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Cuba abre as portas: o que a nova política de investimento estrangeiro significa para o futuro da ilha

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Cuba abre as portas: o que a nova política de investimento estrangeiro significa para o futuro da ilha

Um novo capítulo na história econômica cubana

Na última feira internacional de Havana, o ministro do Comércio Exterior, Oscar Pérez‑Oliva, anunciou um pacote de medidas que promete mudar radicalmente a forma como o capital estrangeiro pode operar em Cuba. Para quem acompanha a situação da ilha há anos, a notícia chega como um sopro de ar fresco em meio a uma crise que já dura mais de uma década.

Por que a mudança agora?

Desde a pandemia de Covid‑19, o turismo – que antes respondia por quase 40% do PIB cubano – despencou. Ao mesmo tempo, o embargo dos Estados Unidos continua a apertar os fios da economia: dificuldades para acessar mercados financeiros, bloqueios a transações em dólares e restrições à importação de tecnologia. O resultado? apagões frequentes, escassez de alimentos e combustível, e uma população que vive com a sensação de que o futuro está cada vez mais incerto.

O que está no pacote de medidas?

Sem entrar em detalhes técnicos, o ministro destacou três pilares principais:

  • Desburocratização dos processos de aprovação: prazos menores e menos exigências documentais para que empresas estrangeiras consigam iniciar suas operações.
  • Flexibilidade na contratação de mão‑de‑obra: as empresas poderão contratar diretamente trabalhadores cubanos, pagando bônus em dólares, sem depender exclusivamente da agência estatal de emprego.
  • Pagamento em moeda estrangeira para certos bens e serviços: a tendência de “dolarização” da economia será acelerada, facilitando a entrada de divisas.

Essas mudanças são apresentadas como um esforço para tornar os investimentos mais “dinâmicos e confiáveis”, segundo Pérez‑Oliva.

Um panorama histórico: o que já foi tentado

A abertura ao capital estrangeiro não é novidade. Em 2013, a zona especial de desenvolvimento de Mariel, nos arredores de Havana, recebeu incentivos alfandegários e tributários para atrair empresas. No ano seguinte, uma nova lei de investimento foi aprovada. No entanto, os resultados foram aquém do esperado: processos lentos, burocracia pesada e, sobretudo, o endurecimento das sanções americanas impediram que projetos de grande escala fossem concluídos.

Exemplos práticos que já estão em andamento

Alguns projetos piloto já mostram como a nova estratégia pode funcionar na prática:

  • Agricultura vietnamita em Pinar del Río: uma empresa do Vietnã está cultivando arroz em terras cedidas pelo Estado. Se o experimento for bem‑sucedido, a ideia é replicá‑lo em outras províncias, reduzindo a dependência de importações de alimentos.
  • Arrendamento de hotéis para redes internacionais: hotéis cubanos podem ser geridos por marcas estrangeiras, que terão maior autonomia operacional e, em troca, investirão na modernização das instalações.
  • Setor bancário aberto: embora ainda em fase inicial, o governo pretende permitir que bancos estrangeiros participem do mercado cubano, oferecendo novos instrumentos de financiamento.

O que isso significa para o cidadão cubano?

Para quem vive em Havana ou nas províncias, a expectativa é que a abertura traga mais empregos, melhores salários e produtos de qualidade. Se as empresas estrangeiras puderem contratar diretamente, os trabalhadores podem negociar salários em dólares ou receber bônus, algo que até agora era raro. Além disso, a modernização de hotéis e a expansão da agricultura podem gerar oportunidades nas áreas de turismo, logística e tecnologia.

Entretanto, há cautela. O economista Omar Everleny Pérez Villanueva, da Universidade de Havana, aponta que, embora as reformas mostrem “vontade política”, elas ainda são insuficientes diante da magnitude da crise. O país ainda depende de importações de combustíveis e alimentos, e o endividamento público permanece alto, o que limita a capacidade de atrair grandes investidores.

Desafios que ainda pairam sobre o horizonte

Mesmo com as facilidades anunciadas, investidores estrangeiros ainda encaram dois grandes obstáculos:

  • Sanções dos EUA: o embargo continua a impedir transações em dólares e a bloquear empresas que operam em setores estratégicos.
  • Incerteza jurídica: a falta de clareza sobre quando as novas regras entrarão em vigor pode gerar dúvidas sobre a estabilidade dos contratos.

Além disso, a flexibilização da agência estatal de emprego ainda deixa dúvidas sobre como será a fiscalização dos salários e das condições de trabalho. A promessa de pagamento em dólares pode gerar disparidades salariais entre quem tem acesso a empregos estrangeiros e quem permanece no setor público tradicional.

Perspectivas de futuro: o que esperar nos próximos anos

Se tudo correr como o governo espera, podemos imaginar três cenários possíveis:

  1. Reforma gradual e sustentável: investimentos estrangeiros chegam de forma controlada, gerando empregos e modernizando setores estratégicos sem comprometer a soberania econômica.
  2. Rebote de sanções: caso os EUA endureçam ainda mais as restrições, a Cuba pode se ver isolada novamente, forçando o país a buscar parceiros na Ásia ou na Europa, o que pode mudar o perfil dos investidores.
  3. Estagnação: se as reformas não forem acompanhadas de estabilidade política e jurídica, os investidores podem desistir, mantendo a ilha presa a um modelo econômico cada vez mais inviável.

Para nós, leitores que acompanham a situação latino‑americana, a abertura cubana representa um experimento em tempo real: será que um regime socialista pode se adaptar ao capitalismo de mercado sem perder sua identidade? A resposta ainda está por vir, mas cada passo conta.

Como acompanhar de perto

Se você tem interesse em entender melhor as implicações dessas mudanças, aqui vão algumas dicas práticas:

  • Assine newsletters de economia internacional que cobrem a América Latina.
  • Acompanhe relatórios de organizações como a CEPAL e o Banco Interamericano de Desenvolvimento, que costumam analisar os impactos das reformas cubanas.
  • Fique de olho nas declarações de empresas que já operam na zona de Mariel – elas costumam divulgar resultados e desafios que ajudam a entender o clima de negócios.
  • Use redes sociais para seguir jornalistas que cobrem Havana em tempo real – muitas vezes, eles trazem relatos de moradores sobre como as mudanças afetam o dia a dia.

Em resumo, a abertura ao capital estrangeiro pode ser o ponto de virada que Cuba tanto precisa, mas o sucesso dependerá de como o governo equilibrará flexibilidade, soberania e a pressão externa. Enquanto isso, nós continuaremos acompanhando cada detalhe, porque a história de um país pequeno pode ensinar lições valiosas para toda a região.