Nos últimos dias, a notícia de que Cuba está dando um passo decisivo para abrir sua economia ao capital estrangeiro tem circulado nos círculos de negócios e nas discussões de política internacional. O anúncio veio do ministro do Comércio Exterior e Investimento Estrangeiro, Oscar Pérez‑Oliva, durante a Feira Internacional de Havana, e trouxe um pacote de medidas que promete simplificar processos, flexibilizar regras trabalhistas e até criar novos instrumentos de financiamento. Mas, afinal, o que tudo isso significa para o cotidiano dos cubanos, para os investidores e, quem sabe, até para nós, que acompanhamos a situação da ilha de perto?
Por que Cuba precisa urgentemente de capital externo?
A crise econômica que o país enfrenta não é novidade. A pandemia de Covid‑19 acabou com quase todo o fluxo turístico, que antes respondia por cerca de 40% do PIB cubano. Ao mesmo tempo, o embargo econômico dos Estados Unidos, que perdura há mais de seis décadas, restringe o acesso a crédito internacional, tecnologia e mercados. O resultado? apagões frequentes, falta de alimentos, combustível escasso e uma infraestrutura pública que está se deteriorando rapidamente.
Para tentar contornar a escassez de divisas, Cuba tem “dolarizado” gradualmente setores como varejo, postos de combustível e turismo. Essa estratégia, porém, ainda é limitada: a maior parte das transações ainda ocorre em pesos cubanos, que têm valor muito inferior ao dólar. Assim, a necessidade de atrair investimentos estrangeiros se torna quase inevitável.
O que mudou no pacote anunciado?
O ministro Pérez‑Oliva descreveu as novidades como um “passo paradigmático”. Em linhas gerais, as mudanças podem ser agrupadas em três frentes:
- Desburocratização dos processos de aprovação: prazos menores, menos exigências documentais e maior transparência.
- Flexibilização da contratação de mão‑de‑obra: empresas estrangeiras poderão contratar diretamente trabalhadores, ao invés de depender exclusivamente da agência estatal de emprego, embora a agência continue existindo como opção.
- Novos instrumentos financeiros: abertura do setor bancário ao capital externo e um ainda não detalhado mecanismo de financiamento que deve facilitar a entrada de recursos.
Além disso, alguns bens e serviços passarão a exigir pagamento em moeda estrangeira, o que, na prática, pode acelerar a entrada de dólares na economia cubana.
Como isso afeta os investidores?
Para quem pensa em investir na ilha, as novidades trazem alguns sinais positivos:
- Processos mais rápidos: menos tempo esperando aprovações significa menor risco de oportunidade perdida.
- Maior autonomia financeira: a possibilidade de operar em dólares e a abertura do sistema bancário facilitam a gestão de fluxo de caixa.
- Modelos de parceria já testados: projetos piloto, como a fazenda de arroz vietnamita em Pinar del Río e o arrendamento de hotéis para redes internacionais, mostram que o modelo de concessão temporária de ativos pode funcionar.
Entretanto, o cenário ainda tem obstáculos. As sanções dos EUA continuam a limitar o acesso a tecnologias críticas e a criar incertezas jurídicas. Além disso, a necessidade de garantir que os lucros sejam repatriados ao Estado cubano pode gerar discussões sobre repatriação de capital e proteção de investimentos.
Impactos para a população cubana
Do ponto de vista dos cidadãos, a abertura econômica pode trazer benefícios concretos, mas também riscos. Entre os potenciais efeitos positivos, podemos citar:
- Mais empregos: a contratação direta por empresas estrangeiras pode gerar vagas com salários mais competitivos.
- Melhor qualidade de produtos e serviços: a entrada de tecnologias e know‑how estrangeiro pode elevar o padrão de bens de consumo e serviços, como energia e telecomunicações.
- Redução da dependência de importações: projetos agrícolas e industriais podem aumentar a produção interna de alimentos e combustíveis.
Por outro lado, há temores de que a maior presença de dólares e a “dolarização” de setores essenciais possam ampliar a desigualdade, criando bolsões de prosperidade para quem tem acesso ao mercado informal ou a remessas externas, enquanto a maioria continua a viver com os pesos cubanos, que perdem valor continuamente.
Desafios ainda não resolvidos
Mesmo com as mudanças anunciadas, especialistas como Omar Everleny Pérez Villanueva, da Universidade de Havana, apontam que ainda há muito a ser feito:
- Infraestrutura energética: a rede elétrica obsoleta e a dependência de combustíveis importados são gargalos que limitam a produtividade.
- Ambiente jurídico estável: investidores precisam de garantias claras de que contratos serão respeitados, mesmo diante de possíveis mudanças políticas.
- Sanções americanas: enquanto o embargo não for aliviado, o risco de penalidades para empresas que operam na ilha permanece alto.
Além disso, a questão da agência estatal de emprego ainda gera dúvidas. Embora a flexibilização seja um avanço, a existência de duas vias de contratação pode gerar conflitos e burocracia adicional se não houver uma integração clara.
O que podemos esperar nos próximos anos?
Se tudo correr como o governo cubano espera, poderemos observar um cenário de crescimento gradual, mas consistente, impulsionado por investimentos em setores estratégicos como agricultura, energia renovável e turismo de alto padrão. A experiência de países que adotaram zonas econômicas especiais – como a Zona Especial de Desenvolvimento de Mariel – indica que, com regras claras e incentivos fiscais, a atração de capital pode ser significativa.
No entanto, a realidade pode ser mais complexa. A dependência de capital externo pode tornar a economia vulnerável a choques externos, como variações cambiais ou novas sanções. Por isso, a estratégia cubana precisará equilibrar a abertura com políticas de fortalecimento interno, como desenvolvimento de capacidades locais e diversificação da base produtiva.
Conclusão: um futuro incerto, mas cheio de possibilidades
Em resumo, a decisão de Cuba de abrir sua economia ao capital estrangeiro representa, ao menos, um reconhecimento de que o modelo centralizado e autossuficiente já não sustenta o país. As medidas anunciadas trazem esperança de que, nos próximos anos, a ilha possa melhorar sua infraestrutura, gerar empregos e reduzir a dependência de importações.
Para os investidores, a mensagem é clara: há oportunidades, mas também riscos. Avaliar bem o cenário político‑econômico, entender as nuances das sanções e buscar parceiros locais confiáveis serão passos essenciais.
Para os cubanos, a mudança pode significar mais opções de consumo, melhores salários e, quem sabe, um futuro menos marcado por apagões e filas para alimentos. Mas tudo depende de como o governo conseguirá equilibrar a abertura com a proteção social e a soberania econômica.
O que você acha dessa nova fase de Cuba? Será que a ilha conseguirá transformar a crise em oportunidade ou ainda está presa a um futuro de incertezas? Compartilhe sua opinião nos comentários – a discussão está apenas começando.



