Quando o ex‑presidente Donald Trump anunciou, em 2 de abril de 2025, o que ele chamou de “Dia da Libertação”, poucos imaginaram que o México sairia ganhando. Na prática, o que aconteceu foi uma reconfiguração do comércio norte‑americano que favoreceu quem já tinha laços estreitos com os Estados Unidos. Neste post, eu explico como isso aconteceu, quais setores realmente se beneficiaram, e o que está em jogo agora com a renegociação do T‑MEC.
## O que foi o “Dia da Libertação”?
Trump decidiu impor tarifas de importação a quase todos os países que exportavam para os EUA. A lista incluía dezenas de nações, mas surpreendentemente excluiu o México e o Canadá. Depois, foram anunciadas tarifas para alguns produtos desses dois vizinhos – aço, alumínio e peças automotivas que não eram fabricadas nos Estados Unidos – mas o impacto foi bem menor que o previsto.
## Por que o México escapou quase ileso?
Dois fatores principais explicam esse resultado:
– **O T‑MEC (Tratado entre México, EUA e Canadá)** – produtos que atendem às regras de origem do acordo foram isentos de quase todas as novas tarifas. Isso fez com que exportadores mexam‑quenses migrassem rapidamente para a rota do tratado.
– **Proximidade geográfica e cadeias produtivas já consolidadas** – fábricas próximas reduzem custos de transporte e permitem respostas rápidas às mudanças de política.
Erica York, analista da Tax Foundation, resumiu bem: “Uma das maiores isenções foi para os produtos que atendem às exigências do T‑MEC”. Essa frase resume o que mudou nos números de comércio.
## Dados que comprovam o ganho mexicano
– **Crescimento de exportações para os EUA:** +5,66% em 2025, contra queda de 6,19% nas exportações canadenses.
– **Tarifa efetiva média:** 4,6% para produtos mexicanos (comparado a 3,9% do Canadá e 37,1% da China).
– **Participação no T‑MEC:** de 49% em 2024 para quase 87% em 2025 nas importações americanas provenientes do México.
Esses números mostram que, apesar das tarifas, o México conseguiu não só manter, mas ampliar sua presença no mercado americano.
## Setores que realmente se beneficiaram – e os que não
### Vencedores
– **Produtos agrícolas e alimentos processados** – beneficiados pela baixa tarifa e alta demanda nos EUA.
– **Componentes eletrônicos que já estavam no T‑MEC** – encontraram espaço ao substituir produtos chineses mais caros.
### Perdedores ou neutros
– **Setor automotivo** – crescimento tímido de apenas 0,9% em 2025, devido às tarifas específicas sobre peças não fabricadas nos EUA.
– **Aço e alumínio** – ainda enfrentam tarifas de 25%, resultando em queda nas exportações desses materiais.
## O papel da renegociação do T‑MEC
Em janeiro de 2026, Trump declarou que o tratado era “irrelevante” e sugeriu que os EUA poderiam produzir tudo internamente. Essa postura gerou dúvidas sobre a continuidade do acordo, que tem renegociação marcada para este ano.
A presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, respondeu com confiança, afirmando que a relação comercial com os EUA “irá continuar”. Enquanto isso, o primeiro‑ministro canadense, Mark Carney, buscou novos acordos com a China, sinalizando que o bloco norte‑americano pode se fragmentar.
### Possíveis cenários
1. **Renovação integral do T‑MEC** – mantém as vantagens atuais para o México.
2. **Renovação parcial ou com concessões** – pode criar novas tarifas seletivas, afetando setores vulneráveis.
3. **Desintegração do acordo** – forçaria o México a buscar alternativas, como o “Plano México” de diversificação de mercados.
Mario Campa, da Columbia University, alerta que o pior cenário exigirá que o México desenvolva um “plano B ou C”, investindo em novos parceiros comerciais e reduzindo a dependência dos EUA.
## O que isso significa para você, leitor?
– **Consumidor americano:** As tarifas mais altas acabam sendo repassadas nos preços. Produtos chineses ficaram mais caros, enquanto os mexicanos permanecem competitivos.
– **Empresário brasileiro que importa:** Vale observar a tendência de “nearshoring”. Cada vez mais empresas norte‑americanas buscam fornecedores no México por causa da proximidade e da estabilidade tarifária.
– **Investidor:** O México pode ser um destino atraente para quem quer montar fábricas ou cadeias de suprimentos que atendam ao mercado dos EUA sem sofrer com tarifas.
– **Estudante ou profissional de comércio exterior:** Entender o funcionamento do T‑MEC e suas regras de origem se torna essencial para navegar nas oportunidades que surgem.
## Conclusão
O “Dia da Libertação” acabou sendo, paradoxalmente, o dia da vitória mexicana. Graças ao T‑MEC, ao posicionamento estratégico e à rapidez das negociações, o México aumentou suas exportações para os EUA em um cenário de tarifas crescentes. Contudo, o futuro ainda está em aberto. A postura de Trump e a renegociação do tratado podem mudar o jogo a qualquer momento. O que fica claro é que, enquanto o México souber se adaptar – diversificando mercados e reforçando sua competitividade – ele continuará sendo um player central no comércio norte‑americano.
Se você acompanha o comércio internacional, vale a pena ficar de olho nas próximas rodadas de negociação do T‑MEC. Elas vão determinar se o México mantém seu lugar de destaque ou se precisará buscar novos caminhos.
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*Este artigo foi escrito de forma independente e baseada em fontes públicas. As opiniões expressas são minhas, como analista de comércio internacional.*



