Se você acompanha as notícias financeiras, já deve ter ouvido o papo de que o Banco Central pode começar a cortar a taxa Selic ainda neste primeiro trimestre. A ideia de ver a taxa básica de juros cair de 15% ao ano para algo em torno de 12% pode parecer um filme de ficção, mas os especialistas já estão analisando o que isso significa para o seu bolso.
Por que o BC está cauteloso?
Antes de pensar em mudar a carteira, vale entender o que está por trás da postura do Banco Central. O cenário global está meio turbulento: tensões no Oriente Médio, oscilações no preço do petróleo e a indefinição sobre quem vai liderar o Federal Reserve nos EUA. Tudo isso mexe com a inflação e, consequentemente, com a decisão de cortar ou não os juros.
A política fiscal brasileira também entra na conta. O ano eleitoral pode trazer mais gastos e ainda há dúvidas sobre as reformas que a próxima gestão vai propor. Esses fatores criam um clima de incerteza que faz o BC segurar o leme um pouco mais.
O que a história nos ensina?
Estudos da XP Investimentos mostram que, quando a Selic começa a cair, alguns tipos de título de renda fixa costumam se sair melhor que o CDI. Entre eles, os títulos prefixados e os indexados à inflação (IPCA+).
- Prefixados: têm a taxa de rentabilidade definida no momento da compra, então você sabe exatamente quanto vai receber no vencimento.
- IPCA+: rendem a inflação mais uma taxa fixa, protegendo seu dinheiro da alta de preços.
Nos primeiros anos de um ciclo de corte, o índice IRF-M (prefixados) teve retorno médio de 13,3%, enquanto o CDI ficou em 10,7%.
Além disso, para cada ponto percentual que a Selic baixa, os títulos IPCA+ de curto prazo podem valorizar cerca de 0,40% e os prefixados até 0,50% no mesmo mês.
Como montar uma carteira mais resistente?
Não se trata de abandonar o CDI, que ainda tem seu lugar, mas de diversificar os indexadores. A estratégia sugerida por Rachel de Sá, da XP, é rebalancear a mistura de prefixados, IPCA+ e pós‑fixados. Veja um passo a passo prático:
- Defina seu horizonte de investimento: curto (até 2 anos), médio (2 a 5 anos) ou longo (mais de 5 anos). Isso ajuda a escolher a duração dos títulos.
- Separe a reserva de emergência: mantenha-a em ativos super líquidos, como Tesouro Selic ou CDBs com liquidez diária.
- Alocação por perfil de risco: conservador – mais CDI e Tesouro Selic; moderado – mistura de prefixados e IPCA+ de médio prazo; agressivo – títulos longos de IPCA+ e alguns fundos de crédito.
- Diversifique os vencimentos: evite concentrar tudo em um único prazo. Distribua entre 2025, 2028, 2035 etc.
- Rebalanceie periodicamente: a cada 6 ou 12 meses, ajuste a proporção conforme a evolução da taxa Selic e seu objetivo.
Cuidados com a marcação a mercado
Rafael Winalda, do Inter, alerta que vender um título antes do vencimento pode gerar perdas, principalmente se a taxa de juros subiu desde a compra. A marcação a mercado recalcula o valor do título diariamente. Por isso, alinhe o prazo do investimento com a sua necessidade de liquidez.
Se você tem um objetivo de comprar um imóvel em três anos, por exemplo, prefira títulos com vencimento próximo a essa data. Já para a aposentadoria, que está a 20 anos, faz sentido olhar para IPCA+ de 2035 ou 2045.
Resumo rápido: o que fazer agora
- Reveja sua alocação: aumente a participação de prefixados e IPCA+ se o prazo for compatível.
- Mantenha a reserva de emergência em ativos de alta liquidez.
- Defina claramente seus objetivos de curto, médio e longo prazo.
- Monitore a agenda do Copom e as notícias macroeconômicas.
- Considere a ajuda de um planejador financeiro para personalizar a estratégia.
Em suma, a expectativa de cortes nos juros abre uma janela de oportunidade, mas exige cautela e planejamento. Não é só mudar tudo de uma vez; é analisar cada pedaço da sua carteira, entender seu perfil e alinhar tudo ao seu horizonte de tempo. Assim, quando a Selic realmente baixar, você já estará posicionado para aproveitar o melhor dos retornos sem surpresas desagradáveis.



