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Como as ‘piscinas’ gigantes de água transformam a produção de hortaliças em São Paulo

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Como as ‘piscinas’ gigantes de água transformam a produção de hortaliças em São Paulo

Se você acha que a agricultura sempre foi feita nos campos de terra batida, prepare-se para mudar de ideia. Recentemente, visitei uma fazenda no interior de São Paulo onde as alfaces e outras hortaliças crescem não em solo, mas em verdadeiras piscinas de água. O método, chamado floating ou cultivo flutuante, está revolucionando a forma como produzimos alimentos frescos, e eu quero contar tudo que aprendi sobre essa tecnologia que parece saída de um filme de ficção científica, mas que já está nas nossas mesas.

O que é o cultivo flutuante?

Em linhas simples, o cultivo flutuante consiste em fazer as plantas crescerem em tanques de água onde todos os nutrientes que elas precisariam do solo são dissolvidos. É como a hidroponia, que já conhecemos, mas em escala muito maior. Imagine 18 tanques, cada um com 50 a 65 metros de comprimento e 8 metros de largura, cheios de água rica em minerais, oxigenados por nano‑bolhas e controlados por um sistema automatizado que cuida da irrigação, da temperatura e da iluminação das estufas que cobrem tudo.

Por que a água?

Você pode estar se perguntando: “Mas por que usar água em vez de terra?” A resposta tem a ver com três pilares: produtividade, qualidade e economia.

  • Produtividade: A água permite que as raízes das plantas tenham acesso direto a todos os nutrientes, sem a necessidade de percorrer longas distâncias no solo. O resultado são plantas que crescem mais rápido e de forma mais uniforme.
  • Qualidade: Como o ambiente é controlado, há menos risco de contaminação por pragas ou doenças. As folhas ficam mais verdes, crocantes e com sabor mais consistente.
  • Economia: O uso de água reciclada e a redução de insumos como fertilizantes e pesticidas geram uma queda significativa nos custos operacionais.

Como funciona na prática?

Na fazenda que visitei, Vítor Marin, responsável pela produção, explicou que cada tanque pode abrigar cerca de 50 mil pés de alface e outras hortaliças. As plantas são inicialmente cultivadas em bandejas de germinação e, depois de alguns dias, são transferidas para a água onde continuam seu desenvolvimento até a colheita.

A chave para o sucesso do sistema está na oxigenação por nano‑bolhas. Essas bolhas são tão pequenas que permanecem suspensas na água por mais tempo, aumentando a disponibilidade de oxigênio para as raízes. Mais oxigênio significa crescimento mais rápido e menos risco de doenças radiculares.

Todo o processo é monitorado por sensores que medem pH, condutividade elétrica (que indica a concentração de nutrientes) e temperatura. Quando algum parâmetro sai da faixa ideal, o sistema ajusta automaticamente a dosagem de fertilizantes ou a ventilação da estufa.

Resultados impressionantes

Os números falam por si. A produção mensal da fazenda chega a 47 toneladas apenas com o sistema flutuante, o que corresponde a 70 % da produção total de hortaliças da propriedade. Quando somamos a produção das estufas hidropônicas tradicionais, o total ultrapassa 75 toneladas por mês.

Para colocar em perspectiva, uma fazenda de tamanho médio que usa apenas métodos convencionais dificilmente alcançaria essa escala sem precisar de muito mais terra, água e mão‑de‑obra.

Desafios e limitações

Nem tudo são flores (ou alfaces). Vítor contou que, apesar das vantagens, o cultivo flutuante ainda enfrenta alguns obstáculos:

  • Investimento inicial: A construção dos tanques, a compra de equipamentos de oxigenação e a automação exigem um capital considerável.
  • Manutenção técnica: Operar o sistema requer conhecimentos específicos em agronomia, engenharia e tecnologia da informação.
  • Adaptabilidade: Algumas culturas, como raízes profundas (cenoura, beterraba), ainda não se dão bem em ambientes totalmente aquáticos.

Por isso, a fazenda mantém parte da produção em métodos tradicionais, que são mais simples de instalar e exigem menos treinamento para a equipe.

Impactos para o consumidor

Você pode estar se perguntando: “E eu, que compro alface no supermercado, como isso me afeta?” A resposta é mais direta do que parece.

  1. Preço mais estável: Com maior produtividade, há menos risco de escassez, o que ajuda a manter os preços mais baixos ao longo do ano.
  2. Qualidade garantida: Alfaces cultivadas em ambiente controlado têm menos variações de sabor e textura, o que significa uma refeição mais agradável.
  3. Menor pegada ambiental: O uso eficiente da água (até 90 % de reutilização) e a diminuição de agrotóxicos reduzem o impacto ambiental da produção.

Em resumo, o que vemos nas prateleiras pode ser fruto de uma tecnologia que usa menos recursos e oferece um produto de melhor qualidade.

O futuro da agricultura flutuante no Brasil

O sucesso da fazenda em São Paulo já está inspirando outros produtores a adotarem o modelo. Algumas tendências que vejo se consolidando nos próximos anos:

  • Expansão para outras regiões: Mesmo em áreas com escassez de água, a capacidade de reciclar e reutilizar o recurso pode tornar o cultivo flutuante viável.
  • Integração com energia renovável: Painéis solares e turbinas eólicas podem alimentar os sistemas de bombeamento e oxigenação, tornando a produção ainda mais sustentável.
  • Automação avançada: Inteligência artificial para prever necessidades nutricionais e otimizar a colheita em tempo real.
  • Diversificação de culturas: Pesquisas estão em andamento para adaptar o método a frutas de pequeno porte, como morangos, e até a produção de microverdes.

Essas inovações prometem transformar não só a forma de produzir, mas também a cadeia de suprimentos, reduzindo perdas pós-colheita e aproximando o produtor do consumidor final.

Como você pode se envolver?

Se o assunto despertou sua curiosidade, há algumas maneiras de se aproximar desse movimento:

  • Visite fazendas locais: Muitas propriedades que adotam o cultivo flutuante oferecem tours educativos. É uma ótima oportunidade para ver de perto a tecnologia.
  • Participe de feiras agrícolas: Eventos como a Agrishow costumam ter estandes dedicados a soluções hidropônicas e flutuantes.
  • Invista em conhecimento: Cursos online de hidroponia avançada já incluem módulos sobre sistemas de água circulante.
  • Consuma produtos locais: Ao escolher alfaces e verduras de produtores que utilizam técnicas sustentáveis, você incentiva a expansão dessas práticas.

Eu, pessoalmente, pretendo visitar outra fazenda que esteja testando o cultivo de microverdes em tanques menores. A ideia de ter alimentos tão frescos que parecem ter sido colhidos na hora em que chegam ao prato é realmente empolgante.

Conclusão

O cultivo flutuante, com suas piscinas gigantes de água nutrida, está mostrando que a inovação pode surgir nos lugares mais inesperados – até mesmo em tanques que lembram piscinas de verão. Em São Paulo, essa técnica já representa a maior parte da produção de hortaliças de uma fazenda modelo, trazendo benefícios econômicos, ambientais e de qualidade para o consumidor.

Se você ainda tem dúvidas, pense assim: menos terra, menos água desperdiçada, menos pesticidas e mais alimento saudável na sua mesa. Essa combinação parece ser a receita certa para enfrentar os desafios da segurança alimentar no futuro.

Fique de olho nas notícias do setor, pois a cada mês novas fazendas adotam o método, e quem sabe, em breve, você não verá um cartaz na sua feira local anunciando “Alface cultivada em piscina flutuante”. Até lá, aproveite a próxima salada e imagine o caminho que ela percorreu – de um tanque de água a um prato cheio de frescor.