Na última segunda‑feira, o presidente interino da Eletronuclear, Alexandre Caporal, soltou uma frase que virou manchete nas redes: “Se não houver uma solução, seremos os Correios amanhã”. A comparação pode parecer exagerada, mas, na prática, revela o grau de vulnerabilidade que a estatal nuclear está vivendo.
Para quem não acompanha o assunto, a Eletronuclear é a empresa responsável pela operação das usinas nucleares de Angra 1 e Angra 2, e, principalmente, pelo projeto ainda inacabado da Angra 3. O que começou como um investimento de longo prazo para diversificar a matriz energética acabou se transformando em um peso financeiro enorme, que agora ameaça a própria sobrevivência da empresa.
Por que Angra 3 está tão longe de ser concluída?
O plano original, lançado no início dos anos 2000, previa a construção de três unidades nucleares em Angra dos Reis, no estado do Rio de Janeiro. Enquanto Angra 1 (operacional desde 1985) e Angra 2 (desde 2001) funcionam, Angra 3 tem sua obra paralisada há cerca de dez anos.
Os principais motivos da paralisação são:
- Problemas de licenciamento ambiental: disputas judiciais e exigências de órgãos ambientais atrasaram a liberação de documentos essenciais.
- Escalada de custos: o orçamento inicial, estimado em R$ 6,5 bilhões, já ultrapassou os R$ 15 bilhões, com juros e reajustes ao longo dos anos.
- Instabilidade política: mudanças de governo e prioridades diferentes nas políticas energéticas fizeram o projeto cair no esquecimento.
Essas questões, somadas à falta de um cronograma definido, deixaram a Eletronuclear com uma dívida de quase R$ 7 bilhões relacionada ao empreendimento. Até agora, os bancos públicos têm adiado a cobrança, mas esse alívio tem prazo limitado.
O que está em jogo? O panorama financeiro da Eletronuclear
Caporal informou que a empresa tem caixa suficiente apenas até meados de março de 2024. Após essa data, sem uma solução estruturada, a estatal pode entrar em colapso financeiro. O que isso significa na prática?
- Risco de default: a Eletronuclear pode deixar de pagar fornecedores e, principalmente, os bancos que concederam empréstimos.
- Impacto nas contas públicas: embora a empresa não dependa diretamente de aporte do Tesouro neste momento, um eventual colapso exigiria intervenção estatal, seja via garantias ou injeções de capital.
- Repercussão no setor de energia: a incerteza sobre Angra 3 pode comprometer metas de diversificação da matriz energética e aumentar a dependência de fontes fósseis.
Além disso, a dívida de R$ 800 milhões prevista para 2026, somada aos custos de manutenção da obra (mais de R$ 1 bilhão por ano), cria um buraco que não pode ser tapado apenas com medidas de curto prazo.
Qual a proposta de solução?
Caporal pediu que os bancos públicos suspendam a cobrança das quase R$ 7 bilhões até que o Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) decida o futuro da Angra 3. Essa suspensão já foi concedida por seis meses em 2024, mas a expectativa é que a decisão do CNPE ainda demore.
Eletronuclear não precisa, neste momento, de aporte direto do Tesouro, mas enfatiza que a suspensão das cobranças é “essencial para garantir a sustentabilidade financeira”. Em outras palavras, a empresa precisa de um fôlego temporário para aguardar uma solução definitiva.
Possíveis caminhos
- Retomar a obra: concluir Angra 3 poderia transformar a dívida em ativo produtivo, gerando receita de energia nuclear por décadas.
- Venda ou parceria: atrair investidores privados ou formar joint ventures para assumir parte dos custos e riscos.
- Desativação e desinvestimento: reconhecer que o projeto está inviável e buscar compensações ou realocação de recursos.
Qualquer uma dessas alternativas exige decisão política clara, algo que tem faltado nos últimos anos. O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, prometeu em 2025 uma decisão dentro do ano, mas nada foi anunciado.
O que isso tem a ver com a sua vida?
À primeira vista, a crise de uma estatal nuclear parece distante da rotina do cidadão comum. Contudo, há impactos diretos e indiretos que vale a pena entender.
- Preço da energia elétrica: a falta de novos projetos nucleares pode pressionar o mercado de geração, elevando tarifas para consumidores residenciais e industriais.
- Segurança energética: diversificar a matriz ajuda a reduzir vulnerabilidades a choques externos, como crises de petróleo ou interrupções de energia hidrelétrica em períodos de seca.
- Empregos e desenvolvimento regional: a retomada de Angra 3 geraria milhares de empregos diretos e indiretos, principalmente no Rio de Janeiro, impulsionando a economia local.
- Financiamento público: se o governo precisar intervir para evitar um colapso, isso pode significar mais gastos públicos, que podem ser repassados indiretamente via impostos ou corte de serviços.
Portanto, a decisão que o CNPE tomar nos próximos meses tem potencial para influenciar a conta de luz que você paga no final do mês e até a disponibilidade de empregos na sua região.
Um olhar histórico: crises de grandes empresas estatais no Brasil
Não é a primeira vez que uma empresa pública enfrenta dificuldades financeiras graves. Os Correios, citados por Caporal, passaram por um processo de reestruturação que incluiu a venda de ativos e a busca por eficiência operacional. A Eletronuclear pode seguir um caminho semelhante, mas com particularidades.
Enquanto os Correios lidam principalmente com a logística de correspondência, a Eletronuclear tem um papel estratégico na segurança energética. Isso significa que o governo tem menos margem para “deixar a empresa afundar” sem considerar as consequências macroeconômicas.
Perspectivas para o futuro
O que podemos esperar nos próximos meses?
- Reunião do CNPE: há forte pressão de setores da indústria, da academia e da sociedade civil para que o conselho decida rapidamente.
- Negociações com bancos: a suspensão da cobrança pode ser renovada, mas provavelmente com condições mais rígidas.
- Movimento político: partidos de oposição podem usar a crise como argumento para críticas ao governo, enquanto o Executivo buscará soluções que evitem “colapso”.
Se a decisão for favorável à continuação de Angra 3, podemos esperar um fluxo de investimentos que revitalizará a região de Angra dos Reis, gerará empregos e, a longo prazo, reduzirá custos de energia. Se, ao contrário, a solução for a descontinuação do projeto, o Brasil terá que buscar outras fontes para cumprir suas metas de descarbonização.
Independentemente do desfecho, a lição mais importante é que decisões estratégicas de longo prazo precisam ser tomadas com antecedência, antes que a crise se torne inevitável. A história da Eletronuclear serve como alerta para outras áreas onde projetos de infraestrutura são adiados por questões políticas ou burocráticas.
Para nós, leitores, o melhor caminho é ficar atentos às discussões no CNPE, acompanhar as declarações do Ministério de Minas e Energia e, sobretudo, entender como essas decisões podem refletir no seu bolso e no futuro energético do país.
E aí, o que você acha? A Eletronuclear deve continuar com Angra 3 ou é hora de fechar o capítulo e buscar alternativas? Deixe sua opinião nos comentários – a conversa está só começando.



