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Como a volta de Trump à Venezuela pode mudar o jogo do petróleo na América Latina

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Como a volta de Trump à Venezuela pode mudar o jogo do petróleo na América Latina

Quando ouvi falar que Donald Trump está de olho na Venezuela, confesso que a primeira coisa que me veio à cabeça foi um cenário de filme de ação, cheio de explosões e negociações secretas. Mas a realidade, embora menos cinematográfica, tem tudo a ver com a nossa vida cotidiana: preço do combustível, investimentos em energia e até a política externa do Brasil nos próximos anos.



Por que a Venezuela ainda importa no tabuleiro do petróleo?

A Venezuela possui cerca de 17% das reservas mundiais de petróleo – a maior parte do planeta. Em números absolutos, isso significa mais de 300 bilhões de barris ainda sob a terra. Porém, a produção efetiva caiu para cerca de 800 mil barris por dia, muito abaixo de países como Arábia Saudita (cerca de 10 milhões) ou mesmo dos Estados Unidos (cerca de 12 milhões).

Essa queda tem raiz histórica: a estatização do setor na era chavista, a saída de empresas americanas e britânicas e a falta de investimento em tecnologia de extração. O resultado? Um gigante adormecido que, se acordado, pode mudar a oferta global de óleo.

O que Trump ganha ao “libertar” a Venezuela?

Segundo o economista Adriano Pires, sócio‑fundador do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), a estratégia de Trump vai muito além de uma simples tentativa de derrubar o regime de Nicolás Maduro. O objetivo principal seria cortar o acesso da China ao petróleo venezuelano e, ao mesmo tempo, criar um bloco de países alinhados à política americana que possa influenciar a OPEP.

Em termos práticos, isso significa:

  • Redirecionar a produção venezuelana: ao abrir espaço para companhias americanas, como ExxonMobil e Chevron, o preço do barril pode cair ainda mais, já que a oferta global aumentaria.
  • Limitar a influência chinesa: a China compra cerca de 80% do petróleo venezuelano a preços mais baixos. Se os EUA controlarem a produção, eles podem reduzir essa dependência chinesa.
  • Fortalecer aliados de direita na região: governos como o de Javier Milei na Argentina, o novo presidente de direita da Bolívia e possíveis candidatos conservadores na Colômbia e Chile podem servir como portas de entrada para investimentos norte‑americanos.



Como isso afeta o Brasil?

O Brasil, que está entre os sete maiores produtores de petróleo do mundo, tem um futuro próximo cheio de decisões estratégicas. A Petrobras, nossa gigante estatal, recebeu em 2025 a autorização para iniciar estudos de prospecção em um dos quase 300 blocos identificados na chamada “margem equatorial” – a zona marítima ao norte do país, rica em hidrocarbonetos.

Com a volta dos americanos à Venezuela, a competição por esses blocos pode ficar ainda mais acirrada. Investidores estrangeiros vão comparar duas opções: colocar dinheiro na Venezuela, que tem reservas gigantes, mas ainda está em processo de reestruturação política; ou apostar na margem equatorial brasileira, que oferece estabilidade jurídica e um ambiente regulatório mais previsível.

Essa disputa pode gerar dois efeitos simultâneos:

  1. Pressão sobre a Petrobras: a estatal pode precisar melhorar sua eficiência e reduzir custos para permanecer competitiva.
  2. Possível queda nos preços do barril: um aumento da oferta global tende a baixar o preço, o que, por um lado, reduz a receita das empresas, mas, por outro, diminui o custo dos combustíveis para o consumidor brasileiro.

O papel da China no novo cenário

Mesmo que os EUA tentem bloquear a presença chinesa na Venezuela, a realidade é que a China já tem uma presença forte no mercado de energia latino‑americana. Empresas chinesas já operam campos de petróleo no Brasil, produzindo cerca de 350 mil barris por dia. Além disso, a China continua sendo a maior consumidora mundial de petróleo, atrás apenas dos EUA.

Se a produção venezuelana subir novamente, a China pode buscar diversificar suas fontes, mas ainda assim manterá o Brasil como parceiro estratégico. Isso cria um paradoxo interessante para Trump: ao tentar limitar a influência chinesa, ele pode acabar reforçando a dependência da China em relação ao Brasil.



O que isso significa para o seu bolso?

Para quem tem que pagar gasolina, diesel ou até mesmo voar, a cadeia de eventos pode parecer distante, mas o impacto chega rápido. Se o preço do barril cair de US$ 60 para, digamos, US$ 45, o preço dos combustíveis nas bombas pode seguir a mesma tendência, embora outros fatores – como impostos e margens de distribuidores – também influenciem.

Além disso, a possibilidade de novos investimentos em exploração pode gerar empregos nas regiões costeiras do Nordeste, onde a maioria dos blocos da margem equatorial está localizada. Isso pode significar mais oportunidades de trabalho, aumento de renda e, a longo prazo, maior arrecadação de royalties para os estados.

Riscos e incertezas

Nem tudo são flores. Alguns riscos que vale a pena observar:

  • Instabilidade política na Venezuela: se o regime de Maduro cair, pode haver um período de transição turbulento que atrase projetos de investimento.
  • Reação da China: Pequim pode buscar alternativas fora da América Latina, como o Oriente Médio ou a África, o que reduziria seu interesse no Brasil.
  • Pressão ambiental: a expansão da produção de petróleo vem acompanhada de críticas de grupos ambientalistas, que podem influenciar políticas públicas e gerar restrições.

O futuro da energia na América Latina

O que estamos vendo é uma nova dinâmica de energia que vai muito além de quem controla um poço ou um campo. É uma disputa geopolítica que envolve tecnologia, finanças, meio ambiente e, claro, a própria soberania dos países da região.

Se a Venezuela conseguir retomar sua produção, a América Latina pode se tornar ainda mais relevante no cenário global de energia. Isso traz oportunidades para países que ainda têm reservas subexploradas, como a Guiana (onde ExxonMobil e Chevron já atuam) e a Bolívia (com seu potencial de gás).

Para o Brasil, a chave será equilibrar a necessidade de atrair investimentos estrangeiros com a defesa dos interesses nacionais – garantindo que a Petrobras continue sendo um pilar estratégico e que os benefícios da exploração cheguem também às comunidades locais.

Conclusão pessoal

Eu, como alguém que acompanha de perto as notícias de energia, vejo duas coisas claras: primeiro, a volta de Trump à Venezuela não é um “episódio isolado”, mas parte de um movimento maior de reconfiguração do poder no mercado de petróleo. Segundo, esse movimento tem consequências diretas para nós, brasileiros, seja no preço do combustível, seja nas oportunidades de emprego nas regiões costeiras.

Então, da próxima vez que você encher o tanque ou ouvir um debate sobre energia nas eleições, lembre‑se de que há um tabuleiro de xadrez muito maior em jogo, com peças que vão de Washington a Caracas, de Pequim a Brasília. E, como sempre, a melhor estratégia é ficar bem informado e acompanhar como esses grandes movimentos afetam a nossa vida diária.