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Como a volta de Trump à Venezuela pode mudar o jogo do petróleo na América Latina

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Como a volta de Trump à Venezuela pode mudar o jogo do petróleo na América Latina

Nos últimos dias, os noticiários têm falado muito sobre a nova postura de Donald Trump em relação à Venezuela. Se você acha que isso é só mais um capítulo da política americana, está na hora de perceber que o impacto pode chegar até a nossa casa, ao bolso e até ao futuro da energia no continente.



Por que a Venezuela ainda importa tanto?

A Venezuela detém cerca de 17% das reservas mundiais de petróleo – o maior volume do planeta. Mas, devido à nacionalização do setor e à saída de empresas estrangeiras durante a era chavista, a produção real despencou para menos de 800 mil barris por dia. Em comparação, Arábia Saudita, Rússia e os Estados Unidos ainda produzem entre 10 e 12 milhões de barris diariamente.

Esse abismo entre reservas e produção cria um cenário de potencial latente. Se a produção venezuelana voltar a subir, o mercado global sente o efeito rapidamente.



O que Trump ganha com isso?

Segundo o economista Adriano Pires, do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), a estratégia de Trump vai muito além de uma simples disputa comercial. O objetivo é criar uma espécie de “mini‑OPEP” sob controle dos EUA, limitando a influência da China, que hoje é a segunda maior consumidora mundial de petróleo.

  • Controle de reservas: ao abrir caminho para empresas americanas na Venezuela, os EUA podem ditar níveis de produção e, consequentemente, preços.
  • Bloquear a China: reduzir o acesso chinês ao petróleo venezuelano enfraquece a aliança econômica entre Pequim e Caracas.
  • Influência geopolítica: ter voz forte na região equatorial reforça o poder dos EUA na América Latina.

Em termos simples, Trump quer transformar a Venezuela em um tabuleiro onde ele move as peças antes que a China faça o mesmo.



Um efeito dominó na América Latina

Se os americanos voltarem a investir na Venezuela, a reação não fica confinada ao país vizinho. Outros governos de direita – como o da Argentina (Javier Milei), Bolívia e possivelmente a Colômbia e o Chile – podem se alinhar ao novo cenário, buscando também abrir suas fronteiras para investimentos estrangeiros em energia.

Isso gera duas tendências claras:

  1. Corrida por novos campos de gás e óleo: países como a Guiana, que já tem ExxonMobil e Chevron atuando, podem ver um aumento de competição por investimentos.
  2. Pressão sobre a Petrobras: com a margem equatorial brasileira (a região ao norte do país) se tornando mais atrativa, a estatal pode enfrentar concorrência direta de gigantes americanas.

O que isso significa para o Brasil?

O Brasil, como sétimo maior produtor mundial, está numa posição delicada. Por um lado, a possível queda nos preços do barril – atualmente em torno de US$ 60 – pode reduzir a receita da Petrobras e de outras empresas do setor. Por outro, abre oportunidades estratégicas:

  • Exportações para a China: com a Venezuela possivelmente reduzindo seu fornecimento ao gigante asiático, a China pode buscar mais petróleo brasileiro. Hoje, 80% do óleo venezuelano vai para Pequim a preços mais baixos que o mercado.
  • Aumento da produção interna: a expectativa é que a produção brasileira suba de menos de 4 milhões de barris por dia para cerca de 5 milhões em 2027.
  • Parcerias com empresas chinesas: já existem campos no Brasil operados por companhias chinesas que produzem 350 mil barris por dia, reforçando o papel do Brasil como fornecedor chave para Pequim.

Em resumo, a estratégia de Trump pode acabar beneficiando indiretamente o Brasil, ao criar um vácuo de oferta que a Petrobras e os parceiros chineses podem preencher.

Riscos e oportunidades para o consumidor brasileiro

Para quem paga o preço da bomba, a dinâmica pode ser confusa. Se a produção mundial aumentar muito, o preço do barril tende a cair ainda mais, o que pode baixar os preços dos combustíveis no curto prazo. Mas há um alerta:

Quedas abruptas de preço podem desincentivar investimentos em exploração e refino, o que, a longo prazo, pode gerar escassez de oferta e volatilidade.

Além disso, a dependência crescente da China por petróleo brasileiro pode tornar o país mais vulnerável a pressões políticas de Pequim. É um jogo de equilíbrio delicado.

Como se preparar?

Se você está pensando em finanças pessoais ou em negócios ligados à energia, vale a pena observar alguns pontos:

  • Investimentos em energia renovável: com a volatilidade do petróleo, fontes como solar e eólica ganham ainda mais atratividade.
  • Ficar de olho nas ações da Petrobras: a empresa pode oscilar conforme o preço do barril e as decisões de investimento estrangeiro.
  • Monitorar a política externa: mudanças nas alianças entre EUA, China e países latino‑americanos podem impactar tarifas de importação e exportação.

O que o futuro pode reservar?

É difícil prever exatamente como a situação se desenrolará, mas alguns cenários são plausíveis:

  1. Recuperação gradual da produção venezuelana: se a PDVSA conseguir estabilizar a produção, o mercado global pode entrar em superabundância, pressionando ainda mais os preços.
  2. Escalada de tensões geopolíticas: caso a China decida contrabalançar a estratégia de Trump, podemos ver sanções econômicas cruzadas que afetam não só a Venezuela, mas toda a região.
  3. Reforma da política energética brasileira: o governo Lula pode acelerar a abertura de novos blocos de exploração, buscando diversificar a matriz e reduzir a dependência de importações.

Independentemente do caminho escolhido, o ponto central é que a energia – especialmente o petróleo – continua sendo uma das peças mais valiosas no tabuleiro da política internacional. E, como sempre, quem acompanha de perto as movimentações tem mais chance de transformar desafios em oportunidades.

Então, da próxima vez que ouvir alguém reclamar do preço da gasolina, lembre‑se: por trás daquele número está um complexo jogo de interesses que envolve desde a Caracas até Washington, passando por Pequim e, claro, pelo nosso próprio Brasil.