Eu estava acompanhando a 56ª reunião anual do Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, quando vi o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, subir ao palco e dizer: “Calma, respirem fundo, não revidam”. A frase parecia tirada de um filme de espionagem, mas o que ele estava realmente pedindo era que a Europa não respondesse de forma agressiva à ameaça de Donald Trump de assumir o controle da Groenlândia.
Para quem não acompanha a política internacional de perto, a situação pode soar como mais um desentendimento diplomático. Mas, na prática, esse papo tem impactos diretos no nosso dia a dia: tarifas, segurança, e até a forma como o dinheiro circula nos mercados globais.
O que está em jogo na Groenlândia?
A ilha, que pertence à Dinamarca, tem sido apontada por Trump como estratégica para a segurança dos EUA. Ele chegou a anunciar a aplicação de uma tarifa de 10% sobre produtos de oito países europeus, a partir de 1º de fevereiro de 2026. Não é só questão de soberania; a Groenlândia tem reservas de minerais raros, potencial para energia renovável e, claro, o acesso ao Ártico, que está se tornando cada vez mais importante para rotas comerciais.
Por que Bessent pediu calma?
O secretário do Tesouro tem duas missões principais: proteger a economia americana e garantir que as relações comerciais internacionais não se quebrem. Quando ele fala em “não revidam”, está tentando evitar que uma guerra tarifária se transforme em um conflito maior, que poderia afetar os mercados financeiros, as cadeias de suprimentos e, no fim das contas, o bolso do consumidor.
Ele também ressaltou que as tarifas são, na visão de Washington, um “instrumento de negociação” e não um ataque direto. Em outras palavras, a ideia é colocar a Europa à mesa para discutir questões estratégicas, como a presença militar no Ártico e os investimentos em energia limpa.
Impactos práticos para o Brasil
Você pode estar se perguntando: “E eu, que moro no Brasil, como isso me afeta?” A resposta está nos efeitos colaterais das tensões entre as duas maiores economias do mundo:
- Preço dos combustíveis: se as tarifas aumentarem, os custos de transporte marítimo podem subir, refletindo nos preços dos combustíveis importados.
- Mercado de commodities: o Ártico está cada vez mais aberto ao comércio. Qualquer mudança na dinâmica de exploração pode alterar a demanda por minérios que o Brasil exporta.
- Investimentos estrangeiros: instabilidade política pode fazer investidores hesitarem em colocar dinheiro em mercados emergentes, incluindo o nosso.
Portanto, ficar de olho nas declarações de Bessent não é só para quem segue política internacional; é uma forma de entender possíveis oscilações na nossa economia.
O papel da OTAN e o custo da defesa
Bessent também aproveitou a coletiva para criticar os baixos gastos europeus com defesa. Ele lembrou que, desde 1980, os EUA já investiram cerca de US$ 22 trilhões a mais que os demais países da OTAN somados. Essa disparidade gera ressentimento e pode levar a pressões para que a Europa aumente sua contribuição.
Se a Europa decidir investir mais em defesa, parte desse dinheiro pode ser direcionada para projetos de energia limpa e infraestrutura, o que abre oportunidades para empresas brasileiras de tecnologia e energia renovável.
O caso Lisa Cook e a politização do Federal Reserve
Outro ponto que Bessent tocou foi a tentativa de Donald Trump de demitir Lisa Cook, diretora do Federal Reserve. O secretário considerou um erro que o presidente do Fed, Jerome Powell, compareça às audiências da Suprema Corte sobre o assunto. Essa disputa evidencia como a política interna dos EUA pode gerar incertezas nos mercados globais.
Quando há dúvidas sobre a independência do Fed, a taxa de juros dos EUA pode mudar de forma inesperada, afetando o câmbio do real e os fluxos de capital. Para quem tem investimentos em dólar ou pensa em comprar imóveis no exterior, entender esses movimentos é essencial.
O que esperar nos próximos meses?
O que eu vejo como provável cenário:
- Diálogo aberto: apesar das ameaças, é provável que os EUA e a UE busquem uma solução negociada, evitando um choque tarifário.
- Pressão por maior gasto europeu em defesa: Bessent pode continuar a usar a retórica de “pagamento justo” para incentivar a Europa a investir mais.
- Monitoramento do mercado: investidores vão ficar de olho nas reações dos mercados de commodities e nas variações cambiais.
Para nós, brasileiros, a melhor estratégia é diversificar investimentos, ficar atento às notícias de política externa e, claro, não deixar o medo dominar as decisões financeiras.
Como você pode se preparar?
- Reavalie a carteira de investimentos: inclua ativos que não dependam exclusivamente do dólar.
- Considere produtos de renda fixa atrelados ao IPCA, que protegem contra a inflação local.
- Fique de olho nas notícias sobre a Groenlândia e nas declarações de líderes como Bessent e von der Leyen.
Em resumo, o que parece ser apenas mais um discurso em Davos pode ter reflexos concretos no seu bolso. A mensagem de calma de Scott Bessent, embora simples, traz à tona questões complexas que merecem nossa atenção.



