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Correios: Por que o aumento tímido nas receitas não basta para salvar a estatal

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Correios: Por que o aumento tímido nas receitas não basta para salvar a estatal

Os Correios são parte da rotina de quase todo brasileiro: a carta que chega, a encomenda que esperamos na porta, o aviso de pagamento que recebemos por mensagem. Mas, por trás desse serviço que parece tão simples, a empresa estatal tem enfrentado uma crise profunda nos últimos três anos. Mesmo com prejuízos que somam bilhões, a última demonstração financeira trouxe um dado que chama atenção: um pequeno aumento nas receitas de encomendas e mensagens, o maior desde 2022.



Esse crescimento, porém, é quase insignificante quando comparado ao tamanho do rombo. No terceiro trimestre de 2025, os Correios registraram um prejuízo de R$ 6 bilhões, quase três vezes maior que o de 2024 (R$ 2,1 bilhões). As receitas de encomendas chegaram a R$ 7,2 bilhões e as de mensagens a R$ 3,6 bilhões – números que, à primeira vista, parecem positivos, mas que ainda não conseguem cobrir as despesas operacionais.



Para entender o que está acontecendo, é preciso olhar para alguns fatores que pesam no balanço da empresa:

  • Programa “Remessa Conforme”: criado pelo Ministério da Fazenda em 2023, ele impôs uma taxa de 20% sobre importações de até US$ 50, antes isentas. Isso tirou uma parte importante da receita de envios internacionais, que caíram quase R$ 2 bilhões, passando para R$ 1,1 bilhão.
  • Perda de participação de mercado: entre 2019 e 2025, a fatia das encomendas dos Correios caiu de 51% para 22%. A concorrência de transportadoras privadas, que agora podem fazer o frete direto, acabou tirando volume da estatal.
  • Custos fixos elevados: a rede ainda conta com cerca de 5 mil agências e um quadro de funcionários que, embora esteja sendo reduzido, ainda representa uma parcela significativa das despesas.

Mesmo assim, há alguns segmentos que mostraram crescimento. O grupo de produtos classificados como “outros” – que inclui logística, marketing, venda de chips, entre outros – subiu 13,8% (R$ 117 milhões). As encomendas cresceram R$ 107 milhões e as mensagens R$ 58 milhões. Esses números são bons, mas juntos representam apenas 7,5% do total de receita.



Então, qual é a estratégia dos Correios para virar o jogo? O presidente Emmanoel Rondon apresentou um plano de reestruturação que envolve três frentes principais:

  1. Captação de recursos: a empresa busca mais R$ 8 bilhões para manter as operações, seja via aporte do Tesouro ou novo empréstimo. Já foi contratado um empréstimo de R$ 12 bilhões para quitar dívidas, mas a proposta inicial de R$ 20 bilhões foi rejeitada por causa das altas taxas de juros.
  2. Redução de custos: o plano inclui cortar R$ 2 bilhões em gastos com pessoal, vender R$ 1,5 bilhão em imóveis não operacionais, fechar mil agências deficitárias e reformular o plano de saúde, economizando R$ 500 milhões por ano. O Programa de Demissão Voluntária (PDV) deve reduzir em 15 mil o número de funcionários nos próximos dois anos, o que equivale a 18% da folha.
  3. Investimento em modernização: a meta é alcançar R$ 21 bilhões em receita até 2027, investindo R$ 4,4 bilhões entre 2027 e 2030 em automação, renovação da frota, TI e descarbonização, com financiamento do Novo Banco de Desenvolvimento dos BRICS.

Essas medidas são ambiciosas, mas trazem dúvidas práticas. Por exemplo, fechar mil agências pode melhorar a conta, mas também pode afastar clientes que vivem em áreas remotas, onde os Correios ainda são a única opção de entrega. O PDV, embora menos doloroso que demissões massivas, pode gerar insegurança entre os funcionários que permanecem, afetando a produtividade.

Além disso, a dependência de recursos públicos para cobrir déficits cria um ciclo de vulnerabilidade: se o governo não aprovar novos aportes ou empréstimos, a empresa pode ficar sem caixa para investir em tecnologia, o que por sua vez diminui a competitividade e aumenta ainda mais os prejuízos.

Mas nem tudo está perdido. A crescente demanda por entregas rápidas, impulsionada pelo e‑commerce, ainda oferece uma oportunidade. Se os Correios conseguirem melhorar a eficiência logística, integrar melhor seus serviços digitais (como mensagens e rastreamento) e oferecer preços competitivos, podem reconquistar parte do mercado que foi perdido para a concorrência.

Para quem usa os Correios no dia a dia, o que isso significa? Primeiro, pode haver mudanças nos prazos de entrega e no número de agências disponíveis. Segundo, é provável que a empresa passe a cobrar mais por serviços que antes eram subsidiados, como envios internacionais de baixo valor. Por fim, a modernização pode trazer mais transparência: rastreamento em tempo real, notificações por app e opções de entrega flexíveis.

Em resumo, o aumento tímido nas receitas é um sinal de que ainda há demanda pelos serviços dos Correios, mas não basta para compensar a magnitude dos prejuízos acumulados. O sucesso do plano de reestruturação vai depender da capacidade da empresa de equilibrar corte de custos, atração de novos recursos e investimento em tecnologia, sem perder a confiança dos clientes que ainda dependem da rede postal.

Se você tem alguma encomenda pendente ou costuma usar os Correios para enviar documentos, vale ficar de olho nas próximas notícias. Mudanças podem chegar a curto prazo, e entender o que está por trás dos números ajuda a se preparar melhor para possíveis ajustes nos serviços.