na verdade.
Um panorama rápido da situação
A Eletronuclear é a empresa responsável pelas duas usinas nucleares em operação – Angra 1 e Angra 2 – e pela obra parada da Angra 3, que está parada há cerca de dez anos. Para financiar a construção da terceira usina, a empresa recorreu a empréstimos quase totais de R$ 7 bilhões junto à Caixa Econômica Federal e ao BNDES. Hoje, esses bancos pedem a suspensão temporária da cobrança da dívida, sem a qual a estatal “sangrará até morrer”, como disse Caporal.
Sem um “stand‑still” nos pagamentos, a Eletronuclear teria que desembolsar cerca de R$ 800 milhões só em juros e amortizações neste ano, além de mais de R$ 1 bilhão em custos operacionais das usinas. Em termos práticos, isso significa que a empresa pode ficar sem dinheiro para manter as usinas em funcionamento, o que, em última análise, pode refletir no preço da energia que chega às nossas casas.
Por que a Angra 3 é o ponto de partida da crise?
Quando a obra de Angra 3 começou, a Eletronuclear ainda não tinha receita suficiente para bancar o investimento. Por isso, pediu empréstimos à Caixa e ao BNDES. O problema é que, sem a conclusão da usina, a empresa nunca vai conseguir gerar a receita extra que ajudaria a pagar essas dívidas.
- Incerteza regulatória: o Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) ainda não definiu o futuro da usina. Sem essa decisão, o BNDES considera que a usina “não existe” para fins de crédito.
- Ausência de aporte estatal: entre 2015 e 2021, o governo federal injetou cerca de R$ 5 bilhões na Eletronuclear. Hoje, após a privatização da Eletrobras, esse apoio direto acabou.
- Custos operacionais altos: as tarifas reguladas pela Aneel para Angra 1 e 2 historicamente ficam abaixo dos custos reais, gerando déficit permanente.
Esses três fatores criam um círculo vicioso: sem dinheiro, a empresa não consegue melhorar a eficiência; sem eficiência, continua precisando de empréstimos; sem empréstimos, a situação financeira se deteriora ainda mais.
O que o governo pode fazer?
Caporal deixou claro que a Eletronuclear não vai pedir aporte direto ao Tesouro neste momento, mas ele também pediu que os bancos públicos suspendam a cobrança da dívida. Até agora, a suspensão já foi concedida por seis meses em 2024, mas ele quer que isso se estenda até que o CNPE decida o futuro da Angra 3.
Além disso, há duas outras possibilidades que podem aliviar a pressão:
- Reequilíbrio tarifário: a Eletronuclear está negociando com a Aneel para ajustar as tarifas de Angra 1 e 2, de modo que reflitam melhor os custos reais. Se isso for aprovado, parte da dívida poderia ser paga com receitas maiores.
- Fundo de Descomissionamento: a estatal espera receber cerca de R$ 1 bilhão desse fundo ainda em 2026. Embora o fundo sirva para a desativação futura das usinas, a empresa pretende usar parte desse recurso como alívio de caixa.
Como isso afeta o consumidor?
Se a Eletronuclear entrar em colapso, o governo precisará intervir de alguma forma, e isso costuma vir acompanhado de aumento de tarifas ou de custos repassados ao consumidor. Já vimos isso acontecer com outras estatais, como os Correios, que pediram empréstimos com aval do Tesouro e viram suas tarifas subir.
Por outro lado, se o “stand‑still” for aprovado e as tarifas forem reajustadas, o impacto imediato pode ser um pequeno aumento na conta de luz, mas isso pode evitar um corte maior no futuro – algo como um remédio amargo agora para prevenir uma dor de cabeça maior depois.
O que eu, como cidadão, posso fazer?
- Fique informado: acompanhe as notícias sobre a decisão do CNPE e as negociações entre a Eletronuclear e a Aneel. Cada anúncio pode trazer pistas sobre o futuro da tarifa.
- Consuma energia com consciência: reduzir o consumo não muda o preço da energia, mas diminui o volume que você paga. Pequenas mudanças – como trocar lâmpadas incandescentes por LED ou desligar aparelhos em standby – ajudam o bolso e o meio ambiente.
- Participe de debates públicos: muitas vezes, as audiências sobre energia são abertas ao público. Expressar sua opinião pode influenciar decisões sobre o futuro de Angra 3.
Perspectivas para os próximos anos
O ministro da Minas e Energia, Alexandre Silveira, indicou que uma definição sobre Angra 3 deve chegar até o fim de 2025. Se a resposta for “sim, vamos concluir”, a Eletronuclear pode ganhar um impulso financeiro significativo, já que a nova usina acrescentaria capacidade de geração e, possivelmente, novas receitas.
Se a resposta for “não, vamos abandonar o projeto”, a empresa terá que viver sem a expectativa de receita adicional, o que significa que os ajustes tarifários e a renegociação de dívidas serão ainda mais críticos. Nesse cenário, a pressão sobre o caixa pode levar a um novo pedido de aporte ao Tesouro, algo que o governo ainda prefere evitar.
Em ambos os casos, a mensagem para o consumidor é a mesma: a energia nuclear no Brasil está em uma encruzilhada, e as decisões que tomarmos agora vão influenciar o preço da luz nas próximas décadas.
Resumo rápido
- Eletronuclear tem caixa para, no máximo, três meses.
- Precisa que bancos públicos suspendam a cobrança de quase R$ 7 bilhões em empréstimos.
- O futuro da usina Angra 3, parada há 10 anos, é o principal ponto de incerteza.
- Possíveis alívios: reajuste tarifário, fundo de descomissionamento e eventual aporte do Tesouro.
- Impacto ao consumidor: risco de aumento nas tarifas de energia.
Eu continuo acompanhando de perto, porque energia barata e estável é essencial para a nossa vida diária e para a competitividade da economia brasileira. Se você também quer entender como essas decisões de alto nível chegam até a sua conta de luz, fique ligado nas próximas atualizações – e, claro, aproveite para economizar energia enquanto isso.



