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Como os acordos de R$ 2,4 bi entre bancos e o governo podem mudar a sua conta bancária

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Como os acordos de R$ 2,4 bi entre bancos e o governo podem mudar a sua conta bancária

Nas últimas semanas, a Procuradoria‑Geral da Fazenda Nacional (PGFN) anunciou que Itaú, Santander e Citi fecharam acordos que totalizam cerca de R$ 2,4 bilhões em tributos pagos ao governo. Parece um número enorme, mas o que isso realmente significa para a gente, que usa esses bancos no dia a dia? Vou explicar de forma simples, dividir o assunto em partes e ainda mostrar como isso pode influenciar a sua vida financeira.



Por que esses bancos estavam em disputa?

Os três bancos enfrentavam processos judiciais que se arrastavam há anos. A discussão girava em torno de tributos como CPMF (extinta), PIS, Cofins, Imposto de Renda e CSLL. Cada caso tinha nuances diferentes:

  • Santander: pagou cerca de R$ 1 bilhão por questões relacionadas à antiga CPMF.
  • Citi: desembolsou aproximadamente R$ 400 milhões, também ligado à CPMF.
  • Itaú: acertou cerca de R$ 1 bilhão envolvendo PIS, Cofins, IR e CSLL sobre receitas financeiras.

Além desses, o Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG) resolveu um débito de R$ 140 milhões. Todos os valores foram pagos à vista entre o fim de dezembro e o início de janeiro.



O que é o Programa de Transação Integral (PTI)?

Esses acordos foram negociados dentro do PTI, um programa criado para incentivar a solução de disputas tributárias entre empresas e a União. Como funciona?

  1. As empresas apresentam um pedido de transação, indicando o valor que acreditam dever pagar.
  2. A PGFN analisa o pedido, considerando o tempo de tramitação, risco de vitória/derrota e custos de manutenção da cobrança.
  3. Se houver acordo, o governo concede descontos que variam de 10 % a 30 % sobre multas, juros e encargos.

O desconto médio foi de 21 %, segundo a coordenadora‑geral de negociação, Mariana Lellis. Essa redução serve como incentivo para que as empresas resolvam os litígios sem precisar de longas batalhas judiciais.

Como isso afeta o seu bolso?

Você pode estar se perguntando: “E eu, como cliente, ganho alguma coisa com isso?” A resposta não é direta, mas há alguns impactos que vale a pena entender:

  • Redução de custos operacionais dos bancos: ao encerrar processos, os bancos economizam em honorários advocatícios, juros de mora e outros gastos administrativos. Essa economia pode ser repassada em forma de menores tarifas ou melhores condições de crédito.
  • Mais crédito disponível: com menos dinheiro “preso” em disputas, as instituições podem liberar mais recursos para empréstimos, financiamentos e cartões de crédito, o que pode facilitar a aprovação de um empréstimo para você.
  • Estabilidade regulatória: ao fechar esses casos, o governo demonstra que há um caminho claro para resolver conflitos tributários. Isso traz mais segurança para investidores e, indiretamente, para quem tem dinheiro investido em fundos ou CDBs desses bancos.

Não é garantido que você verá uma redução de tarifas imediatamente, mas a tendência de melhorar a relação entre bancos e Estado costuma gerar benefícios ao consumidor a médio e longo prazo.



O que ainda está por vir?

A PGFN informou que ainda há cerca de 70 pedidos de transação em análise. Isso indica que o valor arrecadado pode crescer nos próximos meses. Se mais bancos entrarem no acordo, o impacto no sistema tributário será ainda maior.

Mariana Lellis comentou que o universo de instituições financeiras ainda tem um “universo muito maior de dívidas”. Ou seja, ainda há muito a ser negociado, e isso pode gerar mais recursos para o Tesouro Nacional, o que, em teoria, ajuda a equilibrar as contas públicas.

Contexto histórico: a CPMF e a polêmica dos tributos sobre serviços financeiros

A CPMF (Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira) foi criada em 1997 e extinta em 2007. Apesar de ter sido retirada, a discussão sobre sua incidência em determinadas operações ainda gera litígios, como ficou evidente nos acordos do Santander e do Citi.

Já o debate sobre PIS e Cofins sobre receitas financeiras – ponto central do acordo do Itaú – tem raízes em decisões do Supremo Tribunal Federal (STF). O STF acabou reconhecendo a constitucionalidade da cobrança, mas ainda não definiu a modulação dos efeitos, o que deixa margem para acordos como o que vimos.

Próximos passos e o que observar

Fique de olho nas notícias sobre:

  • Novos acordos de outras instituições financeiras, como bancos regionais e cooperativas.
  • Possíveis mudanças na legislação tributária que possam simplificar ou alterar a forma de cobrança de tributos sobre serviços financeiros.
  • Reações do mercado: se os bancos começarem a oferecer tarifas menores ou condições de crédito mais atrativas, pode ser um sinal de que estão repassando a economia obtida nos acordos.

Para quem tem investimentos ou conta corrente nesses bancos, vale a pena acompanhar os comunicados oficiais e, se possível, conversar com o gerente de conta para entender se haverá algum ajuste nas tarifas.

Conclusão

Os acordos que totalizam R$ 2,4 bilhões são mais do que números na imprensa. Eles revelam um esforço conjunto entre o governo e o setor financeiro para resolver pendências que, por muito tempo, drenaram recursos e criaram insegurança jurídica. Para nós, consumidores, isso pode significar tarifas mais baixas, crédito mais fácil e um ambiente econômico mais estável.

Então, da próxima vez que receber um extrato ou analisar as condições de um empréstimo, lembre‑se desses acordos. Eles podem estar por trás de pequenas melhorias que você sente no dia a dia.