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Eletronuclear à beira do colapso: o que a crise da caixa significa para a energia do Brasil

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Eletronuclear à beira do colapso: o que a crise da caixa significa para a energia do Brasil

Um panorama rápido da situação

Na última entrevista ao G1, Alexandre Caporal, diretor‑presidente interino da Eletronuclear, revelou que a estatal está com “nível de caixa totalmente baixo”. Em termos práticos, isso quer dizer que a empresa consegue honrar seus compromissos financeiros apenas pelos próximos dois a três meses. Depois disso, a conta pode fechar.

Por que a Eletronuclear está tão vulnerável?

O principal ponto de dor da Eletronuclear é a paralisação da construção da usina nuclear de Angra 3. As obras foram interrompidas há cerca de dez anos, mas os custos continuam correndo: manutenção, salários, contratos de terceirização e, sobretudo, o pagamento da dívida que a empresa contraiu para iniciar a obra. Em 2024, a Eletronuclear recebeu quase R$ 7 bilhões em empréstimos da Caixa Econômica Federal e do BNDES. Sem uma definição clara sobre o futuro de Angra 3, esses bancos estão relutantes em suspender a cobrança.

O que a empresa pede aos bancos públicos?

Caporal pediu um “stand‑still” – a suspensão temporária dos pagamentos da dívida – para ganhar fôlego até que o Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) decida o destino da usina. Ele argumenta que, sem essa pausa, a Eletronuclear “vai sangrar até morrer”. A suspensão já foi concedida por seis meses em 2024; a proposta agora é estendê‑la por mais tempo, até que haja uma decisão definitiva sobre Angra 3.

Comparação com outras estatais

Embora alguns vejam paralelos com a crise dos Correios, Caporal insiste que a situação é diferente. Os Correios pediram um aporte direto do Tesouro; a Eletronuclear, por sua vez, não quer mais recursos imediatos, mas sim a moratória dos empréstimos já existentes. Ainda assim, o Tesouro Nacional não descartou a possibilidade de um futuro aporte, como apontado no Relatório de Riscos Fiscais da União de 2025.

Impactos nas tarifas de energia

As usinas Angra 1 e Angra 2 já operam há décadas, mas seus custos operacionais sempre ficaram acima do que a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) permite nas tarifas. Historicamente, o governo federal cobria parte desse déficit com aportes que somaram cerca de R$ 5 bilhões entre 2015 e 2021. Desde a privatização da Eletrobras e a restrição orçamentária, esse suporte desapareceu, aumentando a vulnerabilidade da Eletronuclear.

O que está sendo feito para conter o rombo?

  • Corte de despesas: redução de quadro de pessoal, renegociação de contratos de terceirização e revisão de gastos administrativos.
  • Reequilíbrio tarifário: a empresa está buscando junto à Aneel tarifas mais condizentes com seus custos reais.
  • Busca por novas fontes de receita: Caporal espera receber, ainda no primeiro trimestre de 2026, cerca de R$ 1 bilhão do Fundo de Descomissionamento, um fundo criado para custear a desativação futura das usinas.

Fundo de Descomissionamento: solução ou esperança?

O fundo já acumula aproximadamente R$ 3,2 bilhões, provenientes das tarifas de Angra 1 e Angra 2 que aparecem na conta de luz como encargos setoriais. O custo estimado para desativar as duas usinas é de R$ 7,5 bilhões, mas o fundo tem rendimentos que, ao longo de 40 a 60 anos, devem superar esse valor. Caporal acredita que a liberação de parte desses recursos não compromete a segurança nuclear e pode aliviar a crise de caixa no curto prazo.

Qual o futuro de Angra 3?

O Ministério de Minas e Energia, por meio do ministro Alexandre Silveira, sinalizou que uma decisão deveria chegar até o final de 2025. Enquanto isso, o BNDES argumenta que, sem uma definição oficial, a usina “não existe” do ponto de vista regulatório, o que dificulta a concessão de novos acordos de pagamento.

O que isso significa para o consumidor?

Se a Eletronuclear entrar em colapso, o risco imediato seria a interrupção da produção de energia nuclear, que atualmente responde por cerca de 3 % da matriz energética brasileira. Embora esse percentual pareça pequeno, a perda de Angra 1 e Angra 2 poderia pressionar ainda mais o sistema elétrico, já sobrecarregado por questões climáticas e falta de investimentos em renováveis.

Além disso, a negociação de tarifas pode resultar em aumentos na conta de luz, já que a Aneel pode reajustar os encargos setoriais para cobrir déficits. Por outro lado, um acordo bem‑sucedido com os bancos e a liberação do Fundo de Descomissionamento podem estabilizar a situação e evitar aumentos bruscos.

Perspectivas e lições aprendidas

O caso Eletronuclear ilustra como projetos de infraestrutura de longo prazo podem se tornar armadilhas financeiras quando há incerteza política. A falta de um cronograma claro para Angra 3 gera custos recorrentes sem retorno, drenando recursos que poderiam ser usados para melhorar a eficiência das usinas já operacionais.

Para os gestores públicos, a lição é clara: antes de aprovar grandes empréstimos para obras de capital, é essencial garantir um plano de execução realista e um horizonte de retorno bem definido. Caso contrário, a dívida pode se tornar insustentável, como vemos hoje.

O que podemos fazer enquanto isso?

  • Ficar atento às notícias sobre a decisão do CNPE e os movimentos do BNDES.
  • Monitorar eventuais alterações nas tarifas de energia anunciadas pela Aneel.
  • Considerar a diversificação de fontes de energia, apoiando projetos de renováveis que reduzem a dependência de usinas caras e controversas.
  • Participar de discussões públicas sobre política energética, já que decisões de longo prazo afetam diretamente o bolso do consumidor.

Em resumo, a Eletronuclear está em um momento crítico, mas ainda há caminhos possíveis para evitar o colapso total. A chave está na negociação entre a empresa, os bancos públicos e o governo, além de uma decisão rápida sobre Angra 3. Enquanto isso, nós, como consumidores, devemos acompanhar e cobrar transparência, pois a energia que chega às nossas casas depende diretamente dessas decisões.