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China e Canadá firmam acordo comercial: o que muda para o seu bolso e para a política global

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China e Canadá firmam acordo comercial: o que muda para o seu bolso e para a política global

Na última semana, o primeiro‑ministro canadense Mark Carney fez história ao visitar Pequim, a primeira viagem de um líder canadense ao país em oito anos. O objetivo? Reacender uma parceria econômica que, antes da disputa tarifária, já era a segunda maior do Canadá, atrás apenas dos Estados Unidos.



A China respondeu rapidamente às ameaças de Donald Trump, que chegou a dizer que imporia tarifas de 100 % sobre produtos canadenses caso o acordo fosse concluído. O Ministério das Relações Exteriores chinês, por sua vez, garantiu que os acordos com o Canadá não têm terceiros como alvo – ou seja, não são um plano para driblar as sanções americanas.



Mas, afinal, o que esse novo pacto significa na prática? Primeiro, a canola canadense, um dos principais produtos agrícolas exportados ao Oriente, deve ver suas tarifas reduzidas de 84 % para cerca de 15 % até o início de março. Isso pode destravar até US$ 3 bilhões em pedidos para agricultores, pescadores e processadores.



Em paralelo, o Canadá concordou em abrir as portas para quase 50 mil veículos elétricos chineses, com uma tarifa de 6,1 % – bem longe dos 100 % impostos pelo ex‑primeiro‑ministro Justin Trudeau em 2024. A ideia, segundo Carney, é usar essa importação como aprendizado: acessar cadeias de suprimentos avançadas e estimular a demanda local para, futuramente, desenvolver um setor automotivo competitivo.

Essa estratégia tem gerado polêmica dentro do próprio Canadá. O governador de Ontário, Doug Ford, acusou o governo federal de “enxurrada de veículos baratos” sem garantias de investimentos reais na indústria nacional. Por outro lado, até mesmo Donald Trump, que antes ameaçava tarifas, elogiou Carney por buscar um acordo com a China, dizendo que era “o que ele deveria estar fazendo”.

O contexto geopolítico é crucial. Enquanto os Estados‑Unidos adotam uma postura mais protecionista, especialmente em relação a tecnologia e energia limpa, a China tenta mostrar que pode ser parceira de comércio “ganha‑ganha”. O discurso do porta‑voz Guo Jiakun reforça essa ideia, defendendo cooperação em vez de confronto.

Para quem vive de importação ou exportação, as mudanças são tangíveis:

  • Produtores de canola: redução drástica das tarifas chinesas abre mercado para exportar mais volume e melhorar a rentabilidade.
  • Montadoras canadenses: a presença de veículos elétricos chineses pode pressionar por inovação e, possivelmente, parcerias de joint‑venture.
  • Consumidores: carros elétricos mais baratos e maior variedade de produtos agrícolas podem chegar ao mercado com preços mais competitivos.

Mas nem tudo são flores. A dependência de importações baratas pode desestimular a produção local se não houver políticas de apoio ao desenvolvimento de tecnologia própria. Além disso, a relação delicada entre China e EUA pode gerar instabilidade: se Washington decidir elevar novamente as tarifas contra a China, o Canadá pode acabar preso no meio‑campo, pagando preços mais altos ou perdendo acesso a mercados.

Historicamente, o comércio entre Canadá e China já enfrentou altos e baixos. Em 2023, a China exportou 41.678 veículos elétricos para o Canadá, mas as tensões tarifárias de 2024 reduziram drasticamente esse fluxo. Agora, com o novo acordo, espera‑se uma retomada gradual, que pode chegar a 70 mil veículos nos próximos cinco anos.

Do ponto de vista ambiental, a importação de veículos elétricos pode acelerar a transição para energia limpa no Canadá, reduzindo a pegada de carbono dos transportes. Contudo, a origem da energia usada na produção desses veículos na China ainda é um ponto de debate, já que grande parte da eletricidade chinesa vem de fontes não renováveis.

Olhar para o futuro, é possível imaginar três cenários principais:

  1. Cooperação reforçada: o Canadá usa o acordo como trampolim para diversificar sua base de fornecedores, investindo em tecnologia própria e mantendo boas relações com os EUA.
  2. Conflito comercial: se Washington intensificar sanções contra a China, o Canadá pode ser forçado a escolher entre os dois gigantes econômicos, o que pode resultar em perdas de mercado.
  3. Reequilíbrio interno: o governo canadense pode aproveitar a redução tarifária para estimular a produção local de veículos elétricos, criando incentivos fiscais e parcerias estratégicas com empresas chinesas.

Para quem acompanha a economia doméstica, a mensagem central é: fique atento às mudanças nas tarifas e nas políticas de importação. Elas afetam diretamente o preço dos alimentos na prateleira, o custo de um carro novo e até a disponibilidade de produtos eletrônicos.

Em resumo, o acordo China‑Canadá pode ser um divisor de águas – tanto para agricultores que buscam novos mercados quanto para consumidores que desejam mais opções a preços justos. O que parece claro é que a diplomacia econômica está cada vez mais ligada à política interna de cada país, e o próximo passo será observar como Washington reage a esse movimento.