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Como um norueguês mudou o sushi: a história do salmão que conquistou o Japão

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Como um norueguês mudou o sushi: a história do salmão que conquistou o Japão

Quando penso em sushi, a primeira imagem que me vem à cabeça é a de um peixe vermelho‑cor de atum, delicadamente cortado e servido sobre arroz. Poucas pessoas imaginam que, há pouco mais de três décadas, o salmão praticamente não fazia parte desse menu no Japão. A história de Bjørn‑Eirik Olsen, o norueguês que ousou desafiar uma tradição milenar, é um exemplo fascinante de como cultura, negócios e paixão podem se cruzar e gerar uma revolução gastronômica.



## O ponto de partida: o Projeto Japão

Em 1986, a Noruega vivia o auge da produção de salmão em cativeiro. O governo, querendo abrir novos mercados, lançou o chamado Projeto Japão, que tinha como objetivo levar o peixe nórdico para o país do sol nascente. Na época, os japoneses eram extremamente seletivos quanto ao que consumiam cru: o salmão era praticamente proibido. Eles acreditavam que o peixe de água doce tinha cheiro forte, textura inadequada e risco de parasitas, além de considerar o salmão do Atlântico – criado em fazendas – inferior ao salmão selvagem do Pacífico.



## O jovem apaixonado por Kurosawa

Bjørn‑Eirik Olsen não era apenas um analista de mercado; ele era um fã de cinema desde os 12 anos, quando assistiu ao clássico de Akira Kurosawa, *Os Sete Samurais*. O filme o cativou tanto que ele decidiu que queria viver algo parecido com a coragem e a honra dos samurais. Essa paixão o levou a Osaka, onde aprendeu japonês, e depois à Universidade de Kyushu, em Fukuoka, para estudar algas – um elemento essencial na culinária japonesa.

## Transformando percepção: o nome “Noruee Saamon”

Ao tentar introduzir o salmão nas bancas de sushi, Olsen deparou‑se com a resistência dos importadores japoneses. Eles afirmavam: “Não, nós, japoneses, não comemos salmão cru”. Para mudar essa mentalidade, ele e sua equipe criaram um novo nome, “Noruee Saamon”, que adaptava a palavra japonesa para salmão (shake) e destacava a origem nórdica. Essa estratégia de branding, aliada a campanhas de marketing e parcerias com chefs renomados como Yutaka Ishinabe, começou a abrir portas, ainda que lentamente.

## A crise que virou oportunidade

No início dos anos 1990, a produção norueguesa de salmão disparou, superando a demanda da Europa e dos Estados Unidos. Milhares de toneladas ficaram encalhadas nos congeladores, ameaçando colapsar a indústria. A situação era tão grave que metade dos piscicultores estava à beira da falência. Em vez de aceitar a venda do peixe para usos menos valorizados, Olsen negociou com a gigante japonesa Nichirei a exportação de 5 mil toneladas especificamente para sushi. Essa decisão arriscada acabou sendo o ponto de virada.

## O papel das esteiras giratórias

A década de 1990 também foi marcada pelo estouro da bolha econômica japonesa. Restaurantes de sushi mais acessíveis, equipados com esteiras giratórias, ganharam popularidade. As crianças, ao ver o peixe deslizar na correia, pegavam pedaços de salmão laranja ou dourado sem preconceito. Essa exposição precoce ajudou a normalizar o consumo do peixe, quebrando a barreira cultural que o mantinha fora do cardápio tradicional.

## Da resistência ao ícone plástico

Quando Olsen voltou ao Japão em 1995, encontrou réplicas de niguiri de salmão feitas de plástico nas vitrines das lojas de sushi. Para ele, aquilo foi a prova de que o salmão havia se tornado parte integrante da cultura gastronômica local. O fato de fábricas produzirem versões de plástico do sushi de salmão mostrava que o peixe já era reconhecido e demandado pelos consumidores.

## O impacto global

Hoje, o salmão norueguês é um dos ingredientes mais populares em sushis ao redor do mundo, desde Nova‑York até São Paulo. A Noruega permanece como o maior produtor de salmão de piscicultura, apesar das críticas ambientais sobre a sustentabilidade da indústria. O sucesso do salmão no sushi também impulsionou a criação de novas variedades, como o “salmão selvagem do Pacífico” e o “salmão de fazenda com certificação ecológica”.

## Lições para empreendedores

A trajetória de Olsen oferece alguns ensinamentos valiosos:

– **Entenda o mercado local**: antes de lançar um produto, é essencial conhecer os hábitos e preconceitos dos consumidores.
– **Rebrand é poder**: mudar a percepção de um produto pode ser tão simples quanto criar um nome que ressoe culturalmente.
– **Aproveite crises como oportunidades**: a superprodução de salmão poderia ter sido um desastre, mas virou a chance de inovar.
– **Parcerias estratégicas**: trabalhar com chefs influentes abriu portas que a publicidade tradicional não conseguiria.

## Um futuro ainda em construção

Bjørn‑Eirik Olsen continua viajando ao Japão e, segundo ele, está escrevendo um livro sobre sua experiência. Ele vê o sushi de salmão como um símbolo da união entre duas culturas distintas – a tradição japonesa e a expertise norueguesa em aquicultura. O futuro pode trazer ainda mais fusões gastronômicas: imagine um nigiri de bacalhau norueguês com molho de soja envelhecido ou um temaki de arenque com arroz temperado à moda japonesa.

## O que isso significa para nós, brasileiros?

Para quem mora no Brasil, onde o sushi já é presença constante nos cardápios de cidades grandes, a história do salmão nos lembra que a culinária está sempre em evolução. O que hoje parece tradicional pode ter sido, há poucos anos, uma ideia ousada. Ao escolher um prato, vale lembrar que cada ingrediente carrega uma história de negociação, adaptação e, muitas vezes, de coragem para quebrar barreiras.



Em resumo, a jornada de Bjørn‑Eirik Olsen mostra que, com paixão, estratégia e um toque de criatividade, é possível transformar o que parece impossível em algo cotidiano. Da próxima vez que você saborear um sushi de salmão, pense no norueguês que, há mais de 30 anos, acreditou que aquele peixe laranja poderia encontrar seu lugar na mesa japonesa – e acabou conquistando o mundo.

*Se você gostou desta história, compartilhe com seus amigos e deixe seu comentário. Quem sabe qual será o próximo ingrediente a mudar a gastronomia global?*