Eu estava lendo a última notícia sobre a visita do primeiro‑ministro canadense Mark Carney a Pequim e, confesso, fiquei intrigado. Afinal, quando duas potências econômicas como China e Canadá se dão as mãos, sempre tem alguma consequência para a gente, seja no preço da canola, seja nos carros elétricos que vemos nas ruas.
Um acordo que vem de longe
Depois de oito anos sem nenhum líder canadense pisar na China, Carney chegou ao país para renegociar laços que foram esfriados por tensões comerciais. O objetivo principal? Reduzir tarifas – tanto da China sobre a canola canadense quanto do Canadá sobre veículos elétricos chineses. Se tudo correr como prometido, a canola pode voltar a ser exportada com tarifas próximas de 15 % (em vez dos 84 % atuais) e quase 50 mil carros elétricos chineses poderão entrar no Canadá com apenas 6,1 % de imposto.
Por que o presidente dos EUA, Donald Trump, entrou na conversa?
Não é segredo que Trump adora usar a retórica das tarifas como ferramenta de negociação. Ele chegou a ameaçar impor 100 % de imposto sobre todas as importações canadenses caso o acordo fosse concluído. A ameaça gerou um clima de incerteza, mas também acabou reforçando a necessidade de o Canadá diversificar seus parceiros comerciais – e a China é, naturalmente, o segundo maior mercado após os EUA.
O que muda na prática para o consumidor brasileiro?
Você pode estar se perguntando: “E eu, que moro no Brasil, como isso me afeta?” A resposta está nos efeitos em cadeia do comércio global. Quando a China reduz tarifas sobre a canola canadense, o preço desse óleo no mercado internacional tende a cair. Isso pode refletir nos preços dos alimentos que contêm óleo de canola, como margarinas e alguns tipos de maioneses, que são importados ou cujas matérias‑primas vêm de lá.
Já a entrada de carros elétricos chineses no Canadá pode acelerar a competição no setor automotivo. Fabricantes globais observam esses movimentos para ajustar suas estratégias de produção e preço. No futuro, isso pode influenciar a oferta de veículos elétricos mais baratos e, quem sabe, até incentivar a chegada de modelos chineses ao Brasil, ampliando a escolha do consumidor.
Prós e contras do acordo
- Pró: Redução de tarifas para produtos agrícolas canadenses, o que pode baixar custos de importação de alimentos e melhorar a margem de lucro dos produtores.
- Pró: Abertura do mercado canadense para veículos elétricos chineses, estimulando inovação e possivelmente reduzindo preços.
- Contra: Setores domésticos canadenses (como a indústria automobilística local) temem competição desleal de veículos subsidiados.
- Contra: A postura dos EUA pode gerar retaliações que afetem cadeias de suprimentos globais, incluindo empresas brasileiras que dependem de componentes desses mercados.
Contexto histórico
Nos últimos anos, a relação entre China e Canadá tem sido marcada por atritos – principalmente depois que o governo canadense prendeu Meng Wanzhou, executiva da Huawei, em 2018. A China respondeu com tarifas sobre produtos agrícolas canadenses, como a canola. Esse embate acabou diminuindo as exportações canadenses para a China em mais de 10 % em 2025.
Com a chegada de Carney, o clima parece mudar. A China declarou que os acordos não têm “terceiros como alvo”, tentando acalmar os temores dos EUA. Ainda assim, a diplomacia comercial continua um jogo de xadrez, onde cada movimento tem repercussões nos mercados globais.
O que esperar nos próximos anos?
Se tudo seguir conforme o planejado, podemos esperar:
- Um aumento gradual da cota de veículos elétricos chineses no Canadá, chegando a cerca de 70 mil unidades em cinco anos.
- Redução de tarifas sobre canola, sementes e outros produtos agrícolas, liberando cerca de US$ 3 bilhões em pedidos de exportação para os produtores canadenses.
- Possível pressão sobre os EUA para renegociar suas próprias tarifas, já que o Canadá pode se tornar um “portão de entrada” mais barato para produtos chineses que, de outra forma, seriam direcionados ao mercado norte‑americano.
Para nós, brasileiros, a lição principal é observar como as grandes potências usam o comércio como ferramenta de influência. Quando um país abre suas portas, outros tendem a seguir, e isso pode gerar oportunidades de negócios, preços mais competitivos e, claro, alguns desafios de adaptação.
Em resumo, o acordo China‑Canadá não é apenas um detalhe diplomático; é um sinal de que o comércio global está em constante evolução, e nós, como consumidores e empresários, devemos ficar atentos às mudanças. Afinal, a economia mundial está cada vez mais interligada, e o que acontece em Pequim ou Ottawa pode acabar nas prateleiras dos supermercados brasileiros.



