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Correios: pequenos ganhos nas entregas, mas a tempestade financeira ainda não passou

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Correios: pequenos ganhos nas entregas, mas a tempestade financeira ainda não passou

Um olhar mais próximo sobre a situação dos Correios

Se você já recebeu um pacote ou enviou uma carta nos últimos anos, provavelmente notou que os Correios têm passado por mudanças – algumas boas, outras nem tanto. A última divulgação de resultados do terceiro trimestre de 2025 trouxe um dado que, à primeira vista, pode parecer um alívio: as receitas com encomendas e mensagens cresceram novamente. Mas, como costuma acontecer, o panorama completo é bem mais complexo.

Os números que chamam atenção

  • Receita com encomendas: R$ 7,2 bilhões (a maior desde 2022);
  • Receita com mensagens: R$ 3,6 bilhões;
  • Prejuízo acumulado no 3º trimestre: R$ 6 bilhões, quase triplicando o déficit de 2024 (R$ 2,1 bilhões).

Esses números mostram que, apesar do aumento tímido nas duas linhas de receita, a empresa ainda está afundada em prejuízos. O crescimento de R$ 107 milhões nas encomendas e R$ 58 milhões nas mensagens representa menos de 2 % do total, o que não é suficiente para mudar o quadro financeiro.

Por que o “Remessa Conforme” mexeu com o caixa?

Em 2023 o Ministério da Fazenda criou o programa “Remessa Conforme”, que passou a cobrar 20 % de imposto de importação sobre compras internacionais de até US$ 50. Até então, essas pequenas remessas eram isentas e, principalmente, eram entregues pelos Correios. A medida – apelidada de “taxa das blusinhas” – fez com que empresas de transporte privadas pudessem assumir o frete interno, tirando volume dos Correios.

O efeito foi imediato: a receita total caiu R$ 2,2 bilhões entre o acumulado até setembro de 2023 e o mesmo período de 2025, representando 66 % da arrecadação que o programa gerou. Em termos de participação de mercado, a estatal passou de 51 % em 2019 (primeiro ano do governo Bolsonaro) para apenas 22 % em 2025.

O plano de reestruturação: o que está em jogo?

Para tentar virar o jogo, o presidente dos Correios, Emmanoel Rondon, apresentou um plano ambicioso que inclui:

  • Captação de R$ 8 bilhões adicionais até 2026, seja via Tesouro ou novo empréstimo;
  • Redução de R$ 2 bilhões em custos com pessoal, com um Programa de Demissão Voluntária (PDV) que deve afastar 15 mil funcionários em até dois anos – cerca de 18 % da folha;
  • Venda de imóveis não operacionais, estimada em R$ 1,5 bilhão;
  • Fechamento de mil agências deficitárias (a empresa tem cerca de 5 mil unidades hoje);
  • Revisão do plano de saúde dos colaboradores, com meta de economizar R$ 500 milhões ao ano.

Além disso, o plano prevê um investimento de R$ 4,4 bilhões entre 2027 e 2030, financiado por um empréstimo do Novo Banco de Desenvolvimento dos BRICS, para modernizar a infraestrutura: automação de centros de tratamento, descarbonização da frota, upgrade de TI e redesenho da malha logística.

O que isso significa para quem usa os Correios?

Para o consumidor, a principal preocupação costuma ser a qualidade e a rapidez da entrega. A redução de agências pode significar menos pontos de retirada e, em algumas regiões, maior tempo de espera. Por outro lado, a modernização da frota e a automação podem, a médio prazo, melhorar a rastreabilidade e reduzir atrasos.

Se você depende de envios internacionais, a “taxa das blusinhas” já aumentou o custo final das compras. A competição com transportadoras privadas também pode trazer preços mais competitivos, mas ao custo de perder a rede de cobertura nacional que os Correios historicamente ofereciam.

Próximos passos e possíveis cenários

O plano tem metas claras: alcançar R$ 21 bilhões em receita total até 2027 e voltar a ter lucro a partir de 2028. Se tudo correr bem, a empresa pode se tornar mais enxuta, focada em serviços de alto valor agregado (logística de e‑commerce, soluções de entrega last‑mile, serviços de marketing e venda de chips, que já mostraram crescimento).

Entretanto, há riscos:

  • Resistência interna: o PDV pode gerar clima de insegurança entre os funcionários, afetando a produtividade;
  • Condições de crédito: a taxa de juros alta pode tornar o financiamento de R$ 8 bilhões mais caro, comprometendo o caixa;
  • Pressão política: os Correios são empresa pública e, portanto, sujeita a decisões governamentais que podem mudar o rumo do plano a qualquer momento.

Se o governo conseguir equilibrar a necessidade de arrecadação com a manutenção de um serviço universal de entrega, talvez vejamos um futuro mais estável para a estatal. Caso contrário, a empresa pode continuar a perder participação de mercado para concorrentes privados, como a Jadlog, a Total Express e até plataformas de e‑commerce que criam suas próprias redes de entrega.

Como você pode se preparar?

Se você tem um pequeno negócio que depende dos Correios, vale a pena diversificar:

  1. Negocie tarifas com transportadoras privadas e compare custos‑benefício;
  2. Considere usar serviços de fulfillment (armazenamento e envio) de marketplaces, que já têm acordos com múltiplas transportadoras;
  3. Fique atento às mudanças de política tributária, especialmente se trabalha com importação de produtos de baixo valor.

Para quem usa os Correios apenas como consumidor, a dica é planejar com antecedência: se o prazo de entrega for crítico, talvez valha a pena pagar um serviço expresso de outra empresa. Mas, se a entrega não for urgente, continuar com os Correios pode ser mais econômico, já que ainda mantêm uma rede nacional ampla.

Conclusão

Os Correios mostram sinais de vida ao registrar aumento nas receitas de encomendas e mensagens, mas ainda nadam em um mar de prejuízos. O plano de reestruturação traz medidas drásticas – corte de pessoal, venda de ativos, fechamento de agências – e ainda depende de recursos adicionais de R$ 8 bilhões. O futuro da empresa está ligado a como ela vai equilibrar a necessidade de modernização com a obrigação de manter um serviço universal, algo que o Brasil tem valorizado historicamente.

Em resumo, se você acompanha o mercado de logística, vale a pena observar de perto as próximas decisões dos Correios. Elas podem mudar a forma como enviamos e recebemos pacotes nos próximos anos, e quem se adaptar primeiro pode ganhar vantagem competitiva.