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Cuba abre as portas: o que a nova política de investimentos estrangeiros pode mudar para o país e para quem quer investir

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Cuba abre as portas: o que a nova política de investimentos estrangeiros pode mudar para o país e para quem quer investir

Quando ouvi falar pela primeira vez que Cuba, a ilha conhecida por seu regime socialista e pelo bloqueio econômico dos EUA, decidiu abrir ainda mais a sua economia ao capital estrangeiro, confesso que fiquei meio cético. Afinal, abrir fronteiras econômicas não é coisa simples, ainda mais em um contexto de crise profunda, apagões frequentes e escassez de alimentos. Mas, ao acompanhar as declarações do ministro do Comércio Exterior, Oscar Pérez‑Oliva, na Feira Internacional de Havana, percebi que há mais nuances por trás desse movimento do que parece à primeira vista.

O pano de fundo: crise que não dá trégua

Para entender por que Cuba está mudando de postura, é preciso lembrar que a ilha vem enfrentando uma crise econômica que se arrasta há anos. Dois fatores principais aceleraram o colapso:

  • O colapso do turismo após a pandemia de Covid‑19, que tirou uma das principais fontes de divisas estrangeiras do país.
  • O embargo dos Estados Unidos, que restringe não só o comércio, mas também o acesso a financiamento internacional e tecnologia avançada.

Com a combinação desses fatores, a infraestrutura pública começou a ceder: apagões que duram horas, falta de peças para usinas termelétricas e a necessidade de importar quase tudo que se come e se queima. Em meio a esse cenário, o governo cubano tem buscado alternativas para gerar dólares – ou, como eles preferem chamar, “divisas estrangeiras”.

Do “dolarizar” à “abrir” a economia

Nos últimos anos, Cuba já havia iniciado um processo de “dolarização” parcial: lojas, postos de combustível e até algumas empresas estatais passaram a aceitar dólares (ou euros) ao lado da moeda local, o peso cubano. Essa medida foi vista como um alívio imediato, mas também como um sinal de que o modelo centralizado precisava de ajustes.

Agora, o que o ministro Pérez‑Oliva anunciou vai além de aceitar dólares em mais lugares. Ele revelou um pacote de medidas que pretende:

  • Facilitar a aprovação de projetos estrangeiros, reduzindo a burocracia.
  • Permitir que investidores assumam fábricas, usinas ou hotéis subutilizados, operem por um período acordado e, ao final, devolvam o ativo ao Estado.
  • Flexibilizar a contratação de mão‑de‑obra, permitindo que empresas estrangeiras paguem salários em dólares e não apenas via a agência estatal de emprego.
  • Introduzir um novo instrumento de financiamento que ainda não foi detalhado, mas que deve atrair capital de bancos e fundos internacionais.

Essas mudanças são vistas como “paradigmáticas” porque tocam em pontos que antes eram praticamente imutáveis: controle estatal sobre o emprego, acesso limitado ao mercado financeiro e processos de aprovação lentos.

O que isso significa na prática para investidores

Se você está pensando em investir em Cuba, aqui vão alguns pontos que podem mudar seu cálculo de risco/retorno:

  1. Setores com potencial imediato: alimentos e combustíveis são as duas maiores importações cubanas. Projetos que aumentem a produção local – como a plantação de arroz por uma empresa vietnamita em Pinar del Río – podem ter apoio governamental e, possivelmente, incentivos fiscais.
  2. Zona Especial de Desenvolvimento de Mariel: criada em 2013, essa zona oferece benefícios alfandegários e tributários. Empresas que já operam lá, como a alemã Pamas, relatam que as novas regras vão simplificar ainda mais a vida delas.
  3. Setor hoteleiro: o governo está testando arrendamentos de hotéis para redes internacionais, permitindo maior liberdade operacional. Isso pode abrir espaço para marcas globais que queiram se posicionar num destino turístico emergente.
  4. Banco e finanças: a abertura do setor bancário ao capital estrangeiro pode gerar oportunidades para fintechs e bancos que queiram oferecer serviços de câmbio, crédito ou pagamentos digitais em um mercado ainda pouco explorado.

Mas, claro, o risco permanece alto. O embargo dos EUA ainda impede que muitas empresas americanas invistam diretamente, e as sanções secundárias podem alcançar parceiros de terceiros. Além disso, a instabilidade da rede elétrica e a escassez de insumos podem afetar a operação diária de qualquer negócio.

O ponto de vista dos especialistas cubanos

O economista Omar Everleny Pérez Villanueva, da Universidade de Havana, elogia a velocidade dos novos processos de aprovação, chamando‑os de “passo na direção certa”. Ele destaca que, sem acesso a empréstimos internacionais devido ao alto endividamento público, os investimentos estrangeiros são praticamente a única porta de entrada de capital.

No entanto, Villanueva também alerta que as medidas ainda são insuficientes se não forem acompanhadas de:

  • Uma política mais clara sobre proteção jurídica para investidores.
  • Redução efetiva das barreiras impostas pelo embargo, talvez por meio de acordos multilaterais.
  • Reformas no mercado de trabalho, como a abolição total da agência estatal de emprego, que ainda limita a flexibilidade de contratação.

Essas críticas são importantes porque mostram que, apesar da boa vontade do governo cubano, o ambiente de negócios ainda tem lacunas que podem assustar investidores mais conservadores.

O que isso pode mudar no cotidiano dos cubanos

Para quem vive em Cuba, a abertura econômica pode trazer benefícios concretos:

  • Mais empregos: a possibilidade de contratar diretamente pode acelerar a criação de vagas, especialmente em setores como turismo, construção e agroindústria.
  • Produtos mais baratos e diversificados: com investimentos estrangeiros, há potencial para que produtos importados – como alimentos processados ou equipamentos eletrônicos – cheguem a preços mais acessíveis.
  • Melhoria na infraestrutura: empresas estrangeiras podem investir em energia renovável ou modernizar a rede elétrica, reduzindo a frequência dos apagões.

Mas há também o risco de que os benefícios se concentrem nas áreas onde os investidores têm mais interesse, deixando regiões mais afastadas ainda vulneráveis. O sucesso do modelo de arrendamento de hotéis, por exemplo, dependerá de como o governo garantirá que parte dos lucros seja reinvestida em serviços públicos.

Perspectivas para o futuro

Se tudo correr como o governo espera, nos próximos cinco a dez anos poderemos ver Cuba transformando alguns de seus setores mais estagnados. A experiência da empresa vietnamita pode ser replicada em outras regiões, criando um “circuito verde” de produção agrícola que reduz a dependência de importações.

Por outro lado, a realidade internacional – especialmente a postura dos EUA – continuará sendo um fator decisivo. Qualquer escalada nas sanções pode desfazer rapidamente os avanços conquistados.

Para nós, leitores que acompanham tendências de investimento emergente, Cuba representa um caso de estudo fascinante: um país que tenta equilibrar ideologia, necessidade econômica e pressão externa. Se você tem interesse em mercados de risco, vale a pena monitorar de perto as próximas decisões do governo cubano, os detalhes do novo instrumento de financiamento e, claro, os resultados dos projetos-piloto que já estão em andamento.

Em resumo, a abertura da economia cubana não é um “milagre” que vai resolver todos os problemas de uma noite para o outro, mas pode ser o ponto de partida para uma série de reformas que, se bem executadas, trarão mais oportunidades – tanto para investidores estrangeiros quanto para a população local.