Quando eu li pela primeira vez a história do veterinário Luís Fernando Laranja Fonseca, confesso que fiquei meio cético. Um professor da USP, com carreira internacional, largando tudo para viver em Alta Floresta, no Mato Grosso, parece cena de filme. Mas a realidade que ele encontrou – a devastação da floresta para abrir pastagens – o fez mudar de vida e, mais importante, de pensamento.
Hoje, aos 58 anos, Fonseca divide seu tempo entre São Paulo e as fazendas que administra em Mato Grosso, Tocantins e Bahia. Ele lidera a Caaporã, uma holding que tem 20 mil hectares de pastagens regeneradas, e prova que a pecuária pode ser aliada da conservação, e não inimiga.
Por que a pecuária tradicional destrói a Amazônia?
A chamada pecuária extensiva espalha o gado em áreas enormes, com baixa produtividade – cerca de 0,73 animal por hectare. Para manter a produção, os produtores precisam abrir mais terra, o que significa desmatamento. O resultado: o Brasil, quinto maior emissor de metano do mundo, tem 98% das emissões do setor bovino vindas desse modelo.
O que muda na Caaporã?
O método de Fonseca começa com a recuperação de pastagens degradadas. Em vez de simplesmente plantar capim, ele mistura leguminosas como o amendoim forrageiro, que fixam nitrogênio no solo, diminuindo a necessidade de fertilizantes químicos. Árvores – tanto exóticas como eucalipto quanto nativas como o paricá – são semeadas entre o pasto, oferecendo sombra e reduzindo o estresse térmico dos animais.
Essas mudanças trazem dois benefícios claros:
- Ganho de peso mais rápido: o boi atinge o peso de abate em cerca de dois anos, a metade do tempo convencional.
- Menos metano: menos tempo de vida significa menos fermentação entérica, que é a principal fonte de CH₄ na pecuária.
Segundo Fonseca, cada quilo de carne produzida no modelo Caaporã gera cerca de 20 kg de CO₂ equivalente, contra 35 kg no sistema tradicional – uma redução de mais de 40%.
Impactos além do clima
A recuperação do solo também traz ganhos econômicos. Pastos mais produtivos permitem mais gado por hectare, reduzindo a necessidade de abrir novas áreas. Além disso, a sombra das árvores melhora a saúde dos animais, diminuindo custos com medicamentos.
Do ponto de vista ambiental, as áreas que deixam de ser desmatadas podem ser destinadas ao restauro florestal, ajudando o Brasil a cumprir a meta de recuperar 12 milhões de hectares de vegetação nativa estabelecida no Acordo de Paris.
Desafios para escalar o modelo
Apesar dos resultados, replicar a pecuária regenerativa não é simples. Primeiro, há a barreira de conhecimento: muitos produtores ainda não têm acesso a técnicas de manejo de solo, mistura de leguminosas e plantio de árvores. Segundo, o custo inicial de recuperação de áreas degradadas é alto, e linhas de crédito sustentáveis ainda são escassas ou burocráticas.
Por fim, existe o cultural. Muitos pecuaristas dizem “sei fazer, tenho dinheiro, mas não quero mudar”. A solução, segundo Fonseca, passa por incentivos econômicos claros – como a venda de créditos de carbono – que tornem o investimento rentável.
O papel dos grandes compradores
Empresas como a Minerva Foods já compram parte da produção da Caaporã, buscando fornecedores com baixa emissão de carbono. Essa demanda do mercado pode ser o gatilho para que mais produtores adotem práticas semelhantes, já que a certificação de baixo carbono está se tornando um requisito para exportação, principalmente para a União Europeia.
O futuro da carne bovina no Brasil
Projeções da OCDE e da FAO apontam um aumento de 10 % no consumo mundial de carne bovina até 2033. Se a produção continuar no modelo extensivo, o desmatamento da Amazônia pode acelerar ainda mais. As carnes cultivadas em laboratório ainda são caras e pouco conhecidas pelos consumidores; portanto, a mudança mais viável no curto prazo é melhorar a forma como criamos os bois hoje.
Para quem se preocupa com o meio ambiente, a história de Fonseca traz uma mensagem esperançosa: a pecuária não precisa ser sinônimo de destruição. Com ciência, investimento e vontade política, é possível transformar áreas degradadas em sistemas produtivos que preservam a floresta e reduzem gases de efeito estufa.
Se você tem curiosidade sobre como isso pode impactar o preço da carne na sua mesa, fique de olho nas certificações de carbono e nos rótulos que indicam produção sustentável. Cada escolha do consumidor ajuda a criar um mercado mais exigente, que, por sua vez, pressiona os produtores a adotarem práticas menos agressivas.



