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Davos: Von der Leyen defende a soberania da Groenlândia e alerta contra tarifas entre EUA e UE

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Davos: Von der Leyen defende a soberania da Groenlândia e alerta contra tarifas entre EUA e UE

Na manhã de terça‑feira (20), o Fórum Econômico Mundial, em Davos, foi palco de um discurso que, à primeira vista, parece distante da realidade do brasileiro comum. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von von der Leyen, falou sobre a soberania da Groenlândia, a possibilidade de tarifas americanas contra a UE e ainda destacou o novo acordo comercial com o Mercosul. Mas, se a gente parar para pensar, tem muita coisa ali que afeta o nosso dia a dia – seja na conta de luz, no preço dos alimentos ou nas oportunidades de emprego.



Por que a Groenlândia importa para o Brasil?

A Groenlândia, embora faça parte do Reino da Dinamarca, tem uma posição estratégica no Ártico. Suas reservas minerais, o acesso a rotas marítimas cada vez menos congeladas e o potencial de energia renovável (como a energia eólica offshore) chamam a atenção de grandes potências. Quando o ex‑presidente dos EUA, Donald Trump, ameaçou impor uma tarifa de 10 % a oito países europeus caso eles não deixem de bloquear sua proposta de compra da ilha, o assunto ganhou repercussão mundial.

Mas onde o brasileiro entra nessa história? Primeiro, porque o Ártico está cada vez mais conectado ao comércio global. Navios que antes tinham que contornar o Cabo da Boa Esperança agora podem atravessar o Passagem do Noroeste, encurtando rotas entre a Ásia e a Europa. Isso reduz custos de transporte, o que pode refletir nos preços dos produtos importados aqui no Brasil, como eletrônicos e alimentos.



Tarifas entre EUA e UE: um erro estratégico?

Von der Leyen foi clara ao chamar as possíveis tarifas americanas de “um erro, especialmente entre parceiros de longa data”. Ela reforçou que a estabilidade do Ártico depende da cooperação entre aliados históricos, e não de ações unilaterais. Na prática, isso significa que, se os EUA começarem a impor tarifas a produtos europeus, a cadeia de suprimentos global pode sofrer rupturas.

Para o consumidor brasileiro, isso pode se traduzir em aumentos de preço em itens que vêm da Europa – como vinhos, queijos, cosméticos e até alguns componentes de automóveis. Além disso, empresas brasileiras que exportam para a UE podem enfrentar barreiras adicionais se a disputa escalar.

Um ponto interessante que a presidente europeia destacou foi que “um acordo é um acordo”. Essa frase simples, que parece um clichê de negócios, tem peso político: quando países firmam acordos comerciais, eles criam expectativas de estabilidade que ajudam investidores a planejar a longo prazo. Se essa confiança for abalada, o fluxo de capitais pode diminuir, afetando investimentos estrangeiros diretos no Brasil.



O acordo UE‑Mercosul: por que isso importa?

Enquanto a discussão sobre a Groenlândia ganhava as manchetes, von der Leyen aproveitou a oportunidade para celebrar a assinatura do acordo de livre comércio entre a UE e o Mercosul, concluído após 25 anos de negociações. O pacto reúne 31 países, mais de 700 milhões de consumidores e cerca de 20 % do PIB global. Para nós, brasileiros, isso abre portas.

Entre os benefícios esperados, estão a redução de tarifas sobre produtos agrícolas brasileiros – como carne bovina, soja e café – que agora terão acesso facilitado ao mercado europeu. Isso pode aumentar a competitividade dos nossos produtores, gerar mais empregos no campo e, em teoria, melhorar a balança comercial.

Mas há também desafios. O acordo traz compromissos ambientais e de sustentabilidade alinhados ao Acordo de Paris. Isso significa que produtores que não cumprirem padrões de desmatamento ou de emissão de gases podem enfrentar barreiras não tarifárias. Para o pequeno agricultor, isso pode representar custos adicionais de certificação.

O que a tensão no Ártico tem a ver com a segurança energética brasileira?

O Ártico está se tornando um novo front de disputa por recursos energéticos. Se a Groenlândia for explorada para mineração ou energia, isso pode reduzir a dependência global de fontes tradicionais, como petróleo do Oriente Médio. Em um cenário de transição energética, isso pode abrir espaço para que o Brasil aumente sua participação no mercado de energia limpa, exportando tecnologia de energia solar e eólica.

Além disso, a cooperação entre a UE e os países do Atlântico Norte (como os EUA e a OTAN) pode gerar projetos conjuntos de pesquisa climática que incluam o Brasil, que tem expertise em biomas tropicais. Participar dessas iniciativas pode trazer investimento em ciência e tecnologia para o país.

Como o cidadão pode se posicionar?

Mesmo que o debate pareça distante, há formas de acompanhar e influenciar a discussão:

  • Fique atento às notícias internacionais. Entender o que acontece no Ártico ajuda a perceber como a geopolítica afeta a economia global.
  • Exija transparência nas negociações comerciais. O acordo UE‑Mercosul ainda está em fase de ratificação; a sociedade civil pode cobrar que ele seja implementado de forma justa para produtores locais.
  • Valorize produtos sustentáveis. Consumir alimentos e bens produzidos com responsabilidade ambiental fortalece a pressão por padrões mais rígidos nos acordos internacionais.
  • Participar de debates públicos. Quando o governo brasileiro se posiciona em fóruns como a ONU ou a OMC, a opinião pública pode influenciar a postura do país.

Olhar para o futuro

Se a tensão entre EUA e UE escalar, poderemos ver uma nova ordem comercial, onde blocos regionais buscam maior autonomia. Para o Brasil, isso pode ser uma oportunidade de se posicionar como ponte entre o hemisfério norte e o sul, oferecendo sua produção agrícola e tecnológica como ponto de conexão.

Ao mesmo tempo, a soberania da Groenlândia permanece “inegociável”, como disse von der Leyen. Isso reforça a ideia de que territórios estratégicos não podem ser tratados como simples peças de xadrez. A mensagem central do discurso em Davos foi clara: cooperação, não confronto, é o caminho para a estabilidade no Ártico – e, por extensão, para a estabilidade econômica global.

Em resumo, o que aconteceu em Davos tem reflexos que chegam até a nossa mesa de jantar, ao nosso bolso e às oportunidades de trabalho. Ficar de olho nesses movimentos é mais do que ser um “cidadão global”; é cuidar do futuro do Brasil.