Quando penso em agricultura, a primeira imagem que me vem à cabeça costuma ser a de campos verdes, tratores e, talvez, um céu aberto. Mas a realidade está mudando, e nem sempre a inovação aparece em forma de máquinas gigantes. No interior de São Paulo, um produtor chamado Vítor Marin está cultivando hortaliças dentro de verdadeiras piscinas de água. O método, conhecido como floating ou cultivo flutuante, está gerando uma revolução silenciosa nas estufas da região.
O que é o cultivo flutuante?
Em termos simples, o cultivo flutuante consiste em colocar as raízes das plantas em tanques cheios de água enriquecida com nutrientes. Ao contrário da hidroponia tradicional, onde as raízes ficam suspensas em substratos ou em pequenos canais, aqui elas ficam literalmente “nadando”. Cada tanque tem entre 50 e 65 metros de comprimento e 8 metros de largura, formando uma espécie de lago artificial dentro da estufa.
Como funciona na prática?
Vítor Marin administra 18 desses tanques, onde são cultivados cerca de 50 mil pés de alface e outras hortaliças. A água não fica parada: um sistema de nano‑bolhas oxigena o líquido, garantindo que as raízes recebam o oxigênio necessário para um crescimento rápido e saudável. Além disso, sensores automatizados monitoram a temperatura, o pH e a concentração de nutrientes, ajustando tudo em tempo real.
Por que a água?
Você pode estar se perguntando: “Por que colocar as plantas na água?” A resposta tem a ver com eficiência. Quando as raízes estão em contato direto com a solução nutritiva, elas absorvem os elementos de forma mais uniforme. Isso elimina variações de crescimento que são comuns em solos ou em sistemas onde a distribuição de nutrientes pode ser desigual. O resultado? Plantas mais homogêneas, menos perdas e, claro, maior produtividade.
Resultados impressionantes
Os números falam por si. Apenas o cultivo flutuante produz 47 toneladas de hortaliças por mês, o que corresponde a 70 % da produção total da propriedade. Quando somamos a produção das estufas hidropônicas tradicionais, o total chega a 75 toneladas mensais. Para colocar em perspectiva, isso equivale a abastecer dezenas de supermercados da região com alface fresca e de alta qualidade.
Vantagens econômicas
- Economia de água: O sistema recircula a solução nutritiva, reduzindo o consumo em até 90 % comparado ao cultivo em solo.
- Menor uso de defensivos: Como as raízes ficam submersas, a incidência de pragas e doenças é drasticamente menor, reduzindo a necessidade de pesticidas.
- Maior densidade de plantio: Cada metro quadrado de tanque pode abrigar mais plantas do que o mesmo espaço em solo, aumentando a produção por área.
- Automação: O controle automatizado diminui a necessidade de mão‑de‑obra intensiva, gerando economia de custos operacionais.
Desafios e limitações
Nem tudo são flores (ou alfaces). O investimento inicial para montar um sistema flutuante pode ser alto, principalmente por causa das bombas de oxigenação, dos sensores e da estrutura da estufa. Além disso, a dependência de energia elétrica é maior, o que pode ser um ponto crítico em regiões com fornecimento instável. Por isso, Vítor mantém parte da produção em métodos tradicionais, que exigem menos capital e são mais resilientes a falhas de energia.
Impacto ambiental
Um dos argumentos mais fortes a favor do cultivo flutuante é a sua pegada ecológica reduzida. A água é reutilizada, os fertilizantes são aplicados com precisão, e a necessidade de transporte de solo ou de grandes volumes de água fresca diminui. Isso se alinha com a crescente demanda dos consumidores por alimentos produzidos de forma sustentável.
O que isso significa para o consumidor?
Para quem compra alface no supermercado, a diferença pode não ser visível a olho nu, mas há benefícios claros:
- Qualidade mais consistente: Alfaces de tamanho e textura uniformes, sem folhas murchas ou manchas.
- Preço estável: A maior eficiência reduz custos, o que pode se refletir em preços mais competitivos.
- Menos resíduos: Como a colheita é mais controlada, há menos perdas pós‑colheita, o que reduz o desperdício de alimentos.
Como outras regiões podem se inspirar?
O sucesso de Vítor em São Paulo não é um caso isolado. Em outros estados, como Minas Gerais e Paraná, produtores já experimentam sistemas semelhantes, adaptando o tamanho dos tanques e o tipo de cultura. A chave está em entender as condições locais – disponibilidade de energia, acesso a água de qualidade e mercado consumidor – e ajustar o projeto de acordo.
Passos para quem quer começar
- Planejamento financeiro: Avalie o custo dos tanques, bombas, sensores e da estrutura da estufa. Considere linhas de crédito específicas para agricultura de alta tecnologia.
- Escolha da cultura: Alfaces são as mais comuns, mas outras hortaliças de ciclo curto, como rúcula e espinafre, também se dão bem.
- Instalação de oxigenação: As nano‑bolhas são essenciais; elas aumentam a disponibilidade de oxigênio e evitam o apodrecimento das raízes.
- Automatização: Invista em sensores de pH, condutividade elétrica e temperatura. Eles garantem que a solução nutritiva esteja sempre dentro dos parâmetros ideais.
- Treinamento da equipe: Mesmo com automação, alguém precisa monitorar o sistema e fazer intervenções rápidas quando necessário.
O futuro do cultivo flutuante
Com a tecnologia avançando rapidamente, podemos esperar melhorias como:
- Inteligência artificial: Algoritmos que preveem necessidades de nutrientes e ajustam a dosagem em tempo real.
- Energia renovável: Painéis solares integrados à estufa para alimentar bombas e sensores, reduzindo ainda mais o custo energético.
- Integração com agricultura vertical: Combinar tanques flutuantes com camadas de cultivo acima, maximizando o uso do espaço vertical.
Essas inovações podem tornar o cultivo flutuante ainda mais acessível, permitindo que pequenos produtores adotem a técnica sem precisar de grandes investimentos iniciais.
Conclusão
O que começou como um experimento com água e nutrientes se transformou em uma solução de alta produtividade que pode mudar a forma como produzimos alimentos no Brasil. O caso de Vítor Marin, em São Paulo, mostra que a combinação de tecnologia, automação e um olhar atento à sustentabilidade pode gerar resultados surpreendentes, tanto para o produtor quanto para o consumidor.
Se você ainda não conhece o cultivo flutuante, vale a pena acompanhar de perto. Seja como inspiração para quem já está no campo ou como uma janela para o futuro da alimentação, essas “piscinas” de água estão, literalmente, nadando rumo a um novo patamar da agricultura brasileira.



