Se você acompanha o mercado de ações, já deve ter notado a explosão das cotas da Copasa (CSMG3) este ano. Em menos de um mês, o preço da ação saltou de R$ 20,53 para quase R$ 43,00 – mais de 100% de valorização. O que está por trás desse salto? A resposta curta: a perspectiva de privatização da maior empresa de saneamento de Minas Gerais. Mas o que isso realmente significa para quem mora em Minas, para quem investe e, principalmente, para quem paga a conta de água?
Por que a Copasa está no centro das discussões?
A Copasa é responsável por abastecer água e tratar esgoto em 637 municípios mineiros, o que representa 75% da população do estado. Em 2024, a estatal registrou lucro líquido de R$ 1,3 bilhão, e até o terceiro trimestre de 2025 já havia somado R$ 1,07 bilhão. São números sólidos, mas o governo de Minas, liderado por Romeu Zema (Novo), vê na privatização uma forma de modernizar a empresa, atrair investimentos privados e, sobretudo, reduzir a dívida estadual – que gira em torno de R$ 180 bilhões.
Como funciona a proposta de desestatização?
O Projeto de Lei aprovado pela Assembleia Legislativa (ALMG) abre duas vias principais:
- Alienação total ou parcial: o Estado vende parte ou a totalidade de suas ações a investidores privados, geralmente por meio de leilão.
- Aumento de capital: são emitidas novas ações que são compradas por investidores, diluindo a participação do governo.
Mesmo que o Estado perca o controle acionário, ele manterá uma “golden share” – uma ação preferencial que dá direito a veto em decisões estratégicas, como mudança de nome ou sede da empresa.
O que muda na prática para o consumidor?
É fácil imaginar que a privatização traga mais eficiência, mas a realidade pode ser mais complexa. Vamos analisar os possíveis impactos:
- Tarifas de água e esgoto: empresas privadas costumam buscar retorno sobre o investimento, o que pode resultar em aumentos de tarifa. Por outro lado, a injeção de capital pode melhorar a qualidade do serviço e reduzir perdas técnicas (atualmente 37,3% em setembro de 2025).
- Investimentos em infraestrutura: a Copasa precisa investir R$ 16,9 bilhões até 2029 para alcançar as metas do Novo Marco do Saneamento (99% de cobertura de água e 90% de esgoto). Um parceiro privado pode acelerar esses investimentos, trazendo tecnologia e gestão mais ágil.
- Qualidade e continuidade do serviço: a competição no setor pode incentivar a empresa a melhorar o atendimento ao cliente, reduzir interrupções e ampliar a cobertura em áreas ainda não atendidas.
- Empregos: a Copasa tem quase 10 mil funcionários. Privatizações podem gerar reestruturações, com possíveis demissões, mas também criar novas vagas em áreas de manutenção, tecnologia e gestão.
Riscos e críticas
Nem tudo são flores. Organizações de defesa do consumidor e alguns parlamentares apontam riscos como:
- Concentração de mercado: se a compra das ações for feita por um único conglomerado, pode haver pouca concorrência real.
- Desigualdade tarifária: regiões mais pobres podem enfrentar aumentos que comprometam o acesso à água.
- Perda de controle social: a “golden share” garante alguns vetos, mas decisões operacionais ficam nas mãos de investidores que priorizam lucro.
O que dizem os números recentes?
Além do salto nas ações, o último trimestre de 2025 mostrou resultados financeiros estáveis:
- Receita líquida de água, esgoto e resíduos: R$ 1,84 bilhão (+3,4% YoY).
- EBITDA: R$ 726,9 milhões, margem de 39,3% (ligeiramente abaixo de 2024).
- Lucro líquido: R$ 360,8 milhões, queda de 2% em relação ao 3T24.
- Investimentos realizados: R$ 2 bilhões (26% a mais que no mesmo período de 2024).
Esses indicadores reforçam que a Copasa tem capacidade de gerar caixa, mas ainda enfrenta desafios como perdas de água (37,3%) e a necessidade de ampliar a coleta de esgoto para chegar à meta de 90% até 2033.
Como você pode se posicionar?
Se você é investidor, a volatilidade pode ser uma oportunidade. A valorização de 100% já atraiu olhares de fundos e investidores de varejo. Contudo, lembre‑se de que o preço das ações pode reagir a notícias sobre o andamento da privatização – aprovação do governador, definição do comprador, condições do leilão.
Se você é consumidor, vale ficar atento ao comunicado da Copasa e da nova controladora (quando houver). Pergunte sobre planos de reajuste, investimentos previstos na sua região e como a empresa pretende reduzir as perdas de água. O diálogo cidadão‑empresa ainda será fundamental, mesmo em um modelo privado.
O que esperar nos próximos meses?
O caminho ainda tem algumas etapas:
- Sanção do governador ao PL aprovado pela ALMG.
- Definição do modelo de venda (leilão ou aumento de capital).
- Escolha do comprador ou consórcio de investidores.
- Implementação da “golden share” e ajustes nos estatutos da empresa.
- Comunicação ao mercado e ao público sobre mudanças tarifárias e planos de investimento.
Em cada uma dessas fases, o preço das ações pode oscilar. Para quem acompanha o mercado, vale usar ferramentas de análise fundamentalista – olhar margem EBITDA, dívida líquida, fluxo de caixa – e combinar com a análise política, que tem peso enorme nesse tipo de operação.
Conclusão
O salto de 100% nas ações da Copasa em 2025 não é só um fenômeno de bolsa; é o reflexo de uma decisão política que pode mudar a forma como milhões de mineiros recebem água e esgoto. A privatização traz a promessa de mais investimentos e modernização, mas também levanta questões sobre tarifas, empregos e controle social. O que fica claro é que, seja como investidor ou como consumidor, estar informado – entender os números, as metas e os riscos – é a melhor estratégia para aproveitar as oportunidades e proteger os direitos.
Fique de olho nas próximas notícias, participe das audiências públicas quando possível e, se estiver pensando em colocar dinheiro na Copasa, avalie bem seu perfil de risco. Afinal, água pode ser um bem essencial, mas também pode ser um ativo lucrativo para quem souber ler o mercado.



