Eu acompanho de perto as notícias do setor de energia e, quando li que a Eletronuclear – a empresa responsável pelas usinas nucleares Angra 1, 2 e a ainda parada Angra 3 – tem caixa para apenas dois ou três meses, senti um aperto no peito. Não é só uma questão de números de balanço; é algo que pode acabar mexendo na sua conta de luz, nos investimentos do governo e até na discussão sobre o futuro da energia nuclear no Brasil.
Um panorama rápido da situação
O diretor‑presidente interino, Alexandre Caporal, declarou que a empresa está em um “nível de caixa totalmente baixo” e que, sem medidas urgentes, conseguirá honrar seus compromissos apenas pelos próximos dois a três meses. Ele reforçou que a Eletronuclear não pretende pedir aporte direto ao Tesouro, mas que os bancos públicos – Caixa Econômica Federal e BNDES – precisam suspender temporariamente a cobrança dos quase R$ 7 bilhões de empréstimos que já concederam.
Por que a Eletronuclear chegou a esse ponto?
Para entender o porquê, é preciso olhar para alguns fatores que se acumularam ao longo dos últimos anos:
- Paralisação de Angra 3: As obras da terceira usina nuclear estão paradas há cerca de 10 anos. Sem definição do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), a empresa não tem a fonte de receita esperada para cobrir custos gigantescos.
- Custos operacionais acima da tarifa: Angra 1 e Angra 2 já têm despesas que superam o limite de tarifas estabelecido pela Aneel. Historicamente, a União cobria parte desse déficit, mas após a privatização da Eletrobras e a restrição de novos aportes, a Eletronuclear ficou à mercê de seu próprio caixa.
- Empréstimos antigos: Quando as obras de Angra 3 começaram, a estatal recorreu à Caixa e ao BNDES. Esses empréstimos ainda pesam no balanço, e a cobrança continua mesmo que a usina ainda não exista de fato.
O que está em jogo para o consumidor?
Se a Eletronuclear não conseguir um “stand still” – a suspensão da cobrança da dívida – o risco de um colapso financeiro pode se transformar em cortes de produção, atrasos em investimentos e, potencialmente, aumento de tarifas para compensar o déficit.
Em termos práticos, isso pode significar:
- Elevação dos encargos setoriais na conta de luz, já que a empresa busca reequilibrar tarifas junto à Aneel.
- Possível redução de investimentos em manutenção e modernização das usinas, o que pode impactar a confiabilidade do fornecimento.
- Pressão política para que o governo escolha entre aportar recursos ou deixar a estatal “sangrar até morrer”, como disse Caprol.
Quais são as alternativas que a Eletronuclear está tentando?
Além de pedir a suspensão dos pagamentos, a empresa está tomando algumas medidas internas:
- Corte de despesas: Redução de custos administrativos, revisão de contratos de terceirização e ajustes de pessoal.
- Reequilíbrio tarifário: Negociações com a Aneel para adequar as tarifas ao custo real de operação.
- Busca de receitas extras: Caprol espera receber cerca de R$ 1 bilhão do Fundo de Descomissionamento ainda em 2026, embora o pagamento ainda dependa de uma medida cautelar no Judiciário.
O papel dos bancos públicos e do Tesouro
O BNDES tem mostrado resistência em conceder o “stand still” porque, do ponto de vista regulatório, Angra 3 ainda não existe. Já a Caixa tem sido mais flexível, mas a suspensão completa dos pagamentos ainda depende de uma decisão coordenada entre os bancos e o governo.
Embora Caprol afirme que não há necessidade de aporte direto do Tesouro agora, o Relatório de Riscos Fiscais da União (2025) menciona a Eletronuclear como um risco potencial, indicando que o governo pode ser pressionado a intervir caso a situação se agrave.
Comparação com os Correios – por que não é a mesma coisa?
Alguns críticos tentaram comparar a crise da Eletronuclear com a dos Correios, que também enfrentam dificuldades financeiras e pediram empréstimos com aval do Tesouro. Caprol rebateu, dizendo que a Eletronuclear não precisa de uma injeção direta de recursos, mas sim da suspensão temporária da dívida para ganhar fôlego.
O futuro da energia nuclear no Brasil
Se Angra 3 permanecer paralisada, a Eletronuclear pode ficar presa em um ciclo de endividamento e baixa geração de receita. Por outro lado, se o CNPE definir um caminho – seja a retomada das obras, a venda da usina ou até a sua desativação – a empresa pode ter um horizonte mais claro.
Para nós, consumidores, o ponto de atenção está na forma como o governo e a estatal vão equilibrar a necessidade de manter a segurança energética com a responsabilidade fiscal. A energia nuclear tem um papel importante na matriz brasileira, mas só será sustentável se houver planejamento financeiro sólido.
O que você pode fazer agora?
Embora a situação pareça distante da vida cotidiana, há algumas atitudes que ajudam a mitigar o impacto:
- Fique informado: acompanhe as decisões do CNPE e os comunicados da Aneel sobre tarifas.
- Reduza o consumo: pequenas mudanças – como desligar aparelhos em stand‑by e usar iluminação natural – ajudam a baixar a conta de luz.
- Considere fontes alternativas: se possível, avalie a instalação de painéis solares residenciais; isso diminui a dependência da tarifa regulada.
Em resumo, a crise da Eletronuclear não é apenas um problema de balanço; é um sinal de que a política energética brasileira está em um ponto crítico. A forma como o governo, os bancos e a própria estatal lidarem com essa situação pode definir não só o futuro das usinas nucleares, mas também o preço que pagamos pela energia todos os dias.



