Se você acordou nesta sexta‑feira (26) e deu uma olhada rápida nas notícias econômicas, deve ter visto duas informações que, à primeira vista, parecem contraditórias: o dólar subiu para R$ 5,54, enquanto o Ibovespa avançou, fechando em 160.897 pontos. Como alguém que acompanha o mercado de perto (e que, confesso, já perdeu algumas noites de sono por causa disso), eu resolvi descomplicar um pouco esse cenário e mostrar por que esses números importam para você, seja quem for.
Por que o dólar subiu?
O dólar fechou em alta de 0,16% – um movimento pequeno, mas que já faz diferença quando você pensa em importações, viagens ou até na conta de luz (alguns contratos ainda são atrelados ao câmbio). Vários fatores convergem para esse aumento:
- Fluxo cambial negativo: o Banco Central informou que, até 19 de dezembro, o Brasil registrou saída de US$ 3,363 bilhões. Quando há mais dinheiro saindo do país do que entrando, a moeda local perde força.
- Retração do crédito: as concessões de empréstimos caíram 6,6% em novembro. Menos crédito significa menos dinheiro circulando internamente, o que também pressiona a taxa de câmbio.
- Incerteza política: a carta de Jair Bolsonaro confirmando Flávio Bolsonaro como candidato para 2026 trouxe dúvidas sobre a estabilidade do cenário político. Analistas apontam que isso pode reduzir o apetite dos investidores estrangeiros por ativos brasileiros, favorecendo a alta do dólar.
- Cautela internacional: nos EUA e na Europa, o dólar tem se mantido firme frente a outras moedas fortes, refletindo a expectativa de que os bancos centrais mantenham políticas monetárias restritivas.
E o Ibovespa, então, como subiu?
É fácil pensar que um dólar mais caro deveria arrastar a bolsa para baixo, mas o mercado de ações tem sua própria lógica. O Ibovespa subiu 0,27% e acumula +33,76% no ano. Por quê?
- Expectativa de continuidade do governo: a indicação de Flávio Bolsonaro reduz o risco de uma mudança abrupta de políticas. Para alguns investidores, isso significa menos volatilidade.
- Desempenho de setores internos: empresas de commodities, bancos e varejo continuam mostrando resultados sólidos, compensando a pressão cambial.
- Liquidez pós‑Natal: com o mercado reabrindo após o feriado, há um “pump” de compra de ações que ainda não foram negociadas nos últimos dias.
O que isso muda no seu dia a dia?
Vamos trazer esses números para a realidade do cidadão comum.
- Viagens ao exterior: se você planeja comprar passagens ou reservar hotéis nos EUA ou Europa, espere pagar um pouco mais. Cada ponto de dólar pode representar dezenas de reais a mais.
- Produtos importados: eletrônicos, roupas e até alimentos com insumos importados tendem a subir de preço. Lojas que trabalham com margem apertada podem repassar o custo para o consumidor.
- Financiamento e crédito: com a queda nas concessões de empréstimos, os bancos podem subir as taxas de juros, como já vimos: o juro médio do crédito livre chegou a 46,7% ao ano.
- Investimentos: se você tem ações, o movimento positivo do Ibovespa pode ser um alívio. Mas lembre‑se: a bolsa não protege contra a alta do dólar em investimentos em renda fixa atrelada ao câmbio.
Contexto político: a carta de Bolsonaro e o futuro de 2026
O anúncio de Flávio Bolsonaro como pré‑candidato trouxe uma nova camada de incerteza. O ex‑presidente está preso e impedido de concorrer, o que abre espaço para disputas internas entre aliados. Dois nomes surgem como possíveis concorrentes:
- Flávio Bolsonaro (RJ): representa a continuidade da agenda do pai, mas também carrega o peso das controvérsias que o cercam.
- Tarcísio de Freitas (SP): governador de São Paulo, visto como mais moderado e com maior aceitação no mercado.
Analistas acreditam que a escolha de Flávio pode pressionar ainda mais o real, já que investidores temem políticas econômicas menos ortodoxas. Para quem tem dólares guardados, isso pode ser um sinal de oportunidade de compra, mas para quem depende de importações, é motivo de preocupação.
O panorama internacional: China, Rússia e a tensão nos mercados
Além da política interna, o cenário global também influencia o câmbio brasileiro. A China revisou para baixo seu PIB de 2024, indicando uma desaceleração que pode reduzir a demanda por commodities brasileiras. Por outro lado, o fortalecimento do iuan ajudou a estabilizar a bolsa de Xangai.
Sanções dos EUA à China e a resposta chinesa (congelamento de ativos de empresas de defesa americanas) criam um clima de incerteza que, por sua vez, favorece o dólar como “porto seguro”.
Na América Latina, a Rússia acusou os EUA de “pirataria” no Caribe após o bloqueio à Venezuela, elevando ainda mais as tensões geopolíticas. Em tempos de crise, os investidores tendem a buscar ativos considerados menos arriscados, como o dólar.
Como se proteger e aproveitar as oportunidades
Agora que você entende o que está acontecendo, vamos ao que realmente importa: o que fazer?
- Reavaliar o orçamento: se você tem gastos previstos em moeda estrangeira, considere antecipar compras ou negociar contratos em reais, quando possível.
- Diversificar investimentos: mantenha parte da carteira em ativos que se beneficiam da alta do dólar (como fundos de renda fixa atrelados ao câmbio) e outra parte em ações que têm boa performance local.
- Ficar de olho nas taxas de juros: com o crédito mais caro, evite contrair dívidas de longo prazo sem analisar bem as condições.
- Monitorar a política: as próximas semanas podem trazer mais notícias sobre a sucessão de Bolsonaro e a reação do mercado. Se houver sinais de maior instabilidade, pode ser hora de reduzir exposição a ativos de risco.
Conclusão
Em resumo, a alta do dólar e a alta do Ibovespa não são paradoxos, mas reflexos de duas forças diferentes: a pressão cambial externa e a confiança interna nos ativos brasileiros. Para quem tem um planejamento financeiro, entender essas nuances ajuda a tomar decisões mais acertadas, seja ao comprar um eletrônico, ao fechar um financiamento ou ao escolher onde investir.
Eu, como leitor assíduo de economia, sempre tento transformar esses números em ações concretas. E você? Já pensou em como esses movimentos podem mudar seu próximo gasto ou investimento? Deixe seu comentário, compartilhe suas dúvidas e vamos conversar!



