Eu estava acompanhando a 56ª reunião do Fórum Econômico Mundial em Davos e, entre uma palestra sobre energia limpa e outra sobre tecnologia, ouvi um recado que parece ter gerado mais suspiros do que aplausos: o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, pediu calma à Europa diante das ameaças americanas sobre a Groenlândia.
Mas antes de mergulharmos nos detalhes, vale a pena lembrar por que a ilha ao norte do Canadá aparece nos holofotes internacionais. A Groenlândia, apesar de ser parte do Reino da Dinamarca, tem um posicionamento estratégico no Ártico, onde recursos naturais, rotas de navegação e questões de segurança estão cada vez mais em jogo. Desde a Guerra Fria, os Estados Unidos mantêm um interesse latente na região, e o ex‑presidente Donald Trump não poupou palavras ao dizer que a ilha seria “um grande negócio” para os EUA.
## O que Bessent realmente disse?
Durante uma coletiva de imprensa em Davos, Bessent foi direto ao ponto: “Acalmem-se. Respirem fundo. Não revidam.” Ele explicou que o presidente Trump enviaria uma mensagem oficial no dia seguinte e que, enquanto isso, os aliados deveriam manter a “mente aberta”. O tom foi de tentativa de conter a escalada, mas também carregou um aviso – as tarifas de 10 % que os EUA pretendem aplicar a oito países europeus a partir de fevereiro de 2026 são, segundo ele, “instrumentos de negociação”, não um ataque direto.
## Por que as tarifas?
* **Pressão econômica:** Historicamente, Washington tem usado tarifas para trazer países à mesa. O caso mais famoso foi a guerra comercial com a China, que acabou em acordos parciais.
* **Sinal de seriedade:** Ao colocar um custo imediato, os EUA mostram que não estão apenas brincando de diplomacia.
* **Desvio de atenção:** Em tempos de incerteza interna, uma política externa assertiva pode distrair o debate doméstico.
Bessent reforçou que os movimentos recentes nos mercados globais são reflexos de fatores locais, não da retórica sobre o Ártico. Essa frase serve tanto para acalmar investidores quanto para minimizar o medo de uma crise econômica mais ampla.
## NATO e o peso da defesa
A conversa não ficou restrita à Groenlândia. Quando questionado sobre a OTAN, Bessent lembrou que os EUA vêm arcando com uma parte desproporcional dos custos militares do bloco – cerca de US$ 22 trilhões a mais desde 1980, segundo ele. O recado foi claro: “Chegou o momento de os europeus contribuírem mais.”
Esse ponto toca duas fricções antigas:
1. **Diferença de gastos:** Países como Alemanha e França têm sido criticados por não atingirem a meta de 2 % do PIB em defesa.
2. **Percepção de dependência:** A Europa sente que, ao depender tanto dos EUA, perde autonomia em decisões estratégicas.
## O que isso significa para o leitor brasileiro?
Você pode estar se perguntando: “E eu, que moro no Brasil, como isso me afeta?”
– **Mercado de commodities:** O Ártico está na rota de futuros de petróleo e gás. Tensões ali podem influenciar preços globais, que repercutem nos combustíveis que usamos aqui.
– **Investimentos internacionais:** Empresas brasileiras que operam na Europa podem sentir o impacto de tarifas de 10 % em seus custos de importação ou exportação.
– **Segurança climática:** A Groenlândia é um termômetro do aquecimento global. Decisões políticas sobre a região podem acelerar ou frear projetos de energia limpa, afetando a transição energética que o Brasil também busca.
## A reação europeia
Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, foi rápida em defender a soberania dinamarquesa e classificar a ameaça de tarifas como “equivocada”. Líderes da França, Alemanha, Holanda e Finlândia também reforçaram seu apoio à posição da Dinamarca. O discurso europeu tem sido de união, mas há sinais de cansaço: a pressão para aumentar os gastos de defesa pode gerar debates internos sobre prioridades de orçamento.
## O caso Lisa Cook e o Fed
Em paralelo, Bessent abordou outro assunto delicado: a tentativa de Donald Trump de destituir Lisa Cook, diretora do Federal Reserve. Ele criticou a ideia de que o presidente do Fed, Jerome Powell, compareça a audiências da Suprema Corte para defender Cook, chamando isso de “erro grave”.
Essa disputa ilustra como a política interna dos EUA está cada vez mais entrelaçada com a política externa. Se o Fed for percebido como vulnerável a pressões políticas, a confiança nos mercados financeiros pode abalar, o que, por sua vez, afeta investidores brasileiros que têm participação em ativos americanos.
## Cenários possíveis
1. **Desescalada diplomática:** Trump envia a mensagem prometida, as tarifas são suspensas e a Europa mantém a calma. O comércio volta ao normal e a tensão no Ártico diminui.
2. **Escalada de tarifas:** Se as tarifas forem implementadas, empresas europeias podem buscar alternativas fora dos EUA, o que poderia abrir oportunidades para exportadores brasileiros.
3. **Reforma da OTAN:** Pressões de Washington podem levar a um aumento real nos gastos de defesa europeus, gerando novos contratos e oportunidades de negócios para a indústria de defesa, inclusive para empresas brasileiras que fornecem tecnologia.
## O que podemos fazer?
– **Acompanhar os preços dos combustíveis:** Qualquer mudança nas rotas árticas ou nas tarifas de energia pode refletir nos preços nas bombas.
– **Diversificar investimentos:** Se você tem parte da carteira em ações europeias, fique de olho nas reações do mercado a possíveis tarifas.
– **Ficar atento às políticas climáticas:** O futuro da Groenlândia está ligado ao gelo que derrete. Decisões sobre exploração de recursos podem mudar a agenda de energia limpa global, afetando projetos de energia renovável no Brasil.
## Conclusão
O recado de Scott Bessent em Davos pode parecer mais um discurso de diplomacia de alto nível, mas traz implicações reais para a economia global, a segurança internacional e até para o nosso bolso aqui no Brasil. Enquanto os EUA usam tarifas como ferramenta de negociação, a Europa tenta manter a união e a soberania da Groenlândia. No meio disso tudo, a OTAN, o Fed e as questões climáticas continuam a influenciar o cenário.
Para quem acompanha o mercado ou simplesmente quer entender como decisões tomadas em Davos podem chegar até a nossa porta de casa, o melhor caminho é ficar atento às notícias, analisar como elas afetam os indicadores econômicos e, claro, manter a mente aberta – exatamente como o secretário sugeriu.



