Na última terça‑feira eu assisti a entrevista do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, na Band News e não consegui parar de pensar no que está acontecendo com o Banco Master. Ele descreveu a situação como “muito grave” e ainda reforçou a necessidade de rastrear e recuperar o dinheiro que foi desviado. A notícia já deu o que falar, mas o que isso realmente significa para a gente, que não tem nada a ver com o mundo dos grandes bancos?
Primeiro, vamos entender o básico: o Banco Master foi liquidado em novembro pelo Banco Central depois que se constatou uma crise de liquidez profunda – ou seja, o banco não tinha dinheiro suficiente para honrar compromissos com clientes e investidores. Segundo o diretor de fiscalização do BC, Ailton de Aquino, o caixa do banco era de apenas R$ 4 milhões, um número ridiculamente baixo para uma instituição de médio porte.
Mas a história não termina aí. As investigações revelaram que o Banco de Brasília (BRB) comprou R$ 12 bilhões em carteiras de crédito podres que não pertenciam ao Master e que não tinham garantias. Esse “pacote de dívidas” poderia exigir mais de R$ 5 bilhões do BRB para cobrir o rombo. Em termos simples, é como se alguém vendesse a sua casa por um preço inflado, sem ter a documentação correta, e depois deixasse o comprador na mão quando o banco exigisse o pagamento.
Agora, por que isso importa para quem não tem nenhum título bancário? Existem três pontos que todo cidadão deve observar:
- Confiança no sistema financeiro: Quando um banco de médio porte chega ao ponto de ser liquidado, a confiança de quem deposita dinheiro em bancos menores pode abalar. Isso pode gerar um efeito dominó, onde mais pessoas retiram seus recursos, prejudicando ainda mais a estabilidade.
- Impacto nos cofres públicos: O BRB, apesar de ser um banco estatal, tem ligação direta com o Distrito Federal e, indiretamente, com o orçamento federal. Se ele precisar de bilhões para cobrir perdas, parte desse dinheiro pode vir de recursos que, de outra forma, seriam usados em saúde, educação ou infraestrutura.
- Risco de “contágio”: Fraudes desse porte costumam revelar falhas regulatórias que podem ser exploradas por outras instituições. Se o Banco Central não agir rápido, outras fraudes podem surgir, ampliando o prejuízo para o sistema inteiro.
O que o ministro Haddad enfatizou foi a necessidade de rastrear o dinheiro desviado. Essa é uma tarefa complicada, porque os recursos muitas vezes são movimentados por meio de empresas de fachada, contas no exterior e até criptomoedas. Ainda assim, ele deixou claro que a responsabilidade de recuperar esses valores recai sobre o próprio governo e as autoridades competentes, como a Polícia Federal e o Ministério Público.
Mas será que a solução está apenas na recuperação? Eu acredito que a resposta é mais complexa. Primeiro, precisamos de transparência total nas operações dos bancos, especialmente daqueles que recebem apoio estatal. O caso do Master mostrou que o Banco Central, apesar de ser o supervisor, só entrou em ação depois que a situação já era crítica. Gabriel Galípolo, novo presidente do BC, herdou um “abacaxi” e, segundo Haddad, já tomou medidas necessárias. Ainda assim, a pergunta que fica é: por que essas medidas não foram adotadas antes?
Uma das respostas pode estar na própria estrutura regulatória. O BC tem um papel de supervisão, mas não pode intervir diretamente em crimes – essa é a atribuição da justiça. Essa separação de funções pode gerar atrasos. Uma sugestão que tem circulado entre especialistas é criar um “fundo de garantia” específico para bancos de menor porte, alimentado por contribuições obrigatórias, que possa ser acionado rapidamente em caso de crise de liquidez, evitando a necessidade de liquidação judicial.
Outra questão importante é a cultura de compliance dentro das instituições financeiras. O Master, liderado por Daniel Vorcaro, aparentemente não tinha controles internos robustos. Se todos os bancos adotassem práticas de auditoria contínua, com tecnologia de monitoramento em tempo real, seria mais difícil esconder fraudes. Essa é uma mudança de mindset que exige investimento, mas que pode salvar bilhões a longo prazo.
Falando em tecnologia, vale mencionar o papel das fintechs e das criptomoedas. Elas trazem inovação, mas também novos riscos. No caso do Master, ainda não está claro se alguma parte dos recursos desviados passou por plataformas digitais. O que fica evidente é que a regulação precisa acompanhar a velocidade das inovações, para que não haja brechas que criminosos explorem.
Então, o que eu, como cidadão, posso fazer?
- Ficar atento às notícias sobre o caso e acompanhar as decisões do BC e do Ministério da Fazenda.
- Reavaliar onde mantemos nossos investimentos. Se você tem parte do seu patrimônio em bancos menores, vale a pena checar a saúde financeira da instituição.
- Exigir maior transparência das autoridades. Cobrar que o governo publique relatórios detalhados sobre a recuperação dos recursos pode pressionar por soluções mais rápidas.
Por fim, a esperança está em que esse episódio sirva de alerta para reformas estruturais no sistema bancário brasileiro. Se o governo conseguir implementar mecanismos de prevenção mais eficazes, melhorar a supervisão e garantir que os recursos desviados sejam devolvidos ao erário, talvez possamos evitar que outra “maior fraude bancária da história do Brasil” se repita.
Enquanto isso, continuaremos acompanhando cada passo. Porque, no fundo, a estabilidade financeira do país impacta diretamente o nosso bolso, a nossa tranquilidade e a confiança que depositamos nas instituições que deveriam nos proteger.



