Eu sempre fui fascinado por histórias de tecnologia que parecem saídas de um filme de ficção científica. Quando li que a Eve Air Mobility, subsidiária da Embraer, fechou um contrato para vender carros voadores a uma empresa japonesa, senti aquela mistura de curiosidade e entusiasmo que costuma aparecer quando o futuro chega mais rápido do que a gente espera.
Os veículos em questão são os eVTOLs – veículos elétricos de decolagem e pouso vertical – que, no vocabulário popular, acabam sendo chamados de “carros voadores”. Eles são diferentes de helicópteros e de aviões elétricos tradicionais: não têm pás longas como os helicópteros, nem precisam de pista para decolar. Basta um espaço pequeno, e eles sobem e descem como se fossem drones gigantes, porém com capacidade para transportar até cinco pessoas, incluindo o piloto.
O acordo foi fechado com a AirX, a maior empresa pública de fretamento de helicópteros do Japão. O contrato garante a venda de, no mínimo, duas unidades, com a possibilidade de ampliar a compra para mais 48 veículos ao longo dos próximos anos. As entregas estão previstas para 2029, mas os testes já começaram bem antes: o voo inaugural do protótipo aconteceu em dezembro de 2025 na pista de Gavião Peixoto, no interior de São Paulo, que é a maior do hemisfério sul.
### Por que isso importa para o Brasil?
Primeiro, a produção desses eVTOLs acontece aqui mesmo, na planta da Embraer em Taubaté, São Paulo. A fábrica tem capacidade para fabricar até 480 unidades por ano, o que significa que boa parte da cadeia de suprimentos, da engenharia ao trabalho de montagem, está gerando empregos e renda no nosso país. Quando um cliente internacional como a AirX decide comprar, isso não só coloca a Embraer em evidência global, mas também reforça a reputação do Brasil como hub de inovação aeroespacial.
Além do aspecto econômico, há o ponto da sustentabilidade. Os eVTOLs são totalmente elétricos, o que reduz drasticamente a emissão de CO₂ comparado a helicópteros a combustível fóssil. Em um mundo que cada vez mais exige soluções verdes, ter um produto assim no portfólio da Embraer abre portas para projetos de mobilidade urbana em cidades brasileiras que enfrentam congestionamentos críticos.
### Como funciona um eVTOL?
– **Propulsão elétrica:** baterias de alta densidade alimentam múltiplos rotores distribuídos ao longo da fuselagem.
– **Decolagem e pouso vertical:** elimina a necessidade de pistas longas, facilitando a operação em helicópteros pads ou áreas urbanas adaptadas.
– **Capacidade:** quatro passageiros + piloto, ideal para serviços de táxi aéreo, turismo ou conexão entre cidades próximas.
– **Autonomia:** cerca de 100 km com carga completa, suficiente para trajetos curtos como Tóquio‑Osaka ou ligações entre centros comerciais.
Essas características tornam o eVTOL uma solução prática para o chamado “last‑mile” da mobilidade aérea – a parte final da viagem que ainda depende de veículos terrestres.
### Desafios ainda pela frente
Mesmo com o entusiasmo, ainda há obstáculos a superar. O primeiro deles é a certificação da ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil). Até o momento, os eVTOLs ainda precisam passar por rigorosos testes de segurança, confiabilidade e desempenho antes de receberem a liberação para voar comercialmente no Brasil. Esse processo pode levar alguns anos, mas a experiência acumulada com os testes já realizados em Gavião Peixoto acelera o caminho.
Outro ponto crítico é a infraestrutura de recarga. Para que esses veículos façam sentido em escala urbana, precisamos de estações de carregamento rápido espalhadas pela cidade, integradas a redes elétricas capazes de suportar altas demandas. Isso exige investimentos públicos e privados, além de políticas que incentivem a adoção de energia limpa.
### O futuro da mobilidade aérea urbana
A Eve projeta que a frota mundial de eVTOLs pode chegar a 30 mil unidades até 2045, transportando mais de 3 bilhões de passageiros e gerando receitas superiores a US$ 280 bi (mais de R$ 1,5 trilhão). Se esses números se confirmarem, podemos esperar que cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte criem corredores aéreos exclusivos, reduzindo o tempo de deslocamento entre bairros distantes.
Imagine poder sair de casa, subir em um pequeno “carro voador” e chegar ao seu destino em 15 minutos, sem enfrentar o trânsito caótico das ruas. Para o turismo, seria uma revolução: passeios rápidos entre pontos turísticos, como o Cristo Redentor e a Praia de Copacabana, ou ainda ligações entre aeroportos regionais que hoje dependem de viagens longas de carro.
### O que eu, como leitor, devo ficar de olho?
– **Investimentos em infraestrutura:** fique atento a editais de licitação para construção de pads de pouso e estações de recarga.
– **Regulamentação:** acompanhe as publicações da ANAC sobre certificação de eVTOLs – elas definirão prazos e requisitos para operação comercial.
– **Oportunidades de carreira:** a cadeia de produção de eVTOLs abre vagas em engenharia, software, manutenção e logística. Se você tem perfil técnico, pode ser a hora de se especializar em sistemas elétricos ou aeronáutica.
– **Impacto ambiental:** o uso de energia elétrica limpa para transporte aéreo pode reduzir a pegada de carbono das cidades, mas depende da matriz energética do país. Vale acompanhar a expansão de fontes renováveis.
### Conclusão
A venda de carros voadores da Embraer para a AirX não é apenas mais um contrato internacional. É um sinal de que a tecnologia está pronta para sair do papel e entrar nos céus de forma prática e sustentável. Para o Brasil, isso representa uma oportunidade única de consolidar sua posição no mercado aeroespacial, criar empregos qualificados e, quem sabe, transformar a maneira como nos deslocamos nas grandes cidades.
Se tudo evoluir como esperado, dentro de poucos anos poderemos ver esses veículos cruzando o céu de São Paulo, conectando bairros e oferecendo uma alternativa real ao trânsito terrestre. E, como leitor curioso, você pode acompanhar cada passo dessa jornada – desde os testes em Gavião Peixoto até as primeiras rotas comerciais sobrevoando o Japão.
Vamos ficar de olho e, quem sabe, planejar nossa próxima viagem de negócios ou lazer a bordo de um eVTOL. O futuro já está decolando, e ele traz consigo muito mais do que tecnologia: traz esperança de cidades mais conectadas e menos poluídas.



