Na segunda‑feira (12), o dólar subiu 0,12% e fechou em R$ 5,3719, enquanto o Ibovespa recuou 0,13%, ficando em 163.150 pontos. Pode parecer apenas mais um número nos boletins de fim de dia, mas, na prática, essas variações mexem diretamente nas contas de quem compra produtos importados, investe em ações ou acompanha a inflação.
Mas por que o dólar está subindo agora? A resposta está ligada a um duelo político que vem ganhando força nos Estados Unidos: a tensão entre a Casa Branca, liderada por Donald Trump, e o Federal Reserve (Fed), o banco central americano. Trump voltou a atacar o presidente do Fed, Jerome Powell, ameaçando até mesmo indiciá‑lo por declarações feitas ao Congresso sobre a reforma de um prédio do Fed. Essa disputa tem repercussões globais, porque a política de juros dos EUA influencia a taxa de câmbio do dólar.
Quando o presidente dos EUA tenta pressionar o Fed, o mercado interpreta que pode haver mudanças inesperadas na taxa de juros. Se os investidores acreditarem que o Fed será forçado a cortar juros mais agressivamente, o dólar tende a desvalorizar. No entanto, a ameaça de um processo criminal contra Powell acabou gerando mais incerteza sobre a independência do banco central, o que, paradoxalmente, fez o dólar subir – os investidores buscam segurança em uma moeda que ainda consideram a mais estável do mundo.
Como a alta do dólar afeta o brasileiro?
- Produtos importados: itens como eletrônicos, roupas de marcas internacionais e até alguns alimentos processados ficam mais caros. Se você costuma comprar um iPhone ou um notebook nos EUA, a diferença de preço pode ser notável.
- Viagens ao exterior: a cotação do dólar impacta diretamente o custo de passagens aéreas, hospedagem e gastos diários. Uma alta de 0,12% pode parecer pequena, mas acumulada ao longo de meses, pode representar dezenas de reais a mais na fatura.
- Investimentos: quem tem ativos atrelados ao dólar – como fundos de investimento, ETFs ou ações de empresas exportadoras – sente o efeito imediatamente. O dólar alto costuma favorecer exportadores, mas pode prejudicar quem tem dívida em dólar.
- Inflação: parte da inflação brasileira vem de produtos importados. Quando o dólar sobe, o preço desses produtos tende a subir, pressionando o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).
O que está acontecendo no Brasil?
Enquanto a disputa nos EUA ocupa as manchetes internacionais, o Brasil tem sua própria agenda econômica. Nesta segunda‑feira, o Banco Central divulgou o Boletim Focus, que traz as projeções de analistas para a inflação e para a taxa Selic. As estimativas para a inflação em 2026 caíram levemente, de 4,06% para 4,05%, e os números para 2027‑2029 permaneceram estáveis. Isso indica que, apesar da alta do dólar, os analistas ainda veem um cenário de controle inflacionário.
Além disso, o presidente do Tribunal de Contas da União (TCU), Vital do Rêgo, se encontrou com o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, para discutir o impasse envolvendo o Banco Master. Embora o assunto seja mais técnico, ele demonstra que o Brasil está atento a questões de estabilidade financeira.
Por que o Ibovespa recuou?
O Ibovespa, principal índice da bolsa brasileira, fechou em queda de 0,13%. Dois fatores foram decisivos:
- Pressão externa: a alta do dólar costuma pesar sobre ações de empresas que dependem de importação de insumos. Setores como varejo de eletrônicos e indústria de bens de capital sentiram o efeito.
- Notícias internas: a proposta de Trump de limitar a taxa de juros de cartões de crédito nos EUA a 10% por um ano gerou preocupação nos bancos globais, que viram suas ações recuarem. Esse sentimento negativo se espalhou para as ações brasileiras, especialmente as de instituições financeiras.
Mesmo com a queda, o Ibovespa ainda registra um ganho de 1,26% no mês e no ano, mostrando que o mercado brasileiro tem conseguido se manter resiliente frente às turbulências internacionais.
O que esperar dos juros nos EUA?
O Fed tem mantido a taxa de juros em patamares elevados para conter a inflação, mas a pressão política pode mudar o cenário. Se o Fed ceder às exigências de Trump e reduzir os juros mais rápido do que o esperado, o dólar pode desvalorizar, o que traria alívio para os importadores brasileiros. Por outro lado, se a independência do Fed for reforçada, a moeda americana pode se manter forte, mantendo a pressão sobre o real.
O economista‑chefe do Goldman Sachs, Jan Hatzius, comentou que a ameaça de um processo contra Powell aumenta a preocupação com a independência do Fed, mas acredita que as decisões continuarão baseadas em dados econômicos. Essa postura pode trazer alguma estabilidade ao mercado, mas o risco de volatilidade permanece.
Como se proteger da volatilidade cambial?
Se você está preocupado com a alta do dólar, aqui vão algumas estratégias práticas:
- Diversificar investimentos: não coloque todo o seu dinheiro em ativos atrelados ao dólar. Considere fundos de renda fixa, CDBs e títulos públicos que pagam em real.
- Hedging para empresas: negócios que dependem de importação podem usar contratos de câmbio futuro para travar a taxa e evitar surpresas.
- Planejar compras internacionais: se pretende viajar ou comprar produtos fora, faça a conversão em momentos de baixa do dólar. Aplicativos de monitoramento de câmbio podem ajudar.
- Acompanhar notícias: ficar atento às declarações de Powell e aos movimentos políticos nos EUA ajuda a antecipar possíveis mudanças.
O panorama global
Enquanto os EUA lidam com a disputa interna, as bolsas ao redor do mundo apresentam resultados mistos. Nos EUA, os principais índices – Dow Jones, S&P 500 e Nasdaq – fecharam em alta, impulsionados pelas ações de tecnologia. Na Europa, o índice STOXX 600 subiu 0,20%, com destaque para o DAX alemão, que bateu recorde pela 10ª alta consecutiva.
Na Ásia, a China registrou os maiores níveis da última década, impulsionada por empresas de inteligência artificial e aeroespacial. O otimismo regional pode ajudar a compensar a pressão sobre o dólar, mas a interconexão dos mercados significa que choques em um ponto podem reverberar rapidamente.
Conclusão
Em resumo, a alta do dólar e a queda do Ibovespa são reflexos de duas frentes distintas: a batalha política entre Trump e o Fed nos EUA e a resposta do mercado brasileiro a esses movimentos externos. Para quem tem o real como moeda de referência, isso se traduz em produtos importados mais caros, viagens ao exterior mais caras e um ambiente de investimento mais volátil.
Mas nem tudo está perdido. O Brasil ainda conta com projeções de inflação controlada, um Banco Central que mantém a independência e um mercado interno robusto. A chave está em ficar informado, diversificar suas finanças e, se possível, usar instrumentos de proteção cambial.
Fique de olho nas próximas declarações de Jerome Powell e nas reações de Donald Trump. Cada novo discurso pode mover o dólar e, por consequência, o seu poder de compra. E lembre‑se: entender o que está acontecendo nos bastidores da política monetária pode fazer a diferença entre sofrer com a alta do dólar ou aproveitar oportunidades de investimento.



