Quando se fala em petróleo, a primeira coisa que vem à cabeça costuma ser o Oriente Médio. Mas a verdade é que a América Latina tem um protagonismo que, nos últimos anos, tem sido pouco noticiado. A Venezuela, apesar de estar em crise, ainda guarda cerca de 17% das reservas mundiais – um número que, se bem explorado, pode mudar a dinâmica do mercado global.
O que motivou essa mudança de cenário? A resposta está na política externa dos Estados Unidos, especialmente na postura do ex‑presidente Donald Trump. Depois de anos afastado da Venezuela, Trump está tentando reverter a influência chinesa no país e, ao mesmo tempo, abrir novas oportunidades para as companhias americanas como ExxonMobil e Chevron.
Para entender o impacto disso, é preciso lembrar que a produção venezuelana despencou de mais de 2 milhões de barris por dia nos anos 2000 para menos de 800 mil hoje. Essa queda foi consequência da estatização do setor e da saída de empresas estrangeiras durante a era chavista. Mas a reserva ainda está lá, enterrada sob camadas de política e sanções.
O economista Adriano Pires, do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), vê um futuro promissor para os países que ainda possuem grandes reservas na região. Ele aponta que a Argentina, sob o governo de direita de Javier Milei, está alinhada com Trump, e que a Bolívia também tem um governo de direita que pode abrir espaço para investimentos estrangeiros em gás, após a estatização dos campos por Evo Morales.
Não são só os países vizinhos que entram nessa partida. A Guiana, que recentemente descobriu enormes jazidas de óleo offshore, tem a ExxonMobil e a Chevron como principais investidores. A Colômbia, que se prepara para eleições em 2024, também pode seguir a tendência de governos de direita que favorecem a abertura do setor energético. E, claro, o Chile, onde a direita venceu as últimas eleições, pode se tornar mais atrativo para capital estrangeiro.
No Brasil, a situação tem outra camada. O presidente Lula, favorito para a reeleição em 2026, tem defendido a expansão da exploração de petróleo, mantendo o país como o sétimo maior produtor mundial. A Petrobras, que recebeu autorização em 2025 para estudar blocos na margem equatorial, agora enfrenta uma nova competição: investir na Venezuela ou apostar nos novos blocos brasileiros.
Essa decisão não é trivial. Se a produção venezuelana voltar a crescer, o aumento da oferta mundial pode pressionar ainda mais os preços do barril, que já rondam os US$ 60. Analistas já preveem uma queda de preço nos próximos dois anos, impulsionada por uma oferta abundante que não será acompanhada por um aumento equivalente da demanda.
Mas nem tudo é pessimismo. A queda nos preços pode abrir portas para o Brasil aumentar suas exportações, especialmente para a China. Atualmente, 80% do petróleo venezuelano vai para Pequim, a custos menores que os do mercado internacional. Com a produção venezuelana ainda incerta, a China pode buscar fontes alternativas – e o Brasil está pronto para suprir essa demanda.
Adriano Pires destaca que a produção brasileira deve subir de menos de 4 milhões de barris por dia para cerca de 5 milhões em 2027. Além disso, empresas chinesas que já adquiriram campos no Brasil produzem cerca de 350 mil barris por dia, tornando o país um fornecedor cada vez mais estratégico para Pequim.
Então, onde Trump se encaixa nessa equação? O objetivo principal do ex‑presidente ao intervir na Venezuela é bloquear o acesso chinês ao petróleo do país e, ao mesmo tempo, criar uma espécie de mini‑OPEP que lhe dê maior controle sobre a produção e os preços globais. Se conseguir, ele terá mais influência para “dar um xeque‑mate” na China, que é a segunda maior consumidora de petróleo do mundo.
Para nós, leitores que acompanham de perto a economia e a geopolítica, isso significa algumas coisas práticas. Primeiro, a volatilidade dos preços do combustível pode aumentar, impactando o custo de transporte e, consequentemente, o preço dos alimentos e de outros bens. Segundo, investimentos em energia no Brasil podem ganhar ainda mais atenção, tanto de investidores nacionais quanto estrangeiros, o que pode gerar novas oportunidades de emprego no setor.
Por fim, vale observar que a disputa pelo petróleo não é apenas sobre quem produz mais, mas sobre quem controla as rotas de venda e quem define os preços. Com a América Latina se tornando um tabuleiro de xadrez cada vez mais complexo, ficar de olho nas decisões de Washington, Pequim e Brasília pode ser tão importante quanto acompanhar as notícias de mercado.
E você, o que acha dessa nova dinâmica? Vai mudar a forma como consumimos energia? Ou será apenas mais um capítulo da eterna disputa por recursos? Deixe seu comentário e vamos debater juntos!


