Quando o IBGE divulga os números do PIB dos municípios, a maioria de nós nem pensa duas vezes. Mas, se a gente parar um pouquinho e analisar o que está acontecendo nas cidades que mais perderam participação em 2023, dá para entender melhor como isso afeta o nosso dia a dia, o mercado de trabalho e até o preço do combustível.
Resumo rápido dos números
- Maricá (RJ) liderou a lista de perdas, com recuo de 0,3 ponto percentual (p.p.) no PIB nacional.
- Seguem Niterói (RJ) e Saquarema (RJ), ambas com queda de 0,2 p.p.
- Ilhabela (SP) e Campos dos Goytacazes (RJ) fecharam o grupo, cada uma com -0,1 p.p.
Enquanto isso, as capitais ganharam espaço: São Paulo subiu 0,36 p.p., Brasília +0,08 p.p., Porto Alegre +0,06 p.p., Rio de Janeiro +0,05 p.p., Belo Horizonte +0,05 p.p. e Manaus +0,04 p.p.
Por que essas cidades perderam participação?
O estudo do IBGE aponta um culpado bastante claro: a queda dos preços internacionais das commodities, sobretudo do petróleo e do gás. Muitas das cidades que mais despencaram têm economias quase que “na mão” da extração de petróleo.
Exemplos típicos são Campos dos Goytacazes e Macaé, localizadas na chamada Norte Fluminense, onde a maior parte da riqueza vem dos campos do pré‑sal nas bacias de Santos e Campos. Mesmo que a produção tenha subido 9,2% em volume, a queda de 22,7% nos preços fez o Valor Adicionado Bruto (VAB) – a medida que realmente mostra a riqueza gerada antes de impostos – encolher.
Sete dos 30 municípios com maiores perdas estavam diretamente ligados a esse setor. E não são só as cidades do Rio; Ilhabela (SP), com forte presença de turismo, também entrou na lista, mostrando que a crise de preços tem efeitos colaterais em outros segmentos.
E o que isso tem a ver com a gente?
Você pode estar se perguntando: “Mas eu não moro em Maricá, então por que devo me importar?” A resposta é mais simples do que parece. Quando as cidades que dependem de petróleo perdem força, o efeito se espalha:
- Emprego: menos receita para as prefeituras significa menos investimentos em infraestrutura, saúde e educação, o que pode reduzir vagas de trabalho direto e indireto.
- Preço dos combustíveis: a queda dos preços internacionais costuma refletir na bomba, mas a volatilidade também pode gerar aumentos inesperados quando os contratos de compra são renegociados.
- Serviços locais: restaurantes, lojas e transportes que dependem do fluxo de trabalhadores da indústria de energia podem sentir a queda de demanda.
Em resumo, mesmo que você nunca tenha visitado Maricá, a saúde econômica dessas cidades tem um eco nas políticas estaduais e federais que, por sua vez, impactam o seu bolso.
Por que as capitais ganharam?
O outro lado da moeda mostra um cenário de recuperação nos serviços. Depois de 2022, que foi o pior ano da série histórica para a participação das capitais, 2023 trouxe um leve retorno. São Paulo, por exemplo, destacou-se nas áreas financeiras, de seguros e serviços correlatos.
Esse crescimento dos serviços tem duas consequências práticas:
- Mais oportunidades de emprego qualificado nas áreas de tecnologia, finanças e consultoria.
- Um aumento da demanda por moradia, o que pode elevar os preços de aluguel nas grandes cidades.
Se você está pensando em mudar de cidade ou buscar novas oportunidades, vale a pena observar esses indicadores. Capitais em alta costumam atrair investimentos privados, mas também trazem desafios como trânsito e custo de vida mais alto.
Como interpretar o VAB?
O Valor Adicionado Bruto costuma ser um termo técnico que aparece só nos relatórios do IBGE, mas entender seu significado pode ajudar a decifrar a saúde econômica de um lugar. O VAB é basicamente a diferença entre o que se produz e o que se gasta em insumos. Quando o VAB cai, significa que a produção está rendendo menos riqueza real.
Na prática, isso pode se traduzir em menos dinheiro circulando na economia local, menos impostos arrecadados e, consequentemente, menos recursos para serviços públicos.
O que pode mudar nos próximos anos?
Algumas tendências já dão pistas de como o cenário pode evoluir:
- Transição energética: o Brasil tem investido em energias renováveis. Se a dependência do petróleo diminuir, cidades como Macaé podem precisar diversificar suas economias.
- Desconcentração econômica: o IBGE observou que a participação dos municípios não capitais caiu de 72,5% para 71,7%. Se o governo conseguir incentivar o desenvolvimento regional, poderemos ver um reequilíbrio.
- Políticas de incentivo: programas federais de apoio a pequenas e médias empresas podem ajudar a compensar a perda de VAB em cidades mais vulneráveis.
Para quem tem negócios ou está pensando em investir, ficar de olho nesses indicadores pode evitar surpresas desagradáveis.
Dicas práticas para quem vive nas cidades citadas
Se você mora em uma das cidades que perderam participação, aqui vão algumas sugestões para se adaptar:
- Requalifique-se: cursos de tecnologia, gestão de projetos ou áreas de serviços podem abrir portas em cidades vizinhas ou até em capitais.
- Explore o empreendedorismo local: turismo, gastronomia e serviços de apoio à comunidade costumam ter demanda mesmo em tempos de crise.
- Fique atento a programas de apoio: o governo costuma lançar linhas de crédito especiais para regiões em dificuldade.
- Planeje finanças pessoais: com possíveis oscilações no emprego, é prudente criar uma reserva de emergência.
Conclusão
Os números do IBGE mostram uma realidade que vai muito além de simples porcentagens. Eles revelam onde a economia brasileira está concentrada, quais setores estão vulneráveis e onde podem surgir novas oportunidades. Se você está em São Paulo, Rio de Janeiro ou em qualquer outra parte do país, entender esses movimentos ajuda a tomar decisões mais informadas – seja na carreira, nos investimentos ou no planejamento familiar.
Fique de olho nos próximos relatórios do IBGE, porque a economia é como um rio: sempre em movimento, e quem aprende a ler suas correntezas sai na frente.



