A notícia de que Cuba vai suspender o fornecimento de querosene para aviões chegou como um balde de água fria para quem ainda sonha em visitar Havana. Mas, além do impacto nos viajantes, a medida revela muito sobre a crise energética que o país enfrenta e as tensões geopolíticas que giram em torno da ilha.
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### Por que o querosene foi cortado?
Em 10 de outubro, as autoridades cubanas anunciaram que, a partir da meia‑noite local, não haverá mais abastecimento de Jet Fuel nos aeroportos. A decisão foi tomada porque o estoque de combustível está praticamente esgotado. A escassez vem depois que a Venezuela, principal fornecedora de petróleo para Cuba, interrompeu as entregas sob pressão dos Estados Unidos. Desde então, o governo cubano tem que racionar tudo que consome energia – desde ônibus até geradores de hospitais.
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### Como isso afeta os voos internacionais?
A suspensão não significa que todos os voos vão parar. As companhias que operam rotas de longa distância – como Air France, Iberia ou American Airlines – terão que fazer uma “escala técnica” em outro país do Caribe para reabastecer. Em termos práticos, isso pode acrescentar de 2 a 6 horas ao tempo total de viagem, dependendo do ponto de parada. Os voos regionais, que ligam Havana a cidades como Varadero ou Santiago de Cuba, continuam operando normalmente, pois usam menos combustível e podem contar com reservas menores.
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### O que está por trás da crise energética?
A situação tem raízes políticas e econômicas:
– **Fim do apoio venezuelano:** A Venezuela, que já está em crise, parou de enviar petróleo a Havana depois que o presidente Nicolás Maduro foi capturado em janeiro e os EUA impuseram sanções.
– **Sanções americanas:** Washington recentemente aprovou um decreto que permite aplicar tarifas a países que vendam petróleo a Cuba, alegando questões de segurança nacional.
– **Dependência de importações:** O México tem sido um fornecedor alternativo, mas também está sob pressão para cortar o fornecimento.
– **Medidas de racionamento interno:** O governo cubano já anunciou semana de quatro dias, redução de serviços de ônibus e trens, aulas mais curtas nas escolas e ensino semipresencial nas universidades.
Essas ações visam economizar combustível para priorizar a produção de alimentos e a geração de eletricidade – setores críticos para manter a ilha funcionando.
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### O que isso muda para quem pensa em viajar para Cuba?
Se você estava planejando uma viagem de férias, aqui vão alguns conselhos práticos:
1. **Verifique a rota da sua companhia aérea.** Muitas já anunciaram escalas técnicas em destinos como Punta Cana ou República Dominicana.
2. **Esteja preparado para atrasos.** A logística de reabastecimento pode gerar mudanças de horário de última hora.
3. **Considere voos regionais.** Se seu objetivo é apenas conhecer Havana, talvez seja mais fácil voar de um país próximo (por exemplo, México ou Panamá) e depois pegar um voo interno.
4. **Tenha um plano B.** Caso o voo seja cancelado, verifique políticas de reembolso ou remarcação da sua passagem.
A realidade é que, enquanto a crise não for resolvida, a aviação comercial continuará a sofrer interrupções. Isso pode, paradoxalmente, tornar a ilha menos lotada – algo que alguns viajantes podem encarar como um ponto positivo.
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### Implicações econômicas para Cuba
O turismo é uma das principais fontes de divisas para a economia cubana, representando cerca de 10% do PIB. Cada voo cancelado ou atrasado significa menos turistas, menos dólares e menos recursos para comprar alimentos e remédios. O governo tem tentado compensar a perda de receitas com medidas como a extensão da semana de trabalho e o aumento de tarifas de energia para as indústrias.
Além disso, a falta de combustível afeta a produção de energia elétrica. Em períodos de pico, os apagões podem se tornar mais frequentes, prejudicando tanto residências quanto fábricas. A combinação de menos turistas e menos energia cria um círculo vicioso que pode aprofundar ainda mais a recessão.
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### O papel da Rússia e o cenário geopolítico
Não podemos falar da crise cubana sem mencionar a reação do Kremlin. O porta‑voz Dmitri Peskov acusou os EUA de usar “métodos asfixiantes” contra a ilha. A Rússia, tradicional aliada de Havana, está em contato diplomático para avaliar formas de assistência – seja com fornecimento de combustível, seja com apoio financeiro.
Essa disputa coloca Cuba no meio de um tabuleiro geopolítico onde os EUA, Rússia e até a China têm interesses estratégicos. Para os cubanos, a consequência mais imediata é a sensação de estar sendo usada como peão em um jogo maior, o que alimenta o descontentamento popular.
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### Olhando para o futuro
O que pode mudar o quadro?
– **Reinício das entregas venezuelanas:** Se a Venezuela conseguir estabilizar sua produção e superar as sanções, pode retomar o envio de petróleo a Cuba.
– **Acordos com outros fornecedores:** O México ou países do Oriente Médio poderiam assumir como novos parceiros, mas enfrentariam pressões semelhantes dos EUA.
– **Investimentos em energia renovável:** Cuba tem potencial para energia solar e eólica. Um plano de longo prazo poderia reduzir a dependência de combustíveis fósseis.
– **Desenvolvimento de infraestrutura aeroportuária:** Modernizar os tanques de armazenamento e diversificar as fontes de combustível poderia tornar o setor mais resiliente.
Enquanto isso, a população cubana segue lidando com racionamentos, filas para gasolina e apagões. Para quem está fora, a lição é que viajar para a ilha agora exige flexibilidade, paciência e, sobretudo, compreensão da complexidade que está por trás de cada voo cancelado.
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Em resumo, a suspensão do querosene não é apenas um detalhe logístico; é um sintoma de uma crise maior que envolve política, economia e geopolítica. Se você está planejando visitar Cuba, prepare‑se para possíveis mudanças de itinerário e esteja atento às notícias. E, se você acompanha de perto a situação internacional, vale a pena observar como esse impasse energético pode reverberar em outras regiões do Caribe e até influenciar as relações entre grandes potências.
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