Na última terça‑feira, em uma visita ao interior de Iowa, o ex‑presidente Donald Trump respondeu a um repórter que lhe perguntava se o dólar estava “caindo demais”. A resposta foi direta – e inesperada: “Não, eu acho ótimo, o valor do dólar… o dólar está indo muito bem”. Essa frase, simples na superfície, acabou gerando uma reação imediata nos mercados cambiais, empurrando a moeda americana para o menor patamar em quatro anos.
Para quem não acompanha o dia a dia das finanças globais, pode parecer só mais um comentário político. Mas, na prática, a opinião de um ex‑presidente tem peso. Quando Trump, que ainda tem uma base de apoio considerável, diz que o dólar está “ótimo”, ele está, de certa forma, sinalizando que não pretende interferir para fortalecê‑lo. E isso abre espaço para que vendedores de dólares continuem pressionando a moeda.
O índice DXY – que mede o dólar contra um cesto de seis moedas (euro, iene, libra, dólar canadense, coroa sueca e franco suíço) – despencou para 95,566, a menor marca desde fevereiro de 2022. Essa queda não aconteceu por acaso; ela tem raízes em uma combinação de fatores que vale a pena entender.
Por que o dólar está enfraquecendo?
- Expectativas de cortes de juros: O Federal Reserve (Fed) tem sinalizado que pode reduzir a taxa básica nos próximos meses, o que costuma desvalorizar a moeda.
- Incertezas sobre tarifas: As discussões em torno de novas tarifas comerciais criam dúvidas sobre a direção da política externa dos EUA.
- Instabilidade institucional: Comentários que sugerem que a independência do Fed está em risco deixam investidores cautelosos.
- Déficits fiscais elevados: O aumento dos déficits faz os investidores questionarem a sustentabilidade da dívida americana.
Esses pontos, isolados, já seriam suficientes para pressionar o dólar. Juntos, eles criam um cenário onde o mercado vê a moeda como menos segura, o que faz o preço cair.
O que isso significa para o consumidor brasileiro?
Se você compra produtos importados – como eletrônicos, roupas de marca ou até mesmo alimentos processados – um dólar mais fraco pode ser uma boa notícia. Como o preço desses itens é cotado em dólares, a desvalorização da moeda americana reduz o custo em reais.
Por outro lado, se você tem investimentos atrelados ao dólar, como títulos do Tesouro americano ou fundos internacionais, a rentabilidade pode ser menor quando convertida para reais. Além disso, empresas brasileiras que dependem de importações podem ver suas margens melhorar, mas isso pode ser compensado por pressões inflacionárias internas.
Benefícios e riscos para as empresas
Um dólar mais barato tem um efeito de faca de dois gumes. Para exportadores americanos, a competitividade dos seus produtos no exterior aumenta, já que eles ficam mais baratos em relação às moedas estrangeiras. Isso pode impulsionar o comércio exterior dos EUA, ajudando a reduzir o déficit comercial – algo que o ex‑presidente Trump costuma destacar.
Para multinacionais brasileiras que operam nos EUA ou que têm receitas em dólares, a conversão desses lucros para reais se torna mais vantajosa. O custo de repatriar dinheiro diminui, melhorando os resultados financeiros.
Entretanto, a mesma desvalorização eleva o preço dos bens importados, o que pode gerar inflação nos países que dependem de insumos externos. No Brasil, já vemos sinais de que alguns produtos estão mais caros nas prateleiras, reflexo direto da cotação do dólar.
O papel das intervenções cambiais
Nos últimos dias, surgiram rumores de que os EUA e o Japão poderiam coordenar uma intervenção para sustentar o iene, que tem se mostrado fraco. Se isso acontecer, pode haver um movimento de alta repentina no iene e, consequentemente, uma nova pressão sobre o dólar.
Essas intervenções são, na prática, tentativas de estabilizar o mercado e evitar flutuações bruscas que prejudiquem o comércio internacional. Mas, como apontou Steven Englander, chefe de pesquisa global de moedas do Standard Chartered, quando um presidente demonstra indiferença ou até endossa a queda, isso encoraja os vendedores de dólares a continuar pressionando.
Como se proteger?
Se você está preocupado com a volatilidade do dólar, aqui vão algumas dicas práticas:
- Diversifique seus investimentos: Não coloque todo o seu dinheiro em ativos atrelados a uma única moeda.
- Considere contratos de hedge: Empresas que lidam com importação/exportação podem usar instrumentos financeiros para travar a taxa de câmbio.
- Fique de olho nas notícias: Comentários de figuras políticas, decisões do Fed e indicadores como o DXY são bons termômetros.
- Aproveite oportunidades: Se o dólar está barato, pode ser um bom momento para comprar produtos importados ou investir em ativos americanos.
Em resumo, a fala de Trump pode ter sido simples, mas desencadeou uma série de reações nos mercados. O dólar em baixa traz vantagens para alguns setores e desafios para outros. O importante é entender como essas dinâmicas afetam o seu dia a dia e tomar decisões mais informadas.
E você, como tem sentido a variação do dólar? Compartilhe nos comentários!



